Os dois primeiros colocados na pesquisa Paraná Pesquisas apresentam propostas para regionalizar o SUS e reduzir deslocamentos; HIV/aids, PrEP e PEP, porém, não recebem metas específicas nos programas para 2027–2030
A disputa pelo governo do Tocantins tem Professora Dorinha (União Brasil) e Vicentinho Júnior (PSDB) nas duas primeiras posições, segundo levantamento do Paraná Pesquisas divulgado nesta terça-feira (15).
Considerando os votos válidos — cálculo que exclui brancos, nulos e indecisos —, Dorinha aparece com 45,3% das intenções de voto e Vicentinho Júnior, com 38,1%. Na sequência estão Laurez Moreira (PSD), com 7,3%, Siqueira Campos Jr. (Democrata), com 5,4%, Ataídes de Oliveira (Novo), com 3,1%, Du Pereira (DC), com 0,5%, e Prof. Witer Naves (PSOL), com 0,3%.
A pesquisa ouviu 1.504 eleitores entre os dias 12 e 14 de setembro, foi contratada pela Federação das Indústrias do Estado do Tocantins (Fieto), tem margem de erro de 2,6 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral.
O Tocantins tem 1.586.859 habitantes estimados em 2025, distribuídos por 139 municípios em uma área de mais de 277 mil quilômetros quadrados. A densidade populacional é baixa — 5,45 habitantes por quilômetro quadrado no Censo de 2022 — e 57 municípios possuem menos de 5 mil moradores. O próprio plano de Dorinha relaciona esse perfil territorial às dificuldades para manter hospitais e serviços especializados em cidades pequenas e distantes dos maiores centros.
É nesse cenário que a Agência Aids consultou os programas de governo apresentados pelos dois candidatos mais bem colocados, buscando propostas para saúde, Sistema Único de Saúde (SUS), HIV/aids, ISTs, PrEP, PEP, direitos humanos e população LGBTQIA+.
Os documentos apresentam propostas extensas para reorganização da assistência. Há também referências a ISTs, sífilis congênita e políticas destinadas à população LGBTQIA+. Nenhum dos dois programas, entretanto, menciona nominalmente HIV/aids, PrEP ou PEP como políticas específicas.
Professora Dorinha: da educação ao Senado

Maria Auxiliadora Seabra Rezende, a Professora Dorinha, é professora, pedagoga e mestre em Educação. Foi secretária de Educação e Cultura do Tocantins por cerca de dez anos, exerceu três mandatos consecutivos como deputada federal e foi eleita senadora em 2022, com mandato até 2031. (
Seu plano de governo tem 97 páginas e reúne dez eixos. A saúde ocupa o segundo deles, denominado “Saúde e Qualidade de Vida”, com seis frentes: infraestrutura hospitalar, atenção primária, assistência especializada e redução de filas, vigilância e assistência farmacêutica, saúde digital e valorização dos trabalhadores.
Dorinha propõe SUS regionalizado e 20 mil cirurgias eletivas por ano
O programa estabelece como objetivo consolidar uma rede regionalizada, com fortalecimento da Atenção Primária e integração entre vigilância, assistência, regulação e saúde digital.
O texto também afirma que o atendimento deverá considerar as diversidades territoriais, sociais, étnicas, culturais, geracionais e de gênero, com prioridade às populações em situação de vulnerabilidade.
Na infraestrutura hospitalar, Dorinha propõe colocar o Hospital Geral de Araguaína para funcionar com 100% de sua capacidade, concluir o Hospital Geral de Gurupi e o novo Hospital da Mulher e Maternidade Estadual em Palmas, além de construir uma nova maternidade em Araguatins.
Para enfrentar as filas, a candidatura promete elevar para 20 mil por ano a oferta de cirurgias eletivas, utilizando hospitais estaduais, cofinanciamento de unidades municipais e convênios com a rede privada.
Também estão previstas hemodinâmica em Gurupi, oncologia pediátrica, novos serviços de hemodiálise, ampliação de transplantes, ambulatório para doenças raras e estímulo aos consórcios intermunicipais de saúde.
Telessaúde para reduzir distâncias
A saúde digital ocupa um bloco próprio no programa. Dorinha propõe atendimento por Telessaúde nas áreas de cardiologia, neurologia e obstetrícia, integração à Rede Nacional de Dados em Saúde, implantação de sistema hospitalar integrado e apoio à criação de núcleos municipais de saúde digital.
Nas comunidades rurais e ribeirinhas, a proposta é ampliar equipes itinerantes e utilizar unidades móveis e Telessaúde para alcançar localidades remotas.
Sífilis congênita aparece entre as propostas
Embora HIV/aids não seja citado nominalmente, o programa de Dorinha traz uma medida específica para uma infecção sexualmente transmissível.
Na Rede Materno-Infantil, a candidata propõe fortalecer a política estadual de enfrentamento da sífilis congênita, além de ampliar o pré-natal, reduzir a mortalidade materno-infantil e implantar o exame de DNA/HPV para rastreamento do câncer do colo do útero.
