Na reta final do segundo turno, candidatos apresentam novos compromissos para o SUS. Programas incluem prevenção de ISTs, combate à sífilis congênita e saúde LGBTQIA+, mas não estabelecem metas específicas para HIV, PrEP e PEP
A cinco dias do segundo turno das eleições, marcado para 25 de outubro, Professora Dorinha (União Brasil) e Vicentinho Júnior (PSDB) intensificaram o debate sobre os desafios da saúde pública no Tocantins. Ampliação de hospitais, redução das filas, descentralização do atendimento e mudanças na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) estão entre as promessas dos candidatos. Entretanto, em um estado cuja taxa de detecção de aids supera a média nacional, os programas de governo e os compromissos públicos consultados ainda não apresentam metas específicas para prevenção, diagnóstico e tratamento do HIV.
A disputa pelo Palácio Araguaia segue acirrada. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Dorinha recebeu 386.260 votos (45,52% dos válidos), contra 372.848 (43,94%) de Vicentinho, uma diferença de apenas 13.412 votos. Pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta terça-feira (20) aponta Vicentinho com 52% dos votos válidos, enquanto Dorinha aparece com 48%. Considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, os candidatos estão tecnicamente empatados.
Em setembro, a Agência de Notícias da Aids mostrou que os programas dos dois candidatos incluíam propostas relacionadas à saúde sexual, às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e ao atendimento da população LGBTQIA+, mas não detalhavam medidas específicas para HIV e aids. Na reta final da campanha, os novos compromissos públicos reforçam prioridades para a rede assistencial, sem esclarecer como essas ações serão articuladas às políticas de prevenção e cuidado relacionadas ao vírus.
Saúde ganha espaço no confronto entre os candidatos
Os problemas da rede pública estiveram entre os principais temas dos debates realizados nesta segunda-feira (19). Durante encontro promovido pela TV Norte, afiliada do SBT, Vicentinho criticou a gestão estadual e cobrou soluções para a falta de medicamentos, as filas e as dificuldades de acesso aos serviços. O candidato prometeu mutirões de consultas, exames e procedimentos em diferentes regiões do estado, além de melhorias na estrutura hospitalar.
Dorinha, que conta com o apoio do atual governador, Wanderlei Barbosa, defendeu mudanças nos serviços que apresentam problemas e maior eficiência na gestão de medicamentos. A candidata também propôs modernizar os processos de compras e o controle dos estoques. Durante o debate da RedeTV! Tocantins, reiterou que pretende reorganizar o atendimento e modificar estruturas que não estejam funcionando adequadamente.
Apesar do espaço dedicado à saúde, não foram identificados, nas declarações consultadas, novos compromissos específicos para ampliar a prevenção ou o tratamento do HIV.
Dorinha prioriza hospitais, saúde da mulher e combate à sífilis congênita

O programa de Professora Dorinha para 2027 a 2030 prevê fortalecer a atenção primária, ampliar os serviços especializados e integrar a rede pública. Entre as propostas estão colocar o Hospital Geral de Araguaína em funcionamento com 100% de sua capacidade, concluir o Hospital Geral de Gurupi e o Hospital da Mulher e Maternidade Estadual, em Palmas, além de construir uma maternidade em Araguatins.
Para reduzir as filas, a candidata estabelece a meta de realizar 20 mil cirurgias eletivas por ano, com participação de hospitais estaduais, unidades municipais e da rede privada conveniada. O programa também contempla investimentos em saúde digital, hemodiálise e atendimento especializado por Telessaúde, buscando diminuir os deslocamentos de pacientes entre municípios.
Na saúde sexual e reprodutiva, Dorinha propõe fortalecer a política estadual de enfrentamento da sífilis congênita, ampliar o pré-natal e implantar o exame de DNA/HPV para rastreamento do câncer do colo do útero. O documento também prevê ações voltadas à saúde da população LGBTQIA+, incluindo o fortalecimento da política estadual de atendimento e a criação de estruturas de referência e acolhimento.
Embora contemplem aspectos importantes da prevenção e da assistência, essas propostas não estabelecem metas específicas para testagem de HIV, tratamento antirretroviral, ampliação da PrEP e da PEP ou acompanhamento das pessoas que vivem com o vírus.
