
O quarto e último debate do “Webinário, Primeiro de Dezembro Dia Mundial de Combate à Aids: Os problemas no enfrentamento do crescimento do HIV no Brasil e as soluções propostas”, realizado na última quinta-feira, 30 de novembro, teve como tema “Como comunicar com mais eficácia o tema HIV e Prevenção”.
Mediado pelo estrategista de marketing digital e youtuber João Geraldo Netto, a conversa reuniu a Youtuber e publicitária Thais Renovato; Dr. Álvaro Furtado, infectologista do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo; a jornalista e poeta Marina Vergueiro, da Coluna Senta Aqui, no Instagram da Agência Aids: e Edmar Borges Ribeiro – da área de Comunicação da Coordenadoria de IST/Aids da Cidade de São Paulo.
João Geraldo Netto começou o bate-papo fazendo perguntas individuais a cada um dos convidados. Ele ressaltou que mesmo após 40 anos de pandemia, “a gente continua repetindo discursos ruins. Você, como uma pessoa que vive com HIV e é mãe, como é que você aborda isso nas suas redes sociais, nos conteúdos que você produz e no seu livro para tentar sensibilizar outras pessoas e desconstruir estigmas?, perguntou ele a Thais.
“Quando a gente fala nas nossas bolhas, acho que fica mais comum, mas você sai um pouquinho, você já vê que as pessoas não têm conhecimento, não sabem muita coisa”, respondeu ela. “O que aconteceu é que meu ex-namorado morreu de aids, eu me infectei e aí me casei novamente, tive os 2 bebês. Eu falei, gente, eu preciso contar essa história, porque ela é muito rica, porque passa por várias nuances da aids. Até a maternidade, é uma história que passa por muitas coisas da aids. Aí veio o livro, só que tomou uma outra proporção, não só pessoas que vivem ou convivem com HIV, pessoas que são mais curiosas. Então, ali no livro está a história completinha. Nas minhas redes sociais eu tento mostrar a minha vida de um do modo real mesmo, de cabeça limpa, de cara lavada. Eu acho que está tudo tão fake que eu não queria chegar na internet e falar ‘ai gente, olha, está tudo maravilhoso’. Não, gente, eu brigo pra caramba com meu marido, as crianças são um saco também, eu nem sei se eu queria ser mãe. Eu amo meus filhos, mas não sei se eu gosto de ser mãe. O que é tranquilo, eu falo que é tranquilo, o que não é, eu falo que não é. Acho que criei um elo de sinceridade assim. Eu também não estou muito preocupada com o número de seguidores mas quem está ali se identifica”, concluiu.
Trazendo Marina Vergueiro para a conversa, João quis ouvir como ela aborda essas questões emocionais ligadas ao HIV na escrita e na poesia dela de maneira mais honesta e como faz esse tipo de desconstrução comentada anteriormente.
“A poesia pra mim, e literatura em geral, foram uma válvula de escape. Eu brinco que eu sou poeta por sobrevivência mesmo, porque se eu não escrever, aquilo me afoga, me mata, termina me matando”,
declarou a poeta. “Quando eu tive o diagnóstico de HIV em 2012, eu fiquei muito doente, eu cheguei a desenvolver aids. Fiquei dois meses no hospital e escrevi bastante nessa época. A poesia me ajudou muito nesse processo de recuperação da infecção oportunista que eu tive. Durante sete o meu diagnóstico, eu não abri publicamente, apenas as pessoas próximas a mim, familiares, amigos, afetos, sabiam. A poesia foi me ajudando a quebrar os estigmas dentro de mim também. Acho que a arte tem um poder de cura muito grande, faz com que a gente não se sinta tão só, principalmente quando a gente expõe a nossa arte. Então, a minha abordagem desse tema é na escrita, foi muito natural, porque eram coisas que me atravessavam. Eu senti a necessidade de falar sobre isso. Existem maneiras e maneiras de falar e, sobretudo na poesia, acho que a gente usa muitas figuras de linguagem, muitas metáforas, mas quando eu trato desse tema específico, eu gosto de ser o mais clara possível, porque a gente já tem tantas camadas de preconceitos sobre isso que se a gente não for muito direto ao ponto, as pessoas vão ficar muito perdidas. Tem também uma questão do choque, não é muito natural as pessoas lerem sobre uma coisa tão polêmica quanto a aids em uma poesia. Então, eu gosto de trabalhar com esse elemento surpresa. Eu tenho um poema que eu começo: ‘eu tive aids por dois meses’ e eu repito isso algumas vezes. Eu gosto disso porque eu pego a peça atenção da pessoa. É um tema que a gente tem que trabalhar, de muitas formas além do discurso médico. É muito importante a gente trabalhar a comunicação do tema em outras frentes, porque muitas pessoas têm preconceito mesmo e são muito resistentes a falar sobre isso, então a gente levando de uma outra maneira, com uma outra roupa, a gente consegue talvez chegar um pouquinho mais longe”, explicou.
