Mpox no Rio de Janeiro:  “É preciso reconhecer  que estamos diante de um problema relevante de saúde pública que exige uma resposta proporcional à situação epidemiológica atual”, sinaliza Dra. Mayara  Secco infectologista do INI/Fiocruz

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 Encontrada  inicialmente no Reino Unido em Maio de 2022, a variante Clado IIb( 2b)  está circulando no Rio de Janeiro e, aliada a cloro 1 B  e a falta de prevenção eficiente  e de diagnósticos corretos,  poderá  contribuir  para compreendermos o aumento de casos  de Mpox registrados  por lá.  Os números  de MPox no Rio  aumentaram  significativamente :  cerca de  211 diagnósticos este ano, quase o dobro dos números registrados ano passado. 

 O  Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), unidade de referência da Fiocruz para o atendimento de doenças infecciosas e emergentes, está com o seu pronto atendimento funcionando 24 horas por dia durante os sete dias da semana .O serviço funciona na Avenida Brasil, 4.365. Em dias úteis, das 8h às 16h, o atendimento é realizado pelo Setor de Ambulatório. Nos demais horários, o atendimento ocorre por meio do plantão do Centro Hospitalar. 

Um aspecto que tem chamado a atenção dos pesquisadores é a identificação do Clado Ib entre as cepas responsáveis pelas infecções recentes no Rio . Esse clado foi associado a surtos recentes em países do continente africano. Embora sua presença tenha sido identificada pela primeira vez no município em uma pessoa atendida no INI-Fiocruz em março de 2026, não houve aumento expressivo no número de diagnósticos nos meses subsequentes. Entretanto, entre setembro e outubro, das 62 pessoas com informação sobre o clado já disponível, 43 apresentaram infecção pelo Clado Ib e 19 pelo Clado IIb. Esse cenário reforça o alerta para a circulação simultânea dos dois clados no atual contexto epidemiológico do Rio de Janeiro.

 Médica infectologista, com residência médica em Infectologia pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz (INI-Fiocruz), onde também concluiu mestrado e doutorado. É Pesquisadora em Saúde Pública da Fiocruz, vinculada ao Laboratório de Pesquisa Clínica em HIV, Aids, Infecções Sexualmente Transmissíveis e Hepatites (LaPClin Aids/INI-Fiocruz), a infectologista Mayara Secco respondeu perguntas feitas pela Agência.

Disse  considerar “ importante que pessoas que apresentem lesões suspeitas, especialmente quando associadas a outros sintomas ou a uma possível exposição ao vírus, procurem atendimento em um serviço de saúde para avaliação e investigação diagnóstica.” Ressaltou  que   ““É preciso reconhecer  que estamos diante de um problema relevante de saúde pública que exige uma resposta proporcional à situação epidemiológica atual”.

1) O jornal O Globo publicou uma reportagem informando que o número de casos de mpox no Rio de Janeiro aumentou consideravelmente: foram 211 diagnósticos neste ano, quase o dobro dos números registrados no ano passado. Por que esse quadro está acontecendo e se acentuando no Rio de Janeiro?

Desde o início do surto de mpox, em 2022, o Rio de Janeiro tem figurado entre os estados brasileiros com maior número de diagnósticos da doença. Naquele primeiro momento, a epidemia foi predominantemente associada ao clado IIb do vírus monkeypox (MPXV), responsável pela disseminação internacional observada a partir de 2022.

Após a redução expressiva dos casos em relação ao pico inicial, observamos novas ondas de diagnósticos em 2023 e 2024, embora com magnitude consideravelmente menor. É importante destacar, entretanto, que a redução no número de casos não significou o desaparecimento da doença. No INI-Fiocruz, mantivemos ininterruptamente, desde 2022, um serviço de referência para o atendimento de pessoas com suspeita ou confirmação de mpox. Ao longo desse período, continuamos identificando e acompanhando casos, o que demonstra a persistência da circulação comunitária do vírus no estado do Rio de Janeiro, ainda que em níveis mais baixos.

Em agosto de 2024, diante de um novo aumento global de casos de mpox, inicialmente concentrado na República Democrática do Congo e em outros países do continente africano, a Organização Mundial da Saúde voltou a declarar a doença uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. Foi nesse contexto que o clado Ib foi identificado pela primeira vez, sendo posteriormente associado à disseminação internacional da doença e à identificação de casos em diferentes regiões do mundo.

