Winnie Byanyima alerta líderes do G20: “Desigualdade extrema prolonga a crise da aids e ameaça o mundo inteiro”

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A diretora-executiva do Unaids e subsecretária-geral das Nações Unidas, Winnie Byanyima, alertou os líderes do G20 de que as desigualdades arraigadas dentro e entre os países representam uma ameaça global e estão prolongando tanto a crise da aids quanto a vulnerabilidade mundial a futuras pandemias. Em discurso feito em Joanesburgo, Byanyima afirmou que “em um mundo dilacerado pela desigualdade extrema, ninguém está seguro” e defendeu que os chefes de Estado adotem medidas urgentes para enfrentar o que chamou de “emergência da desigualdade”.

Proposta de um Painel Internacional sobre Desigualdade

A dirigente solicitou que os líderes estabeleçam um Painel Internacional sobre Desigualdade, inspirado no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), capaz de apoiar governos e agências multilaterais no desenvolvimento de políticas nacionais e internacionais para combater disparidades que prejudicam economias, fragilizam sistemas de saúde e comprometem a resposta a pandemias. Byanyima discursará oficialmente na Cúpula de Líderes do G20, em nome do Comitê Extraordinário de Especialistas Independentes sobre Desigualdade Global do G20, a pedido do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa. O Comitê é presidido pelo ganhador do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, que tem defendido a criação do novo painel internacional. Uma análise divulgada no relatório do grupo mostra que, entre 2000 e 2024, o 1% mais rico do mundo acumulou 41% de toda a nova riqueza, enquanto apenas 1% foi para os 50% mais pobres.

Crise da dívida compromete resposta à aids e a outras pandemias

Em meio a cortes drásticos no financiamento internacional para a resposta à aids, Byanyima também pediu ação imediata dos líderes do G20 para enfrentar o problema dos juros da dívida considerados insustentáveis para países de baixa e média renda. Segundo ela, essas nações estão sufocadas por um serviço da dívida que chega a quase US$ 3 trilhões, o que “priva os governos de receitas essenciais para financiar investimentos em sistemas de saúde e nos determinantes sociais da saúde” e impede que recursos necessários sejam destinados à erradicação da aids e de outras pandemias.

Winnie Byanyima atua como membro do Comitê Extraordinário do G20 e como coordenadora do Conselho Global sobre Desigualdade, Aids e Pandemias. Pesquisas divulgadas por ambos os grupos de especialistas antes da reunião mostram que a persistente desigualdade elevada constitui uma emergência global que alimenta instabilidade política, prejudica economias e compromete a saúde pública em todo o mundo. De acordo com o Conselho Global, altos níveis de desigualdade, tanto dentro dos países quanto entre eles, tornam o mundo mais vulnerável a pandemias, fazem com que sejam mais disruptivas e mortais e prolongam sua duração. As pandemias, por sua vez, exacerbam a desigualdade, alimentando uma relação cíclica e auto-reforçadora.

Brasil, Inglaterra e os impactos dos determinantes sociais

As evidências reunidas pelo Conselho mostram ainda que os países mais desiguais registraram taxas de mortalidade por covi-19, de infecção por HIV e de mortalidade por aids significativamente maiores, devido às dificuldades em implementar respostas eficazes à pandemia. Também indicam que os determinantes sociais das pandemias geram vulnerabilidade subjacente: no Brasil, pessoas sem educação básica tinham várias vezes mais probabilidade de morrer de covid-19 do que aquelas que concluíram o ensino fundamental; na Inglaterra, morar em residências superlotadas esteve associado a taxas de mortalidade mais elevadas pela doença.

O impacto das desigualdades entre os países também ficou evidente durante o auge da pandemia de covid-19. Enquanto as nações de alta renda conseguiram financiar aumentos nos gastos com saúde, ampliar medidas de mitigação econômica e distribuir vacinas rapidamente, os países de baixa renda enfrentaram severas restrições financeiras e foram obrigados a esperar pelas vacinas, o que dificultou a resposta global à doença.

Liderança da África do Sul no G20 é elogiada

Byanyima elogiou a presidência da África do Sul no G20, guiada pelo lema “Solidariedade, Igualdade e Sustentabilidade”, por impulsionar debates internacionais sobre acesso a medicamentos, dívidas e financiamento, além de seu compromisso interno com a cobertura universal de saúde por meio do Seguro Nacional de Saúde. Segundo ela, “o Presidente Ramaphosa está iluminando o caminho para um mundo mais justo e seguro”.

“As evidências”, disse Byanyima, “são inequívocas: primeiro, que a desigualdade é um perigo para o mundo e que reduzir as desigualdades dentro e entre os países tornará todos mais seguros; segundo, que essas desigualdades podem ser superadas se os líderes agirem em conjunto. A desigualdade não é o destino; é uma escolha política internacional coletiva desastrosa que os líderes podem optar por desfazer agora.”

Grupos responsáveis pelos relatórios apresentados ao G20

O Conselho Global sobre Desigualdade, Aidse Pandemias é uma iniciativa de alto nível convocada pelo Unaids para avaliar como as desigualdades impulsionam pandemias — e como pandemias aprofundam desigualdades. O grupo é copresidido pela presidente da Fundação One Economy e ex-primeira-dama da Namíbia, Monica Geingos; pelo diretor do Instituto de Equidade em Saúde da UCL, Sir Michael Marmot; e por Joseph E. Stiglitz. Reúne líderes das áreas de economia, saúde pública, direitos humanos e finanças com o objetivo de construir um ambiente político capaz de enfrentar desigualdades e permitir que o mundo acabe com a AIDS e esteja mais bem preparado para futuras pandemias.

Já o relatório do Comitê Extraordinário de Especialistas Independentes sobre Desigualdade Global do G20 foi encomendado pelo presidente Ramaphosa e elaborado pelo grupo liderado por Stiglitz em 2025, com participação de Adriana Abdenur, Winnie Byanyima, Jayati Ghosh, Imraan Valodia e Wanga Zembe-Mkabile.

Redação da Agência de Notícias da Aids com informações do Unaids

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