Webinário: Pessoas vulneráveis foram, na verdade, vulnerabilizadas pela exclusão social, dizem participantes do debate

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Na manhã de quinta-feira, 30, a Agência Aids reuniu pessoas vivendo com HIV, sob a mediação da jornalista e ativista Fabi Mesquita, para mais um debate do “Webinário, Primeiro de Dezembro Dia Mundial de Combate à Aids: Os problemas no enfrentamento do crescimento do HIV no Brasil e as soluções propostas”.

Desta vez, o tema foram as “Populações Vulneráveis e o HIV, buscando respostas e apontando soluções” e contou com participação do ator e youtuber Drew Persi; de Tathiane Araújo, da Rede Trans Brasil; e de Jenice Pizão, do Movimento Nacional das Cidadãs Positivas.

Fabi começou a conversa com uma provocação, citando uma trabalhadora do sexo que, certa vez, parou uma reunião dizendo: “Parem de dizer que somos vulneráveis. Eu não sou vulnerável, eu sou vulnerabilizada.” Questionou os convidados sobre o que eles são: vulneráveis ou vulnerabilizados?

“Eu já tinha pensado muitas vezes sobre isso e acho que faz diferença, sim. Acho que que é importante a gente ir se adequando de acordo com o que a gente vai recebendo, absorvendo informações, a gente vai entendendo melhor esses lugares”, observou Drew Persi. “A gente sempre usou os termos minorias, grupos vulneráveis, foi uma construção histórica, sempre colocando, de fato, nesse lugar de menor, de frágil, de fracos. Acho que vai trazendo essa carga de peso quando a gente utiliza dessa maneira. É exatamente isso, porque não são grupos vulneráveis, o que os torna vulneráveis é a forma como como são colocados, socialmente dizendo, através de tudo o que a gente sabe, políticas. Públicas, divisões de classe, enfim, tudo o que a gente ainda vai falar muito aqui hoje. Eu acredito muito que existe essa diferença.”

Jenice Pizão concordou com a colocação e ressaltou que, no caso do envelhecimento das mulheres vivendo com HIV, como ela, elas se tornam vulneráveis porque o Estado não está fazendo a parte dele. “E não está fazendo a sua parte, não só com pessoas com HIV, mas com toda a população que está envelhecendo no Brasil. Daqui a 20 anos, o país vai ter 60% da sua população com mais de 60 anos. E o que o Estado está fazendo para poder acolher essas pessoas? Na verdade,  a gente se torna vulnerabilizada porque o Estado não faz a sua parte. A gente não tem políticas públicas para essa população, para nós que vivemos com HIV/aids. Ele nos dá os antirretrovirais através do SUS – nos dá, não, foi também uma conquista de mulheres – e o que que sobra pra gente? Tem que achar que é feliz com isso e, na verdade, a gente é feliz, sim, mas a gente tem que ir além disso. A gente quer comida, diversão e arte. A gente quer gozar, a gente quer comer bem, a gente quer passear, a gente quer ter saúde, saúde mental. É muito importante”, pontuou.

“Vivi muitos anos de luta com esse termo e tive momentos de discussão porque comecei escutando grupos vulneráveis. Eu sou de uma época que lá no movimento estudantil ainda se falava que as pessoas homossexuais e as pessoas travestis propagavam aids na sociedade” relatou Tathiane Araújo. “A gente era vulnerável pela exclusão social, porque além da saúde, nos excluem da educação, de nos formarmos e temos capacidade de nos adequarmos, estarmos no ambiente de trabalho sadio e com opção. Não porque a prostituição seja algo ruim, não. Ela é uma das profissões mais legítimas e reconhecidas do mundo. Então é uma vulnerabilização social, uma cadeia que lhe deixa à margem e, lógico, um agente perverso que não traz só a questão do acometimento, da baixa defesa, traz o preconceito que é ainda mais adoecedor. É uma cadeia de exclusões sociais que aí não dá para você ter uma inserção de uma forma salutar. Porque nós somos mais vulnerabilizadas da Covid? Porque realmente é uma população invisível. A mazela social chega de uma forma maior, está potencializada na gente”.

Respostas

Fabi questionou os convidados para saber quais são as respostas. “O que a gente pode ter para apontar para soluções? O que já está bom e o que está faltando, o que que a gente pode ter de proposta?”