Vicentinho inclui prevenção de ISTs e atendimento à população trans

Vicentinho Júnior apresenta um programa com mais de 260 propostas distribuídas em 28 eixos. Na saúde, uma das principais diretrizes é descentralizar o atendimento para reduzir a necessidade de deslocamento de pacientes em busca de consultas, exames e tratamentos especializados, problema que o candidato chama de “ambulancioterapia”.
Entre as medidas estão a implantação de hemodinâmica em Araguaína, a ampliação da telemedicina e o fortalecimento dos serviços regionais. Para enfrentar as filas de cirurgias eletivas, o candidato propõe o programa Fila Zero (Corujão), com contratação de hospitais privados para realização de procedimentos no período noturno.
Na área da diversidade, Vicentinho propõe ampliar o acesso da população LGBTQIA+ à saúde integral, fortalecer o atendimento psicológico especializado e desenvolver ações de prevenção e diagnóstico de ISTs. O documento também prevê cuidados específicos para a população trans, além de iniciativas de enfrentamento à violência e à discriminação.
A referência à prevenção e ao diagnóstico de ISTs é uma das diferenças mais relevantes em relação ao programa de Dorinha. Entretanto, a proposta não apresenta metas específicas para ampliar a testagem de HIV, o acesso à PrEP e à PEP, o início oportuno do tratamento antirretroviral ou a supressão viral.
Taxa de detecção de aids permanece acima da média brasileira
Segundo o Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde, o Tocantins registrou, em 2024, uma taxa de detecção de aids de 23,4 casos por 100 mil habitantes, acima da média nacional de 17,4. Em 2014, o indicador estadual era de 24,1, o que representa uma redução de aproximadamente 2,9% em dez anos.
Outro dado importante envolve a prevenção da transmissão vertical do HIV, que pode ocorrer durante a gestação, o parto ou a amamentação. Em 2024, foram notificadas 59 crianças expostas ao vírus e 44 gestantes, parturientes ou puérperas vivendo com HIV. A razão entre esses registros foi de 134,1%, a maior entre as unidades da Federação naquele levantamento. O Ministério da Saúde ressalta, porém, que diferenças desse tipo podem estar relacionadas a inconsistências nas notificações e não representam, isoladamente, uma medida da transmissão vertical.
Na capital, Palmas, a taxa padronizada de mortalidade por aids foi de 2,8 óbitos por 100 mil habitantes em 2024, inferior à média nacional de 3,4.
O estado já dispõe de serviços especializados para pessoas vivendo com HIV. Dados da rede pública atualizados em agosto de 2026 indicavam a dispensação de PrEP e PEP em cinco municípios: Palmas, Araguaína, Porto Nacional, Gurupi e Paraíso do Tocantins. A PrEP é utilizada antes de possíveis exposições ao vírus, enquanto a PEP deve ser iniciada o mais rapidamente possível, em até 72 horas após uma situação de risco.
Apesar da disponibilidade dessas estratégias no SUS, nenhum dos dois programas estabelece metas para ampliar sua oferta ou expandir a cobertura dos serviços.
O que ainda falta nas propostas para HIV e ISTs?
As propostas apresentadas por Dorinha e Vicentinho demonstram prioridades distintas para a saúde pública. Enquanto a candidata do União Brasil concentra compromissos na expansão hospitalar, na saúde materno-infantil e no combate à sífilis congênita, o candidato do PSDB enfatiza a descentralização dos serviços, a redução das filas e ações de prevenção de ISTs voltadas também à população LGBTQIA+.
Entretanto, até o fechamento desta reportagem, não foram identificadas, nos documentos e nas manifestações públicas consultadas, metas específicas para prevenção combinada do HIV, ampliação da testagem, acesso às profilaxias, tratamento antirretroviral ou enfrentamento do estigma e da discriminação.
A ausência dessas medidas nos materiais examinados não significa que as políticas já existentes no SUS serão interrompidas, mas deixa sem esclarecimento quais serão as prioridades da próxima gestão para a resposta ao HIV.
Com a eleição marcada para domingo, 25 de outubro, permanece a questão de como o próximo governo pretende ampliar o acesso à prevenção, garantir diagnóstico e tratamento em tempo oportuno e fortalecer os serviços especializados, especialmente nos municípios mais distantes dos principais centros urbanos.
Redação da Agência de Notícias da Aids




