Boletim do Ministério da Saúde registra 716 casos de HIV no estado em 2024. Nos programas de governo, HIV/aids não aparece nominalmente entre as propostas específicas dos três candidatos mais bem colocados, embora os documentos tragam referências a prevenção, saúde sexual, população LGBTQIA+ e organização do SUS.
O Rio Grande do Norte chega à reta final das Eleições 2026 com Allyson Bezerra (União Brasil), Cadu de Lula (PT) e Álvaro Dias (PL) concentrando as maiores intenções de voto na disputa pelo Governo do Estado. Pesquisa Quaest divulgada em 25 de setembro mostra Allyson com 39% das intenções de voto no cenário estimulado, seguido por Cadu, com 21%, e Álvaro, com 18%.
Encomendado pela Inter TV, o levantamento ouviu 804 eleitores de 16 anos ou mais entre os dias 21 e 24 de setembro. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.
Na saúde, os três programas apresentam propostas mais amplas para o Sistema Único de Saúde (SUS), como redução de filas, regionalização, fortalecimento da atenção básica, hospitais e assistência farmacêutica. Quando o foco é especificamente HIV, aids, infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e saúde sexual, porém, os documentos apresentam diferentes níveis de detalhamento.
O cenário epidemiológico ajuda a dimensionar a importância do tema. Segundo o Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde, o Rio Grande do Norte registrou 716 casos de infecção pelo HIV em 2024. Em 2020, haviam sido 458 casos. A diferença representa um aumento de 56,3% no período.
No mesmo ano, o estado contabilizou 576 casos de aids. O boletim também registra 120 casos de HIV em gestantes, parturientes e puérperas em 2024, com taxa de 3,3 casos por mil nascidos vivos, além de 146 crianças expostas ao HIV.
Quem é Allyson Bezerra

Allyson Bezerra é engenheiro civil, servidor público e ex-deputado estadual. Foi prefeito de Mossoró entre 2021 e março de 2026, quando renunciou ao cargo para disputar o Governo do Rio Grande do Norte. Em julho, o União Brasil oficializou sua candidatura, tendo o deputado estadual Hermano Morais (MDB) como candidato a vice-governador.
O programa de governo apresentado por Allyson é intitulado “Esperança e Futuro” e reúne 167 propostas. O documento afirma que foi construído a partir do projeto “167 Razões RN”, que percorreu os 167 municípios do estado para ouvir moradores, profissionais de saúde, servidores, estudantes, empresários e gestores.
Allyson propõe reorganizar a rede, mas não cita HIV/aids
A saúde ocupa o terceiro capítulo do programa de Allyson. Entre as propostas estão um programa permanente para reduzir o tempo de espera por consultas, exames e cirurgias, ampliação das cirurgias eletivas, regionalização de consultas e tratamentos, consórcios intermunicipais, fortalecimento dos hospitais regionais e requalificação do Walfredo Gurgel.
O documento também propõe fortalecer policlínicas e serviços regionais, regionalizar urgência e emergência, ampliar a atenção primária, vacinação e vigilância, integrar laboratórios e criar um sistema digital para prontuários, regulação, farmácia e gestão hospitalar. Na assistência farmacêutica, prevê rastreabilidade de medicamentos e insumos para combater desabastecimento e desperdício.
Há ainda uma proposta específica para a rede materno-infantil, com fortalecimento do pré-natal, da gestação de alto risco, do parto seguro e do cuidado neonatal.
No recorte específico de HIV/Aids, entretanto, não foram localizadas menções nominais a HIV ou Aids no plano de Allyson. Também não foi localizada uma proposta específica de saúde sexual e reprodutiva.
Assim, o programa apresenta medidas que podem alcançar a estrutura de prevenção, diagnóstico, acompanhamento e assistência — como atenção primária, vigilância, laboratórios e assistência farmacêutica —, mas não define no texto uma política específica para HIV/Aids, ISTs, PrEP ou outras estratégias de prevenção combinada.
Quem é Cadu Xavier

Carlos Eduardo Xavier, conhecido como Cadu Xavier, é engenheiro de computação, mestre em Engenharia de Produção e auditor fiscal de carreira. Ingressou no serviço público estadual em 2005 e, no governo Fátima Bezerra, foi secretário de Tributação e posteriormente secretário da Fazenda. Deixou o cargo em março de 2026 para disputar pela primeira vez uma eleição.
O PT oficializou sua candidatura ao Governo do Estado em julho, pela Federação Brasil da Esperança, com Larissa Rosado (PSB) como candidata a vice-governadora.
Seu programa, chamado “RN que cresce cuidando de gente”, organiza as propostas em 13 eixos. O documento afirma que Cadu pretende aprofundar políticas implementadas durante o governo Fátima Bezerra e ampliar a articulação com o governo federal.
Cadu inclui saúde sexual e prevenção combinada
Na saúde, o programa de Cadu propõe fortalecer o SUS, regionalizar o atendimento, ampliar prevenção e atenção básica, reduzir filas e integrar diagnóstico, tratamento e acompanhamento. O eixo prevê também organização da assistência farmacêutica, integração de dados e maior articulação entre atenção primária, serviços especializados e hospitais.
A diferença aparece com mais clareza em outros capítulos. No eixo dedicado à população LGBTQIA+, o programa propõe atenção integral à saúde dessa população em toda a rede do SUS, com atendimento humanizado, respeito à privacidade e aos dados clínicos. O texto cita expressamente saúde sexual e reprodutiva e prevenção combinada, além de defender fluxos regionais e continuidade do cuidado.
Na agenda para as juventudes, o documento também inclui saúde sexual e reprodutiva entre as políticas que deverão ser consideradas na atenção aos jovens. Apesar disso, o programa não menciona nominalmente HIV ou Aids.
Dessa forma, entre os três programas analisados, o texto de Cadu é o que apresenta de maneira mais direta a expressão “prevenção combinada”, associada à saúde sexual e à atenção à população LGBTQIA+, mas não transforma HIV/Aids em uma política ou meta específica no documento.
Quem é Álvaro Dias