O Rio de Janeiro, por sua intensa circulação de pessoas e por ser um importante destino turístico internacional, está particularmente exposto à introdução e à circulação de diferentes linhagens do vírus. No Brasil, os primeiros registros do clado Ib foram identificados em pessoas com histórico de viagem internacional. Posteriormente, no início de 2026, o INI-Fiocruz identificou os primeiros casos com evidências de transmissão comunitária desse clado no país. Naquele momento, entretanto, não observamos um aumento expressivo no número total de diagnósticos.

O cenário mudou a partir de setembro de 2026, com uma intensificação importante dos diagnósticos, especialmente em outubro. Temos identificado casos associados tanto ao clado Ib quanto ao clado IIb, indicando que diferentes linhagens virais estão circulando simultaneamente. A situação epidemiológica atual provavelmente resulta da combinação de diferentes fatores. Entre eles, destacamos a persistência da transmissão comunitária desde 2022, a baixa cobertura vacinal, que limita a proteção da população, especialmente entre os grupos mais afetados pela epidemia, e a introdução e disseminação de novas linhagens virais. Ainda precisamos de estudos mais aprofundados para compreender a contribuição de cada um desses fatores para o aumento observado. Nesse sentido, estamos conduzindo na Fiocruz análises filogenéticas das amostras virais identificadas que serão fundamentais para compreender melhor as cadeias de transmissão, a dinâmica de circulação dos diferentes clados e a evolução do cenário atual.

Esse aumento reforça a importância de mantermos uma vigilância epidemiológica ativa, ampliar o acesso ao diagnóstico e à assistência e fortalecer as estratégias de prevenção, incluindo a vacinação das pessoas elegíveis. É fundamental que as pessoas com suspeita de mpox encontrem serviços de saúde preparados para acolhê-las, realizar o diagnóstico e oferecer acompanhamento adequado, sem estigmatização ou barreiras de acesso. A capacidade de resposta do SUS e a continuidade dos serviços especializados são essenciais para o enfrentamento desse cenário.

2) Em quais sintomas as pessoas devem prestar atenção e o que devem fazer para saber se é mpox ou não?

A mpox pode apresentar manifestações clínicas bastante diversas. Em alguns casos, os primeiros sintomas são inespecíficos, como febre, cansaço, dor no corpo, dor de garganta e dor nas regiões genital ou anal. Em outros, as lesões de pele podem ser a primeira manifestação da doença, sem que a pessoa apresente febre ou outros sintomas gerais.

As lesões cutâneas são uma das principais manifestações da mpox e podem apresentar diferentes aspectos ao longo da evolução da doença. Podem surgir como manchas, pequenas elevações na pele, vesículas (pequenas bolhas com conteúdo líquido), pústulas (lesões com conteúdo purulento) ou úlceras. Algumas apresentam uma característica bastante sugestiva da mpox: uma depressão central, semelhante a um pequeno umbigo ou ponto central, conhecida como umbilicação. Com a evolução, as lesões podem formar crostas, que posteriormente se desprendem, permitindo a cicatrização da pele.

Essas lesões podem aparecer em diferentes partes do corpo, incluindo rosto, tronco, braços, pernas, mãos, pés e, frequentemente, nas regiões genital e anal. Também podem ocorrer em mucosas, como na boca, na região genital e no reto. Nesses casos, as manifestações podem ser internas e nem sempre são facilmente percebidas pela própria pessoa, o que pode atrasar o reconhecimento da doença. As lesões nessas regiões podem se apresentar como úlceras e causar dor importante.

Dependendo da apresentação clínica, a mpox pode ser confundida com outras infecções que também causam lesões na pele ou nas mucosas, como varicela (catapora), herpes e sífilis. Por isso, não é possível confirmar o diagnóstico apenas pela aparência das lesões ou pelos sintomas. A avaliação por um profissional de saúde e a realização do exame laboratorial são fundamentais.

A confirmação diagnóstica é feita principalmente por meio de um exame molecular chamado PCR para MPXV, realizado a partir da coleta de material das lesões com um swab. Esse exame permite identificar a presença do material genético do vírus e confirmar o diagnóstico.

