Às vésperas da votação de 25 de outubro, candidatos apresentam novos compromissos para a saúde pública. Distrito Federal registrou 684 casos de HIV, 380 de aids e 70 mortes relacionadas à doença em 2024
A cinco dias do segundo turno das eleições, marcado para domingo, 25 de outubro, a saúde pública voltou ao centro das propostas de Celina Leão (Progressistas) e Leandro Grass (PT), candidatos ao Governo do Distrito Federal. Contratação de profissionais, ampliação da rede de atendimento, redução das filas e mudanças na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) estão entre os compromissos apresentados pelas duas campanhas. Entretanto, mesmo com as novas declarações, as propostas consultadas ainda não detalham medidas específicas para a prevenção e o tratamento do HIV, da aids e de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
Celina, atual governadora e candidata à reeleição, chegou ao segundo turno após receber 825.530 votos (49,93% dos válidos) na votação de 4 de outubro. Grass conquistou 569.930 votos (34,47%), segundo os resultados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A disputa permanece favorável à governadora nas pesquisas: levantamento do instituto Real Time Big Data divulgado nesta terça-feira (20) aponta Celina com 59% dos votos válidos, contra 41% de Grass. Foram entrevistados 1.600 eleitores entre 15 e 19 de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais.
Em setembro, a Agência de Notícias da Aids consultou os programas de governo dos candidatos e identificou diferenças na abordagem da saúde sexual e reprodutiva, mas uma lacuna comum: a ausência de compromissos específicos para o enfrentamento do HIV e das ISTs. Com a chegada do segundo turno, a reportagem retomou os documentos e examinou novas declarações públicas para verificar o que mudou nas prioridades apresentadas à população.
Celina Leão promete mais profissionais, hospitais e modernização da rede

A ampliação da estrutura de atendimento e a valorização dos profissionais da saúde ganharam destaque nas manifestações recentes de Celina Leão. Em sabatina realizada pelo SBT Brasília na segunda-feira (19), a governadora anunciou que pretende encaminhar à Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), caso seja reeleita, um projeto de reestruturação salarial para os médicos da rede pública.
Celina também defendeu a redução de despesas administrativas do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF), com o objetivo de direcionar recursos à contratação de médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem. A candidata afirmou que pretende ampliar a capacidade de atendimento e reiterou a previsão de entrega de sete novas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), cinco delas ainda em 2026.
Na semana anterior, durante sabatina promovida pelo Correio Braziliense e pela TV Brasília, Celina havia colocado a saúde entre as prioridades de um eventual novo mandato. Na ocasião, mencionou a construção de hospitais, incluindo unidades em São Sebastião e na área de oncologia, e reconheceu a necessidade de ampliar as equipes de profissionais para garantir o funcionamento dos serviços.
As declarações se somam ao programa de governo apresentado para 2027 a 2030, que reúne 15 ações voltadas à saúde. Entre as propostas estão o Expresso da Saúde, que prevê a utilização de telemedicina e inteligência artificial para agilizar consultas e exames; a ampliação do Opera-DF; o fortalecimento das Unidades Básicas de Saúde (UBSs); e a implantação do IntegraSaúde, com serviços especializados, diagnóstico por imagem, reabilitação e atendimento multiprofissional.
Na saúde da mulher, o programa propõe fortalecer a rede de atenção integral, com prevenção, diagnóstico precoce, tratamento e acompanhamento especializado, além da criação de um Centro de Referência da Saúde da Mulher. O documento, porém, não apresenta essas iniciativas como parte de uma estratégia específica para o HIV ou outras ISTs.
Grass defende gestão integrada, redução das filas e ampliação da atenção primária

Leandro Grass também voltou a apresentar propostas para a reorganização da saúde pública durante o segundo turno. Em entrevista à rádio TMC, na segunda-feira (19), o candidato defendeu uma gestão unificada dos serviços vinculados à Secretaria de Saúde e ao Iges-DF, argumentando que a integração permitiria maior controle sobre hospitais, UPAs e unidades básicas.
A proposta reforça o compromisso de reorganizar a rede de atendimento, uma das principais diretrizes do programa apresentado pelo petista. Seu projeto Saúde Sem Espera estabelece metas para reduzir o tempo de acesso a consultas, exames e procedimentos. Entre os objetivos para 2030 estão garantir consultas com especialistas e exames em até 30 dias, ampliar a cobertura da atenção primária e reduzir a espera por cirurgias eletivas.