O documento também dedica propostas específicas à saúde indígena, comunidades quilombolas e tradicionais, população negra e pessoas em situação de rua.
Política LGBTQIA+ está no capítulo da saúde
A população LGBTQIA+ aparece nominalmente no programa de Dorinha. Na própria área da saúde, o plano propõe “fortalecer a política da população LGBTQIA+ em todo o Estado, em parceria com os municípios”.
Em outro trecho, relacionado aos direitos humanos, o programa também prevê a criação de um centro de referência e serviço estadual de acolhimento para a população LGBTQIAPN+.
Apesar dessas referências, não foram encontradas no documento propostas nominais para HIV/aids, PrEP ou PEP. A busca pelo termo PrEP retornou apenas palavras como “preparação”, sem relação com a profilaxia contra o HIV.
Vicentinho Júnior está no terceiro mandato de deputado federal

Vicente Alves de Oliveira Júnior, o Vicentinho Júnior, é empresário e exerce o terceiro mandato consecutivo de deputado federal pelo Tocantins. Foi eleito pela primeira vez em 2014 e, ao longo da atual legislatura, também se licenciou para exercer o cargo de secretário extraordinário de Ações Estratégicas do governo estadual. Em 2026, filiou-se ao PSDB.
Seu programa de governo tem 36 páginas e reúne mais de 260 propostas distribuídas em diferentes eixos. A saúde aparece no Eixo 18 – Saúde Pública, enquanto a população LGBTQIA+ recebe um capítulo próprio, denominado “Diversidade”.
Vicentinho propõe “fim da ambulancioterapia”
O eixo de saúde de Vicentinho tem como foco declarado o “fim da ambulancioterapia”, expressão utilizada pelo próprio plano para tratar dos deslocamentos de pacientes em busca de assistência especializada.
A candidatura propõe credenciar serviço de hemodinâmica em Araguaína, descentralizar recursos de média complexidade para os municípios e utilizar a telemedicina em especialidades como dermatologia e cardiologia.
Outra proposta é o Fila Zero (Corujão), que prevê contratação de hospitais privados no período noturno para reduzir o passivo de cirurgias eletivas.
No Bico do Papagaio, o programa prevê transformar o Hospital Regional de Augustinópolis em complexo de alta complexidade e fortalecer a Unitins na região como referência em Medicina Tropical, entre outras áreas.
ISTs e população LGBTQIA+ recebem propostas específicas
É no eixo de diversidade que aparece uma das principais particularidades do plano de Vicentinho para o recorte acompanhado pela Agência Aids.
O programa propõe ampliar o acesso da população LGBTQIA+ à saúde integral, fortalecer atendimento psicológico especializado e promover prevenção e diagnóstico de ISTs, além de ações específicas de cuidado e acompanhamento da população trans.
O documento também prevê ações de enfrentamento à violência e discriminação, respeito ao nome social no ambiente escolar, políticas de empregabilidade e renda para pessoas LGBTQIA+, com atenção à população trans, e integração das políticas públicas estaduais e municipais destinadas a esse grupo.
Raio-X da aids no Tocantins
O Tocantins registrou em 2024 taxa de detecção de aids de 23,4 casos por 100 mil habitantes, acima da média brasileira, de 17,4.
Em 2014, o indicador era de 24,1 casos por 100 mil habitantes. Dez anos depois, estava em 23,4, uma redução de 2,9%.
O boletim do Ministério da Saúde também posiciona o Tocantins em 11º lugar no índice composto das unidades da Federação para o período de 2020 a 2024. Esse indicador reúne diferentes dimensões da epidemia, incluindo detecção, mortalidade, aids em crianças menores de 5 anos e momento do diagnóstico. No cálculo, o estado apresentou taxa média de detecção de 16,6, mortalidade de 3,2 e média de primeiro CD4 de 244 células/mm³.
Outro dado chama atenção para a vigilância da transmissão vertical. Em 2024, foram notificadas no Tocantins 59 crianças expostas ao HIV para 44 gestantes, parturientes ou puérperas, uma razão de 134,1%, a maior entre as unidades da Federação naquele levantamento. O Ministério da Saúde alerta que diferenças desse tipo podem estar relacionadas a problemas de notificação ou de vinculação dos registros entre mãe e criança.
Na capital, Palmas apresentou taxa padronizada de mortalidade por aids de 2,8 óbitos por 100 mil habitantes em 2024, abaixo da média nacional de 3,4.
Rede especializada acompanha pessoas vivendo com HIV
O Hospital de Doenças Tropicais da Universidade Federal do Tocantins, em Araguaína, é uma das referências no estado. Em dezembro de 2024, a unidade informava acompanhar 1.799 pessoas vivendo com HIV.
O Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde registra quatro serviços especializados em DST/HIV/aids no Tocantins, localizados em Palmas, Araguaína, Gurupi e Porto Nacional.
A PrEP e a PEP também fazem parte da rede existente. Em informação atualizada em agosto de 2026, a rede pública indicava dispensação dessas profilaxias em cinco unidades, localizadas em Palmas, Araguaína, Porto Nacional, Gurupi e Paraíso.
Redação da Agência de Notícias da Aids



