Mpox pode começar com uma única ferida e sem febre; infectologista Vinicius Borges explica sintomas, prevenção e cuidados após diagnóstico

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Diante do aumento dos casos no Rio de Janeiro, Dr. Vinicius Borges, o Doutor Maravilha, explica como reconhecer a doença, evitar a transmissão e quais cuidados tomar após um diagnóstico positivo

Uma pequena bolinha que parece uma espinha, uma ferida na região genital ou uma lesão que surge sem explicação. Esses podem ser os primeiros sinais da mpox, mesmo quando não há febre ou outros sintomas. A dificuldade em reconhecer essas manifestações preocupa especialistas diante do crescimento dos casos no Rio de Janeiro, onde a doença já registra mais que o dobro das ocorrências contabilizadas durante todo o ano passado.

Até terça-feira (3), o estado confirmou 269 casos de mpox em 2026, contra 119 em 2025, segundo a Secretaria de Estado de Saúde. Na capital fluminense, são 196 diagnósticos neste ano, diante de 94 no período anterior. Apesar do aumento, não foram registradas mortes nos dois períodos.

Para o infectologista Vinicius Borges, conhecido nas redes sociais como Doutor Maravilha, a circulação do vírus exige atenção, sobretudo porque parte da população acredita que a doença deixou de representar um problema de saúde pública.

“A mpox volta a circular de uma maneira silenciosa porque a maioria das pessoas ainda desconhece os sintomas ou acha que desapareceu de vez. Isso mostra que precisamos reforçar a vigilância, facilitar o diagnóstico e ampliar o acesso à vacina. Não é uma situação de pânico, mas é um alerta”, afirma o médico.

Uma lesão pode ser suficiente para levantar a suspeita

Segundo o médico, um dos principais desafios está na identificação dos primeiros sintomas. Embora a mpox possa provocar febre, cansaço, dores no corpo e aumento dos gânglios linfáticos, conhecidos como ínguas, essas manifestações nem sempre aparecem.

“Às vezes, a pessoa pode ter uma única lesão no pênis, sem febre. Ela percebe uma bolinha que parece uma espinha e depois vira uma feridinha, com o centro afundado e escurecido. As lesões também podem aparecer em toda a região anogenital, na boca e em outras partes do corpo”, explica.

O infectologista destaca que essas alterações podem ser confundidas com herpes, sífilis ou outras infecções, tornando fundamental a avaliação profissional. “Qualquer lesão nova, inexplicada, merece avaliação médica, principalmente depois de contato sexual ou íntimo.”

Ao perceber sinais suspeitos, a recomendação é procurar uma unidade de saúde e evitar contatos íntimos até a avaliação. O diagnóstico pode ser confirmado por exame molecular, o PCR, realizado a partir de material coletado das lesões.

“A primeira orientação é evitar o contato íntimo e sexual até avaliar a lesão. Enquanto aguarda o resultado, a pessoa deve manter as feridas cobertas, quando possível, não manipular ou espremer as lesões e evitar compartilhar toalhas e roupas de cama. Quanto mais cedo se dá o diagnóstico, mais fácil interromper a cadeia de transmissão”, orienta.

Recebi o diagnóstico positivo. E agora?

O resultado positivo exige acompanhamento médico e medidas para proteger as pessoas próximas. Dr. Vinicius Borges explica que o paciente deve comunicar os contatos que possam ter sido expostos ao vírus e seguir as orientações de isolamento e prevenção.

“O isolamento dura, geralmente, de duas a quatro semanas, até todas as lesões cicatrizarem, as crostas caírem e crescer uma nova camada de pele. Recomendamos ficar em um quarto separado, evitar contato físico, não compartilhar objetos pessoais e higienizar roupas e superfícies”, detalha.

O cuidado deve ser redobrado em residências com crianças, gestantes e pessoas imunossuprimidas. Ainda assim, o médico ressalta que o diagnóstico não deve ser motivo para afastamento afetivo ou discriminação.

“Não precisa abandonar o paciente nem tratar a doença com medo e estigma. Com esses cuidados, a chance de transmissão dentro do ambiente doméstico fica muito reduzida.”