É importante que pessoas que apresentem lesões suspeitas, especialmente quando associadas a outros sintomas ou a uma possível exposição ao vírus, procurem atendimento em um serviço de saúde para avaliação e investigação diagnóstica. Até que haja uma avaliação adequada, é recomendado evitar o contato físico próximo, inclusive relações sexuais, e o compartilhamento de objetos de uso pessoal, como toalhas e roupas, para reduzir o risco de transmissão.

O diagnóstico laboratorial está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). No Rio de Janeiro, o INI-Fiocruz mantém um serviço de referência para o atendimento de pessoas com suspeita de mpox, com funcionamento 24 horas. Nosso objetivo é garantir o acesso oportuno à avaliação clínica, ao diagnóstico e ao acompanhamento, contribuindo também para a identificação de novos casos e para a vigilância epidemiológica da doença.  

3 ) Os casos identificados atualmente no Rio de Janeiro pertencem ao mesmo grupo genético identificado anteriormente? Qual a diferença entre os clados  Ib e IIb?

Para compreender o cenário atual, é importante contextualizar a classificação genética do vírus da mpox. Historicamente, reconhecemos dois grandes clados do vírus: o clado I e o clado II, que posteriormente foram subdivididos em subclados.

O clado IIb foi o principal responsável pelo surto internacional iniciado em 2022, que atingiu diversos países, inclusive o Brasil. Naquele contexto, observamos uma importante transmissão por contato sexual, embora a transmissão também possa ocorrer por outras formas de contato físico próximo, especialmente pelo contato direto com lesões ativas de pessoas com mpox.

O clado I, por sua vez, continuou circulando principalmente em países da África Central, historicamente associado a quadros clínicos mais graves e maior letalidade. Em 2024, um novo aumento global de casos, inicialmente concentrado na República Democrática do Congo e em outros países do continente africano, levou à identificação e caracterização do subclado Ib, pertencente ao clado I. Nesse contexto, também foram documentadas cadeias de transmissão associadas ao contato sexual.

No Brasil, os primeiros casos de clado Ib foram identificados em 2026, enquanto o clado IIb continuou circulando. No Rio de Janeiro, a presença do clado Ib foi identificada pela primeira vez em março de 2026, em uma pessoa atendida no INI-Fiocruz. Naquele momento, apesar dessa identificação, não observamos um aumento expressivo no número de diagnósticos nos meses subsequentes.

O cenário mudou a partir de setembro de 2026, com um aumento expressivo no número de diagnósticos, especialmente em outubro. Nesse período, identificamos casos associados tanto ao clado Ib quanto ao clado IIb. Esse cenário reforça a importância de acompanhar a circulação simultânea das duas linhagens virais no Rio de Janeiro.

Historicamente, o clado I foi associado a maior gravidade clínica quando comparado ao clado II. Entretanto, essa diferença precisa ser interpretada considerando diversos fatores, como as características das populações afetadas, as condições de saúde, o acesso aos serviços de saúde e a disponibilidade de diagnóstico e tratamento adequados. Portanto, não devemos assumir que a infecção pelo clado I necessariamente resultará em um quadro mais grave.

Ainda estamos investigando se existem diferenças clínicas significativas entre as apresentações associadas a essas linhagens na população acompanhada pelo INI-Fiocruz. Essas análises são importantes para ampliar o conhecimento sobre a doença e orientar as estratégias de vigilância e assistência.

Independentemente do clado envolvido, as recomendações de prevenção, diagnóstico e assistência permanecem as mesmas. O mais importante neste momento é dar visibilidade ao cenário epidemiológico atual, para que a população esteja informada, reconheça os possíveis sinais e sintomas da doença e saiba onde procurar atendimento. Precisamos fortalecer a vigilância, ampliar o acesso ao diagnóstico e garantir assistência adequada e oportuna às pessoas afetadas, sem estigmatização. Essa é uma resposta que depende do fortalecimento do SUS e da capacidade dos serviços de saúde de acolher e cuidar das pessoas.

4) A vacina, disponível no SUS desde 2023 tem eficácia comprovada para este tipo 2B?