O programa prevê ainda aumentar o número de equipes de Saúde da Família, convocar profissionais aprovados em concursos públicos, melhorar a manutenção de equipamentos, ampliar os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e reorganizar a rede hospitalar.
Uma das diferenças em relação ao programa de Celina aparece na abordagem da saúde sexual e reprodutiva. Grass propõe ampliar o acesso à informação, aos serviços e aos métodos contraceptivos disponíveis no SUS, além de implementar iniciativas de planejamento familiar, fertilidade assistida, educação sexual baseada em evidências e atendimento humanizado.
Apesar dessas propostas, não foram identificadas, nos materiais examinados, metas específicas para ampliar a testagem de HIV, a prevenção combinada ou o acesso às profilaxias pré e pós-exposição (PrEP e PEP), tampouco novas estratégias direcionadas ao acompanhamento das pessoas que vivem com HIV.
Compromissos com entidades da saúde
Antes do primeiro turno, em 1º de outubro, Celina Leão e Leandro Grass assinaram uma carta-compromisso apresentada pela Frente em Defesa da Saúde do Distrito Federal, formada por 11 entidades representativas do setor. O documento reúne propostas relacionadas à ampliação do acesso, à qualificação da assistência, à valorização dos trabalhadores e ao fortalecimento da rede pública.
Na ocasião, Celina defendeu a recomposição das equipes da atenção básica, melhores condições de trabalho, disponibilidade de insumos e integração dos sistemas da Secretaria de Saúde e do Iges-DF.
Grass, por sua vez, afirmou que incorporaria as propostas da Frente ao programa de governo. Entre as prioridades apresentadas estavam a ampliação da atenção primária, a valorização dos profissionais, a expansão dos serviços e a articulação com iniciativas federais de fortalecimento do SUS.
Os compromissos assinados pelos dois candidatos ampliam o conjunto de propostas para a saúde pública, mas a análise realizada até 20 de outubro não identificou, nas declarações consultadas, medidas adicionais especificamente direcionadas à resposta ao HIV e às ISTs.
Distrito Federal registrou 684 casos de HIV e 380 de aids em 2024
Os desafios da próxima gestão aparecem nos indicadores epidemiológicos. Segundo o Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde, o Distrito Federal registrou 684 casos de HIV em 2024, contra 666 em 2023. A taxa de detecção passou de 22,4 para 22,9 casos por 100 mil habitantes.
Em relação à aids, houve redução no número de diagnósticos: foram 380 casos em 2024, ante 457 no ano anterior. A taxa de detecção caiu de 15,4 para 12,7 casos por 100 mil habitantes, uma diminuição de 17,5%.
Apesar da queda, a aids ainda provocou 70 mortes no Distrito Federal em 2024. Naquele ano, Brasília apresentou taxa padronizada de mortalidade de 1,8 óbito por 100 mil habitantes, a menor entre as capitais brasileiras, conforme o boletim.
Outro indicador importante é o da prevenção da transmissão vertical do HIV, que pode ocorrer durante a gestação, o parto ou a amamentação. O Distrito Federal registrou 62 crianças expostas ao vírus em 2024. Esse número não corresponde a crianças infectadas, mas aos registros de exposição que exigem acompanhamento e medidas específicas de prevenção e cuidado.
Os dados revelam um cenário de avanços e desafios. Ao mesmo tempo que a taxa de detecção de aids diminuiu, novos casos de HIV continuaram sendo registrados, evidenciando a importância da continuidade das políticas de prevenção, diagnóstico precoce, tratamento antirretroviral e acompanhamento das pessoas que vivem com o vírus.
Com a votação marcada para 25 de outubro, permanecem questões importantes sobre o futuro das políticas de HIV e ISTs no Distrito Federal: como ampliar o acesso aos métodos de prevenção? Quais medidas serão adotadas para fortalecer o diagnóstico precoce e garantir a continuidade do tratamento? E de que maneira a próxima gestão pretende integrar essas ações à atenção primária e à saúde sexual e reprodutiva?
Redação da Agência de Notícias da Aids