“A gente tem que entender que ainda está longe de achar está vivendo num mundo maravilhoso e botar um óculos cor-de-rosa, achar que está tudo lindo”, respondeu Drew. “Eu acho que a gente está dando passos bem curtos ainda. Eu estou aqui com pessoas que têm muito mais tempo de luta no movimento, mas nesses  meus 10 anos de ativismo, eu observo que estão sendo discutidas as mesmas questões. Eu respondo as mesmas perguntas há 10 anos, eu acolho as pessoas da mesma maneira, que me buscam, me buscam com os mesmos conflitos, as mesmas angústias, as mesmas aflições. Parece que eu já falei tudo o que eu tinha que falar, no meu canal já tem vídeos sobre todos os temas, todos os assuntos. Eu não sabia mais o que dizer. Ontem à noite, me preparando para dormir, eu estava pensando na live de hoje e me bateu esse sentimento, tipo, meu Deus, amanhã o que é que eu vou dizer? Quais as soluções que podemos apontar? O que dizer além de tudo o que a gente diz sempre?  É dizer sempre o que a gente diz sempre. Estamos aí nessa busca para apontar soluções, de fato. A gente vê esse crescimento que a gente teve no número de pessoas infectadas no Brasil. É muito alarmante, a gente chegou em 2021 com mais de 11 mil pessoas por ano morrendo de aids. A gente sabe que essas mortes têm classe, têm cor e elas têm gênero. É, então. É, eu não eu, de verdade. Então, quais são as respostas, para onde podemos apontar, além de continuar fazendo o que a gente faz?”

O ator acredita ser necessário haver mais olhares em relação às políticas públicas, às questões governamentais, às questões financeiras, de investimento de fato em levar ações e campanhas. “É tanto sacrifício, tanto sofrimento para se chegar em algum resultado. As pessoas estão morrendo, não estão sendo atendidas, não estão sendo vistas”, acrescentou.

“A epidemia de aids atinge populações excluídas, os pretos, os pobres, os periféricos. Mulheres gestantes que morreram mais foram gestantes pretas com HIV. Isso é um crime”, criticou Jenice. “Isso não chega a ser um genocídio, porque o termo genocídio é muito mais amplo. Mas, gente, o que que está faltando? Está faltando o Estado se responsabilizar mais, políticas públicas de informação e sociedade parar de ser hipócrita, ficar colocando as coisas por debaixo do tapete. Por que quem vai ser companheiro de uma travesti na rua? É aquele cara de postura que é o heterossexual acima de qualquer suspeita, Mas é um hipócrita, porque a sociedade é hipócrita, esconde as verdades que deveriam ser afloradas e discutidas. Não é ruim você ser heterossexual, mas é ruim você ser um hipócrita, não é?”, concluiu a ativista.

Tathiana acredita que o bullying e a violência que os homossexuais sofriam na escola eram vistos pela sociedade como uma espécie de preço a pagar pela forma como eles estavam exercendo a sua vida, a sua liberdade. “Eu acho que a gente precisa ter uma medida assim de também não pra pagar o que essas pessoas querem. Um deputado que coloca uma peruca loira e vai no plenário no Dia da Mulher, ele quer aparecer com nossa pauta. Ele quer fazer de militante, palco e trampolim para aparecer para uma parcela da sociedade que, infelizmente, promove esse estilos de show. Existe uma parcela social que se apega ao extremismo e aos absurdos propagados por ele. É assim que a extrema direita vem se consolidando ganhando espaço em todo o mundo. Em algumas coisas, a gente precisa de responsabilidade social. Essa gestão continua a tratar as políticas de aids sem compromisso. Como é a gente está tecendo o compromisso dessas pessoas nos espaços de conteúdo social também?”, indagou.

“Precisamos fazer o nosso papel, independente dessa nova forma de se visibilizar as mazelas, os problemas e os incômodos como essas pessoas, porém, precisamos utilizar também esses mecanismos para comprometer”, prosseguiu a ativista.  “É bom essas pessoas [como o deputado citado] falarem os absurdos, porque a gente mostra que parece que a gente vive na nossa bolha. Eu acredito que a gente precisa cada vez mais conhecer e se integrar entre movimentos e ter respostas para o que a sociedade já vem colocando aí há muito tempo. Ela só agora fica mais visível porque as redes sociais, a comunicação, ela agora está na mão de qualquer pessoa, está acessível”, concluiu Tathiana.

A realização do “Webinário, Primeiro de Dezembro Dia Mundial de Combate à Aids: Os problemas no enfrentamento do crescimento do HIV no Brasil e as soluções propostas”,  conta com apoio do Senac São Paulo e das farmacêuticas GSK/ViiV e Janssen.

Redação Agência de Notícias da Aids

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