Hesitante e errática, a postura de líderes mundiais no enfrentamento à pandemia da Covid-19 causa surpresa e sensação de desamparo. Enquanto a doença se espalha e faz centenas de milhares de vítimas, autoridades parecem perdidas. O prefeito de Milão, Giuseppe Sala, por exemplo, chegou a lançar uma campanha contra medidas restritivas e, depois, precisou voltar atrás e se desculpar quando a cidade se tornou o epicentro da crise na Itália. Nos Estados Unidos, o republicano Donald Trump primeiro minimizou, depois fez declarações reforçando a gravidade do momento, em seguida passou a atacar a China e a Organização Mundial da Saúde (OMS), atribuindo ao país e à entidade a culpa pela proliferação do novo coronavírus.

No Brasil, nos primeiros meses, as políticas sanitárias propostas pelo Ministério da Saúde estavam na contramão do que pretendia o governo federal. E, mesmo nos Estados, entre prefeitos e governadores há embates sobre quais seriam os meios de enfrentamento mais efetivos. O Ministério Público e o Judiciário também têm feito intervenções em relação a decretos considerados desproporcionais ou descabidos.

À luz da história, é sensível que o posicionamento titubeante dos líderes políticos não é uma novidade é que, em outros momentos históricos em que a humanidade lutava contra outros inimigos invisíveis, essa inação agravou crises.

O médico californiano Marcus Conant, que em 1981 foi um dos primeiros a diagnosticar e tratar o HIV, por exemplo, já criticou publicamente o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, por ter levado cinco anos para reagir a Aids. No período, estima-se que cerca de 21 mil americanos morreram da doença. Conant atribuiu a inação a razões ideológicas, morais e políticas.

Um quadro que se repetiu não apenas nos casos aids e Covid-19, mas que também é comum a outras pandemias. Cindy Ermus, professora do departamento de história na Universidade do Texas em San Antonio e que prepara um livro sobre a Grande Praga da Provença, traçou paralelos entre a reação das autoridades ao coronavírus e à crise sanitária que ela vem estudando.

“Em 25 de maio de 1720, um navio chamado Grand Saint-Antoine chegou ao porto de Marselha, na França, carregado de algodão, sedas finas e outras mercadorias. Uma carga invisível também era transportada: as bactérias Yersinia pestis, que provocaram a Grande Praga da Provença, o último grande surto de peste bubônica na Europa”, escreve a historiadora em um artigo publicado no portal Stat, dedicado a notícias sobre saúde, medicina e sobre o universo dos negócios da fabricação de medicamentos.

Embora fosse praxe que, naquele momento, navios suspeitos de infecção ficassem em quarentena antes de serem descarregados, não foi o que aconteceu no caso do Grand Saint-Antoine. Mesmo constando que marinheiros haviam morrido durante a viagem com sintomas da doença, os produtos foram rapidamente transportados para a cidade depois de uma interferência de Jean-Baptiste Estelle, um influente magistrado que possuía parte da embarcação e grande parte de sua carga lucrativa.

“O número de infecções e mortes começou a subir em poucos dias, e a ameaça à economia desse importante porto comercial tornou-se real. Mas, em vez de tomarem medidas emergenciais, as autoridades lançaram uma elaborada campanha de desinformação, chegando a contratar médicos para diagnosticar a doença como apenas uma febre maligna”, expõe Cindy no texto.

As medidas apropriadas para o enfrentamento da peste – como a quarentena, embargos comerciais, o imediato enterro de cadáveres, a distribuição de alimentos e de ajuda e campanhas de desinfecção urbana – só foram adotadas dois meses após o aparecimento dos primeiros casos. Mas já era tarde: em dois anos, a bactéria se espalhou pelo sudeste da França, matando até metade dos moradores de Marselha e até 20% da população da Provença, informa Cindy.

Falso dilema

Além de provocar mais mortes, a inércia de autoridades pode agravar crises financeiras decorrentes do adoecimento da população – como aponta o estudo Pandemias deprimem a economia, intervenções em saúde pública não: evidências da gripe de 1918.

Enquanto líderes políticos se vem presos ao que especialistas apontam como um falso dilema entre priorizar saúde ou economia, o estudo do Banco Central dos Estados Unidos – o Federal Reserve (FED) – e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), divulgada em 26 de março, indica que territórios norte-americanos que adotaram mais prontamente medidas sanitárias em resposta à gripe espanhola, em 1918, conseguiram se recuperar economicamente antes daqueles que demoraram a reagir.

Cada um por si

As estratégias de enfrentamento à pandemia da Covid-19 não trazem, em alguns aspectos, grandes novidades em relação ao que se viu em outros momentos históricos. Victor Hugo de Souza Barreto, doutor em antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), cita que as políticas de saúde adotadas agora, no caso do novo coronavírus, e aquelas a que se recorreu para frear a disseminação do HIV têm verniz individualista e são classificadas por alguns autores como de matiz neoliberal.