Sim. A vacina utilizada no Brasil é a JYNNEOS, também conhecida como MVA-BN, desenvolvida a partir de uma cepa modificada do vírus vaccinia Ankara, que pertence à mesma família viral do vírus da mpox (Orthopoxvirus). É uma vacina não replicante, ou seja, não tem capacidade de se multiplicar no organismo.

Temos evidências de efetividade dessa vacina na prevenção da mpox, principalmente a partir de estudos realizados durante o surto internacional de 2022, quando predominava a circulação do clado IIb. Estudos observacionais estimaram uma efetividade entre 50% e 75% após uma dose e de até 85% após a administração das duas doses, que constituem o esquema recomendado. Esses resultados demonstram uma proteção importante, embora não absoluta, contra a doença.

Em relação ao clado Ib, ainda não dispomos de dados de efetividade clínica diretamente demonstrados em estudos com pessoas afetadas por essa variante. Entretanto, existem evidências indiretas que sustentam a expectativa de proteção cruzada da vacina contra diferentes clados do vírus, incluindo estudos de resposta imunológica e estudos em modelos animais que demonstraram proteção contra infecções pelo clado I.

Portanto, embora ainda precisemos de estudos para quantificar a efetividade da vacina especificamente contra o clado Ib, não há indicação de que a vacinação deva ser considerada menos importante diante da circulação dessa linhagem. Pelo contrário, é fundamental ampliar a cobertura vacinal no Sistema Único de Saúde, sobretudo entre as pessoas mais afetadas e garantir que aquelas que iniciaram o esquema completem as duas doses recomendadas.

5) A senhora poderia nos informar quantos destes casos registrados no Rio são pessoas vivendo com HIV? Qual a recomendação para as pessoas vivendo com HIV se prevenirem?

De acordo com as informações disponíveis no painel epidemiológico do Ministério da Saúde, aproximadamente 35% dos casos de mpox registrados no Brasil desde 2022 ocorreram em pessoas vivendo com HIV. Nos dados da coorte acompanhada pelo INI-Fiocruz, essa proporção é de aproximadamente 45% e se mantém relativamente estável desde o início do acompanhamento, em 2022, permanecendo também elevada no cenário epidemiológico atual.

Esses dados reforçam a importância de integrar as estratégias de prevenção e assistência à mpox aos serviços de atenção às pessoas vivendo com HIV e de garantir que essa população tenha acesso oportuno à vacinação e ao diagnóstico. É importante destacar que o risco de complicações está particularmente relacionado à presença de imunossupressão, especialmente quando grave. Por isso, pessoas com imunossupressão grave estão entre os grupos prioritários para a vacinação contra mpox no SUS.

De forma geral, as recomendações de prevenção são as mesmas para todas as pessoas. É importante reconhecer precocemente possíveis lesões suspeitas e procurar um serviço de saúde para avaliação clínica e realização do exame diagnóstico.

Diante da suspeita ou confirmação de mpox, recomenda-se evitar o contato íntimo e direto com outras pessoas, utilizar máscara quando houver necessidade de proximidade e manter as lesões cobertas sempre que possível. Os cuidados durante o período de recuperação, incluindo a necessidade e a duração do isolamento domiciliar, devem ser orientados pelos profissionais de saúde, de acordo com cada situação clínica e com as medidas necessárias para reduzir o risco de transmissão.

A vacinação também constitui uma estratégia fundamental de prevenção. O uso de preservativos pode reduzir o risco de transmissão durante o contato sexual, mas não oferece proteção completa, uma vez que pode ocorrer contato com lesões localizadas em áreas do corpo não cobertas pelo preservativo.

Por fim, é importante reforçar que as pessoas vivendo com HIV devem manter seu acompanhamento regular nos serviços de saúde e o tratamento antirretroviral buscando preservar sua saúde imunológica. Caso apresentem sintomas suspeitos de mpox, devem procurar assistência sem demora. O diagnóstico oportuno e o acompanhamento clínico são fundamentais para monitorar a evolução da doença, controlar os sintomas e identificar precocemente possíveis complicações.

6) Por que a vacina que previne mpox não está chegando antes que o vírus encontre as pessoas?