O tratamento é direcionado principalmente ao controle dos sintomas, à hidratação, ao cuidado com as lesões e à prevenção de infecções secundárias. Não há, atualmente, antiviral aprovado para uso rotineiro contra a mpox. O infectologista explica que o tecovirimato chegou a ser estudado, mas os ensaios clínicos não demonstraram redução significativa do tempo de cicatrização das lesões.

Quais sinais indicam que a doença está se agravando?

Embora a maioria das pessoas apresente quadros leves ou moderados, algumas manifestações exigem atendimento imediato. Entre elas estão dor intensa e de difícil controle, lesões extensas, dificuldade para urinar ou engolir, desidratação, alterações visuais, confusão mental e sinais de infecção bacteriana.

O infectologista chama atenção especialmente para pessoas com comprometimento importante do sistema imunológico, incluindo aquelas com HIV avançado e contagens muito baixas de células CD4.

“Esses pacientes podem desenvolver lesões extensas, necrose, infecções secundárias e até quadros fatais. Mas é importante deixar claro que ter HIV não significa necessariamente ter risco de mpox grave. Pessoas em tratamento antirretroviral e com acompanhamento adequado podem evoluir de maneira semelhante às pessoas que não vivem com HIV”, esclarece.

Gestantes, crianças e pessoas com outras condições de imunossupressão também necessitam de atenção especial.

Preservativo não oferece proteção completa; vacinação é fundamental

A principal forma de transmissão da mpox é o contato físico próximo com uma pessoa infectada, especialmente com lesões e fluidos corporais. O vírus também pode ser transmitido pelo compartilhamento de objetos contaminados, como roupas de cama e toalhas, e pelo contato próximo com secreções respiratórias.

“O preservativo continua sendo muito importante para a saúde sexual, mas não é suficiente para prevenir a mpox, porque a transmissão pode acontecer pelo contato pele a pele, em regiões que não estão cobertas”, explica.

O médico recomenda evitar contato íntimo diante de sintomas suspeitos, conversar com parceiros sobre possíveis exposições e considerar a redução temporária de situações com múltiplos contatos íntimos durante períodos de maior circulação do vírus.

A vacinação é outra ferramenta importante, mas o acesso no Brasil permanece restrito a grupos prioritários, como pessoas vivendo com HIV/aids e imunossupressão, profissionais de laboratório expostos ao vírus e indivíduos que tiveram contato de risco com casos suspeitos ou confirmados, conforme avaliação dos serviços de saúde.

A vacina também pode ser utilizada após uma exposição, preferencialmente nos primeiros quatro dias e, em determinadas circunstâncias, até 14 dias depois, com o objetivo de reduzir o risco de agravamento.

“A vacina contra a mpox existe e é uma ferramenta superimportante. No Brasil, o acesso é muito limitado”, afirma o infectologista, que cobra maior disponibilidade de doses.

O Ministério da Saúde anunciou reforço dos estoques de vacinas destinados ao Rio de Janeiro, mas a ampliação efetiva da oferta depende da chegada e distribuição dos imunizantes. A vacinação continua direcionada aos grupos definidos pelas autoridades sanitárias.

O preconceito também atrasa o diagnóstico

Para o dr. Vinicius Borges, outro obstáculo importante é a associação equivocada da mpox exclusivamente a determinados grupos, especialmente homens gays. O infectologista explica que qualquer pessoa exposta ao vírus pode ser infectada e que a comunicação sobre prevenção precisa considerar situações de risco sem reforçar estigmas.

“O vírus não tem orientação sexual. Embora alguns grupos tenham sido proporcionalmente mais afetados nos surtos recentes, qualquer pessoa pode adquirir a doença. Precisamos falar sobre comportamentos e situações de exposição sem transformar identidades em fatores de culpa.”

O médico alerta que a vergonha e o medo de discriminação podem fazer com que pessoas com sintomas demorem a procurar atendimento, favorecendo complicações e novas transmissões.

“Se você perceber uma lesão, procure o serviço de saúde, faça o exame, peça o atestado para cumprir o isolamento e siga corretamente os cuidados com as feridas. Você pode ficar bem”, orienta.

Para ele, a mpox precisa ser incorporada às conversas sobre saúde sexual, assim como já acontece com HIV e sífilis, com informações acessíveis, acolhimento e respeito às pessoas afetadas.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

Dr. Vinicius Borges

Instagram: @doutormaravilha

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