“Essas ansiedades, discursos e reações que tanto se assemelham mostram os regimes de moralidades que estão por trás das respostas às epidemias. Tratam-se também de ‘doenças morais’, portanto, já que a não contaminação e a eficácia do tratamento é atrelada a uma responsabilidade individual de prevenção”, anota ele no texto Pandemia, sexualidade e percepção do risco: algumas notas sobre quarentena e desejo. “Cabe a você se proteger, tomar os cuidados necessários e aqueles que são irresponsáveis, ou seja, que faltaram com o cuidado e que se expõem ao perigo, não devem ser responsabilidade do Estado. O Estado (e o restante da sociedade) não pode pagar pelos que não sabem governar a si mesmos”, completa o autor.

A culpabilização da pessoa enferma é motivo de sofrimento tanto para portadora do HIV quanto para aqueles com diagnóstico positivo para o coronavírus. Uma matriz de pensamento que, aliás, desresponsabiliza o poder público. “É, acima de tudo, uma estupidez dizer que é simples assim, que só é infectado quem quer ser”, critica Unaí Tupinambás, professor do departamento de clínica médica da Faculdade de Medicina da UFMG. Para ele, trata-se de uma lógica que reforça a falta de empatia e de civilidade.

“Lógico que o autocuidado e a adesão a medidas preventivas são fundamentais, e estão no campo do individual. Mas, para isso, é preciso um esforço das autoridades a fim de garantir o acesso à informação, à saúde e à educação, de forma que cada pessoa tenha autonomia para fazer suas escolhas”, pontua ele, que é membro do comitê municipal de enfrentamento a Covid-19 de Belo Horizonte. “Pensar que é cada um por si é o suprassumo da individualidade”, conclui.

Editor do americano The Body, que desde 1995 publica informações, notícias, suporte e perspectivas pessoais relacionadas ao HIV, Mathew Rodriguez põe em questão a efetividade, enquanto política de enfrentamento à pandemia, das estratégicas vexatórias que buscam, prioritariamente, expor aqueles que descumprem as preconizadas medidas sanitárias.

Ante as incisivas cobranças em relação a comportamentos individuais, é urgente cobrar respostas de políticos e questionar estruturas sociais que inibem a habilidade pessoal de responder efetivamente ao vírus, pondera Rodriguez no artigo Covid-19 e HIV não são iguais. Mas são semelhantes de muitas e importantes maneiras.

 

Brasil foi exemplo no enfrentamento a aids

Em relação à pandemia da Aids, a resposta brasileira foi se qualificando com o tempo até tornar-se uma referência, sendo aplaudida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Fator decisivo no enfrentamento à doença no país foi a mobilização da sociedade civil LGBT que, através de organizações não-governamentais e movimentos sociais, desenvolveu um conjunto de ações de cuidado fundamentais baseados nos pilares da solidariedade, do acolhimento e da escuta das condições específicas de cada um.

É o que lembra o coordenador do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da federal mineira (Nuh/UFMG) Marco Aurélio Prado, completando que essa ação levou a um movimento de descolonização médica do HIV, passando a considerar determinante sociais, para além dos biológicos. “Esse aprendizado não estamos trazendo para agora e é urgente que a política de enfrentamento de hoje aprenda com o passado”, afiança.

Prado defende “uma ética do cuidado solidário que não se baseie na noção de grupo de risco, mas, sim, na noção de vulnerabilidade, e uma ética da escuta da diferença que se baseie na participação social, no acolhimento e nas redes de cuidado solidário de enfrentamento a pandemia”. Obviamente, reforça, tudo isso deve ser pensado à luz do presente, do contexto de uma pandemia que exige várias mudanças em nossa vida social e individuais para o seu enfrentamento.

Para ele, que é professor do departamento de psicologia da UFMG, a noção de isolamento social, por exemplo, deve substituída pela ideia de um isolamento espacial – “que é o que a prevenção exige”, diz, citando que, hoje, existem formas de relações sociais que suportam o isolamento espacial. “Como nomeamos o que vamos fazer determina fortemente o que faremos”, conclui.

Paul Preciado também propõe uma revisão na forma como o mundo lida com a pandemia. No ensaio aprendendo com o vírus, publicado em março na edição espanhola do jornal “El País”, ele reflete, entre outros temas, sobre a ausência de novidade nas estratégias até então utilizadas, diz. Mesmo aquelas que usam aparatos tecnológicos para o controle da proliferação do vírus já foram testadas antes.

“Desde o início da década de 2010, por exemplo, Taiwan legalizou o acesso a todos os contatos telefônicos telefones em aplicações de encontros sexuais com o objetivo de “impedir” a disseminação da Aids e da prostituição na internet”, cita. Para o espanhol, a Covid-19 apenas legitimou e ampliou essas práticas de vigilância e controle.

“Ao contrário do que se possa imaginar, nossa saúde não virá da imposição de fronteiras ou separação, mas de um novo entendimento da comunidade com todos os seres vivos, de um novo equilíbrio com outros seres vivos do planeta”, propõe o filósofo.

 

Fonte: O Tempo