Essa é uma questão importante e que envolve desafios tanto nacionais quanto globais. A vacinação contra a mpox no Brasil começou apenas em março de 2023, quando já havíamos passado pelo pico inicial do surto de 2022. A disponibilidade internacional de doses era limitada, e o acesso às vacinas foi marcado por desigualdades na distribuição global de tecnologias de prevenção, com restrições importantes para países do Sul Global, incluindo o Brasil.

Além da limitação na oferta de vacinas, tivemos inicialmente critérios de elegibilidade bastante restritos, que priorizavam principalmente pessoas vivendo com HIV e imunossupressão avançada. Mesmo com a posterior ampliação dos critérios, o número de doses disponibilizadas permaneceu muito abaixo da necessidade potencial da população que poderia se beneficiar da vacinação.

Recentemente, publicamos um estudo na revista Journal of the International AIDS Society, baseado em uma pesquisa nacional com mais de 9.500 pessoas pertencentes a minorias sexuais e de gênero no Brasil, que demonstrou uma cobertura vacinal extremamente baixa: apenas 4,9% dos participantes relataram ter recebido alguma dose da vacina contra mpox. Entre as pessoas vacinadas, quase metade havia recebido apenas uma dose, não completando o esquema recomendado de duas doses. Um dado que também chama a atenção é que aproximadamente uma em cada seis pessoas vacinadas havia recebido a vacina fora do Brasil, o que evidencia desigualdades no acesso à tecnologia de prevenção. Nosso estudo também identificou desigualdades importantes no acesso à vacinação. Pessoas que se autodeclararam brancas apresentaram maior probabilidade de vacinação quando comparadas àquelas com raça/cor autodeclarada preta, parda, amarela ou indígena. Esses resultados mostram que não estamos diante apenas de um problema de disponibilidade de doses, mas também de barreiras estruturais, sociais e institucionais que dificultam o acesso de determinadas populações às estratégias de prevenção.

Nosso estudo também identificou desigualdades importantes no acesso à vacinação. Pessoas que se autodeclararam brancas apresentaram maior probabilidade de vacinação quando comparadas àquelas com raça/cor autodeclarada preta, parda, amarela ou indígena. Esses resultados mostram que não estamos diante apenas de um problema de disponibilidade de doses, mas também de barreiras estruturais, sociais e institucionais que dificultam o acesso de determinadas populações às estratégias de prevenção.

Um aspecto importante é que os dados dessa pesquisa apontam baixa hesitação em relação à vacina contra mpox entre as populações mais afetadas no Brasil. Isso sugere que a baixa cobertura vacinal está muito mais relacionada à dificuldade de acesso, à oferta insuficiente e às limitações da estratégia de implementação do que à falta de interesse das pessoas em se vacinar.

O primeiro passo para mudar esse cenário é reconhecer que estamos diante de um problema relevante de saúde pública, que exige uma resposta proporcional à situação epidemiológica atual. Precisamos ampliar a disponibilidade de doses para o Brasil, fortalecer a articulação internacional para melhorar o acesso às vacinas e estabelecer estratégias de vacinação que alcancem efetivamente as pessoas que mais podem se beneficiar dessa proteção.

É fundamental que a distribuição das doses considere tanto as populações mais afetadas pela transmissão da mpox, incluindo minorias sexuais e de gênero, quanto as pessoas com maior vulnerabilidade à evolução para formas graves da doença, especialmente aquelas com imunossupressão. Essa priorização deve ser baseada em critérios epidemiológicos e clínicos, garantindo equidade no acesso e sem criar barreiras ou estigmas.

Também precisamos integrar a vacinação aos serviços que já oferecem prevenção combinada do HIV e das infecções sexualmente transmissíveis, especialmente os serviços de PrEP e de atenção à saúde sexual. São estratégias que podem facilitar o acesso à vacinação, ampliar a cobertura e favorecer a conclusão do esquema de duas doses.

O Brasil tem uma importante experiência na organização de políticas públicas de imunização por meio do SUS. É fundamental aproveitar essa capacidade para fortalecer a resposta à mpox, ampliar o acesso à vacinação e garantir que as estratégias de prevenção acompanhem as necessidades epidemiológicas da população. A vacinação é uma ferramenta importante de saúde pública e precisamos avançar para que ela esteja disponível de forma mais ampla e equitativa para as pessoas que dela necessitam.

 Redação Agência Aids

Dica de entrevista :  comunicacao@ini.fiocruz.br

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