Álvaro Costa Dias é médico, ex-deputado estadual, ex-deputado federal e ex-prefeito de Natal, onde comandou a prefeitura entre 2018 e 2024. Em 2026, foi oficializado pelo PL como candidato ao Governo do Rio Grande do Norte, com Babá Pereira como candidato a vice.
O programa de governo da chapa, denominado “Endireita RN”, está dividido em cinco grandes eixos e apresenta a experiência de gestão municipal de Álvaro como parte da justificativa para as propostas. O documento defende reorganização administrativa, fortalecimento dos municípios, regionalização de serviços e recuperação da capacidade de investimento.
Álvaro cita população LGBTQIAPN+, mas não HIV/Aids
Na saúde, Álvaro propõe fortalecer a governança da Secretaria de Estado da Saúde Pública, modernizar o sistema de regulação, reduzir filas, regionalizar serviços especializados e criar consórcios interfederativos de saúde. O plano também prevê fortalecimento dos hospitais regionais, ampliação da urgência e emergência, serviços de nefrologia, hemodiálise e atenção materno-infantil.
Um dos pontos específicos é a proposta de fortalecer a Política Estadual de Saúde Integral da População LGBTQIAPN+, ampliando o acesso aos serviços, qualificando profissionais e promovendo atendimento humanizado, sem discriminação, além de ações de prevenção, promoção e cuidado integral.
O programa também prevê, na área de Direitos Humanos e Cidadania, ações de enfrentamento à discriminação e à violência contra a população LGBTQIAPN+, além da articulação entre saúde, assistência social, segurança e direitos humanos.
Não foram localizadas, entretanto, menções a HIV ou Aids no plano de Álvaro. Também não há, no capítulo de saúde consultado, uma proposta específica voltada a PrEP, PEP ou a uma política estadual própria de prevenção e tratamento do HIV.
Programas de governo: propostas e lacunas
Os três programas partem de diagnósticos diferentes, mas têm um ponto em comum: nenhum deles apresenta uma política específica para HIV/Aids com metas próprias de testagem, tratamento, prevenção ou vigilância epidemiológica.
Allyson concentra sua proposta em reorganização da rede, redução de filas, regionalização, atenção primária, vigilância, laboratórios e assistência farmacêutica. Cadu apresenta uma agenda mais explícita para saúde sexual e reprodutiva, população LGBTQIA+ e prevenção combinada, mas sem citar nominalmente HIV ou Aids. Álvaro inclui uma política estadual de saúde integral para a população LGBTQIAPN+, com prevenção e cuidado, mas também não detalha ações específicas para HIV/Aids.
O ponto ganha relevância diante dos dados do Ministério da Saúde. Em 2024, o RN registrou 716 novos casos de HIV e uma taxa de detecção de 20,8 por 100 mil habitantes. Entre 2020 e 2024, o número de casos aumentou 56,3%.
O boletim também mostra que a resposta ao HIV envolve diferentes etapas do cuidado. Em 2024, foram registrados 120 casos de HIV em gestantes, parturientes ou puérperas no estado, além de 146 crianças expostas ao HIV.
No documento nacional, o Ministério da Saúde aponta, entre as estratégias necessárias diante das desigualdades no enfrentamento do HIV, ampliação da testagem em populações-chave e contextos de vulnerabilidade, acesso à PrEP, início oportuno da terapia antirretroviral, retenção no cuidado, supressão viral e atenção ao pré-natal e às crianças expostas.
No Rio Grande do Norte, portanto, os programas de governo apresentam propostas para a estrutura geral do SUS e, em graus diferentes, para saúde sexual e direitos da população LGBTQIA+, mas não detalham como o próximo governo pretende enfrentar especificamente a epidemia de HIV/Aids no estado, incluindo metas próprias para diagnóstico, prevenção combinada, PrEP, PEP, tratamento ou redução da transmissão.
Essa é a principal lacuna identificada na análise dos três documentos, considerando exclusivamente os programas apresentados pelas candidaturas e os dados estaduais do Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025.
Redação da Agência de Notícias da Aids



