Em disputa acirrada pelo governo, candidatos reforçam propostas para o SUS, mas não apresentam metas específicas para HIV e aids. Estado registrou 716 casos de HIV e 576 de aids em 2024
A três dias do segundo turno das eleições, marcado para domingo, 25 de outubro, Allyson Bezerra (União Brasil) e Cadu de Lula (PT) intensificaram as promessas para a saúde pública do Rio Grande do Norte. Redução das filas, ampliação dos serviços especializados e fortalecimento dos hospitais regionais estão entre os compromissos apresentados pelos candidatos. Entretanto, em um estado onde os registros de HIV cresceram 56,3% entre 2020 e 2024, os programas de governo e as declarações públicas consultadas ainda não apresentam metas específicas para prevenção, diagnóstico e tratamento do vírus.
A disputa permanece equilibrada. Allyson chegou ao segundo turno com 733.809 votos (36,94% dos válidos), contra 718.300 (36,16%) de Cadu, uma diferença de apenas 15.509 votos. Pesquisa Real Time Big Data divulgada na terça-feira (20) aponta Allyson com 45% das intenções de voto, enquanto o petista aparece com 42%. Considerando apenas os votos válidos, os percentuais são de 52% e 48%, respectivamente. Os candidatos estão tecnicamente empatados, considerada a margem de erro de dois pontos percentuais. O levantamento ouviu 1.600 eleitores entre 15 e 19 de outubro e está registrado na Justiça Eleitoral sob o número RN-02651/2026.
Em setembro, a Agência de Notícias da Aids mostrou que os programas dos candidatos apresentavam propostas para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), mas diferenças na abordagem da saúde sexual. Enquanto Cadu incluía prevenção combinada e atenção à população LGBTQIA+, Allyson priorizava a reorganização da rede assistencial, sem referências específicas ao HIV. Na reta final da campanha, os candidatos reforçaram compromissos para ampliar o atendimento, mas não foram identificadas novas metas direcionadas à resposta ao vírus.
Allyson promete zerar filas e ampliar hospitais regionais

Ex-prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra apresenta um programa com 167 propostas, incluindo medidas para ampliar consultas, exames e cirurgias eletivas, fortalecer hospitais regionais e melhorar a organização da rede pública.
No segundo turno, o candidato voltou a defender um plano para zerar as filas de cirurgias e anunciou a intenção de criar centros especializados de atendimento a pessoas com transtorno do espectro autista (TEA). As unidades seriam instaladas inicialmente em cidades-polo, como Natal, Mossoró, Currais Novos e Caicó, com expansão para outras regiões. A proposta inclui terapias, acompanhamento multiprofissional e apoio às famílias.
Allyson também pretende ampliar os serviços do Hospital José Pedro Bezerra, conhecido como Hospital Santa Catarina, na Zona Norte de Natal, para fortalecer o atendimento regional. Seu programa prevê ainda a requalificação do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, a modernização da regulação e a integração digital de prontuários, laboratórios, farmácias e unidades hospitalares.
Na atenção primária, o candidato propõe ampliar a vacinação, fortalecer a vigilância epidemiológica e melhorar o abastecimento de medicamentos. A assistência materno-infantil também aparece entre as prioridades, com medidas para qualificar o pré-natal, o parto e o cuidado neonatal.
Apesar dessas iniciativas, o documento não estabelece compromissos específicos para HIV, aids, outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) ou ampliação da oferta de profilaxias pré e pós-exposição (PrEP e PEP).
Cadu propõe mais recursos para a saúde e inclui prevenção combinada

Cadu de Lula também reforçou suas propostas para a saúde durante o segundo turno. Em entrevista à TV Ponta Negra, na segunda-feira (19), o candidato defendeu ampliar a aplicação de recursos estaduais na área para uma faixa entre 15% e 16%, acima do mínimo constitucional de 12% das receitas de impostos e transferências consideradas para esse cálculo.
Entre as principais propostas está o programa Saúde no Tempo Certo, voltado à redução das filas de consultas, exames e cirurgias. O candidato pretende ampliar a telemedicina, instalar centrais regionais de diagnóstico e fortalecer os hospitais do interior para realizar procedimentos especializados, reduzindo a concentração dos atendimentos em Natal.
Em sabatina realizada na terça-feira (20), Cadu voltou a defender a instalação de centrais de diagnóstico em cidades-polo, permitindo que pacientes realizem exames de imagem mais perto de suas residências. O candidato também propõe fortalecer a atenção primária, ampliar a assistência farmacêutica e melhorar a integração entre unidades básicas, serviços especializados e hospitais.
Na saúde sexual e reprodutiva, seu programa apresenta uma diferença importante em relação ao de Allyson. No eixo dedicado à população LGBTQIA+, Cadu propõe atendimento integral e humanizado, respeito à privacidade, ações de saúde sexual e reprodutiva e prevenção combinada. O documento também contempla essas questões nas políticas voltadas à juventude.
Embora a prevenção combinada inclua estratégias utilizadas no enfrentamento do HIV, como preservativos, testagem, PrEP, PEP e tratamento antirretroviral, o programa não estabelece metas próprias para ampliar essas medidas nem menciona nominalmente HIV ou aids.
Trabalhadores cobram compromissos com o SUS
Na quarta-feira (21), representantes do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde do Rio Grande do Norte (Sindsaúde/RN) entregaram uma carta-compromisso aos candidatos a vice-governador Hermano Morais (MDB), da chapa de Allyson, e Larissa Rosado (PSB), que concorre ao lado de Cadu.
O documento reúne reivindicações para fortalecer o SUS, ampliar os investimentos públicos, valorizar os profissionais e melhorar as condições de trabalho. Entre as propostas estão a convocação de aprovados em concursos, a ampliação da Estratégia Saúde da Família e medidas para recompor as equipes da rede pública.
Hermano afirmou que a chapa pretende manter diálogo com os servidores e examinar as reivindicações. Larissa também defendeu uma gestão aberta à participação dos trabalhadores. A entrega da carta acrescenta demandas ao debate eleitoral, mas não representa, por si só, a incorporação integral das medidas aos programas de governo.
Rio Grande do Norte registrou 716 casos de HIV em 2024
Segundo o Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde, o Rio Grande do Norte registrou 716 casos de infecção pelo HIV em 2024, contra 458 em 2020. O aumento foi de 56,3% em quatro anos. A taxa de detecção de HIV chegou a 20,8 casos por 100 mil habitantes em 2024.
No mesmo ano, o estado contabilizou 576 casos de aids, além de 120 registros de HIV em gestantes, parturientes e puérperas, com taxa de 3,3 casos por mil nascidos vivos. Também foram notificadas 146 crianças expostas ao vírus, indicador que integra o acompanhamento da prevenção da transmissão vertical.
A transmissão vertical pode ocorrer durante a gestação, o parto ou a amamentação. O acompanhamento pré-natal, o diagnóstico oportuno e o tratamento antirretroviral são medidas fundamentais para reduzir esse risco. Os registros de crianças expostas não significam, necessariamente, que houve transmissão do HIV.
Os indicadores reforçam a importância da continuidade das estratégias de prevenção, diagnóstico e cuidado, especialmente da ampliação da testagem, do acesso às profilaxias e do acompanhamento das pessoas vivendo com HIV.
Com o segundo turno marcado para domingo, 25 de outubro, permanece a necessidade de conhecer como as propostas de ampliação da rede pública serão articuladas às estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento, especialmente diante do crescimento dos registros de HIV no estado.
Redação da Agência de Notícias da Aids