Do Dr. Álvaro Furtado, o mediador quis saber como as novidades do campo da ciência que ele divulga, positivas e negativas, circulam entre seus seguidores, como é a resposta. 
“Eu sempre levo muito em consideração na construção do meu conteúdo a forma como as pessoas vão receber isso e quanto isso pode ser positivo ou negativo. Eu sempre tento fazer uma comunicação muito mais positiva, de coisas que podem vir para acrescentar, mudança de estilo de vida, coisas que não estão tão ligadas ao surgimento de novas estratégias. Eu tenho um cuidado enorme para fazer uma linguagem muito acessível, porque eu não estou me comunicando com o médico, eu não quero me comunicar com o médico nas redes. Eu quero comunicar com pessoas que vivem com HIV , que não vivem com HIV, que consigam absorver esse conteúdo. É claro que é a presença de um profissional, muitas vezes traz para o paciente um pouco mais de segurança, mas eu vou ser muito sincero, os profissionais eram muito, às vezes, não sabem se comunicar com os pacientes. Isso dentro dos consultórios, dentro dos serviços de referência em IST/HIV. Eu acho também que a gente tem que construir uma geração de profissionais mais acolhedores, que consigam identificar que uma pessoa hétero é diferente, uma pessoa homo. Públicos diferentes, precisam de abordagens diferentes. A gente tem que fazer essa estratégia de comunicação em HIV e ISTs consigam chegar para várias populações”, afirmou o médico.
João perguntou a Edmar Borges Ribeiro quais são as ferramentas utilizadas na Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo para traçar estratégias de comunicação para as diferentes populações da cidade.
“Quando a gente traz esse tema nas nossas redes sociais, no nosso site institucional ou nas nossas comunicações off-line, nos metrôs, em vários lugares da cidade, a gente busca sempre fazer isso de um jeito que, primeiro, todas as pessoas entendam, independentemente do envolvimento que essa pessoa tem com a pauta”, informou. “Um dos nossos maiores objetivos é divulgar o serviço, porque a gente acredita que levar a pauta é necessário, é fundamental, mas é muito importante para nós que as pessoas saibam o que existe no SUS disponível para elas hoje em dia. Aí divulgar os serviços para diferentes públicos, é realmente um desafio. A gente, inclusive, tem criado uma série de estratégias para isso. Uma delas foi o edital de coletivos. A gente está na segunda edição. Agora este ano tem um edital voltado para coletivos de pessoas que são focadas em diferentes populações. Então, dentro do arcabouço das populações prioritárias, a gente tem coletivos que são financiados pelo edital que fazem comunicação específica para a população negra, para a população jovem, para mulheres. Então a gente consegue, por meio desses grupos territoriais que estão em diferentes lugares da cidade, se comunicando de um jeito que a gente, por ser gestão pública, não consegue se comunicar, às vezes, do jeito como uma pessoa dentro do seu território, de uma forma mais consegue. Nós pertencemos à Secretaria da Saúde, mas a gente tem a nossa rede social, justamente porque a gente precisa falar de um jeito menos institucional, sem deixar de ser institucional. Temos que seguir diretrizes de comunicação da saúde pública, mas a gente precisa levar essa informação de um jeito mais objetivo e descontraído para as pessoas”.
João descreveu como a mídia contribuiu para construir, nesses 40 anos de epidemia, o estigma em relação ao HIV/aids e o que pode ser feito para desconstruir isso.
Dr. Álvaro criticou o fato da comunicação sobre a aids estar concentrada em dois períodos do ano, dezembro e carnaval, e acredita que a comunicação tem de ser inteligente, tem que ser pautada e emoção, em arte. “Eu acho que a comunicação nesse assunto tem que deixar de ser punitiva, tem que trazer o amor, o afeto, colocar em condições de igualdade pessoas que vivem com HIV”, sugeriu.
“Eu acredito que os jornalistas, principalmente os que cobrem saúde, deveriam se informar mais e entender um pouco, porque é uma questão de saúde pública. Precisam começar a colocar a pauta da aids ao longo do ano, não só durante o dezembro vermelho. A gente precisa falar da aids o ano inteiro, porque essas mais de 10000 mortes por ano em decorrência da aids acontecem nos 365 dias do ano”, acrescentou Marina Vergueiro.
Thais considera ser necessário que as pessoas saiam de suas bolhas. “Por mais que eu fale para algumas mães, Dr. Álvaro para os médicos, alguém tenha mais contato com os meninos gays, ainda assim, a gente está falando para nossas bolhazinhas. O assunto merecia algo muito maior, uma régua de comunicação assim, constante”, criticou.
“Eu acho que precisa haver um interesse genuíno da parte dos nossos colegas jornalistas para com a pauta, porque é uma pauta que traz uma série de inovações todos os anos, que envolve uma série de grupos sociais que envolve uma série de movimentos, uma série de estratégias de política pública”, prosseguiu Edmar. “E isso tem um conteúdo para ser dito durante todo o ano. Durante todo o ano a gente tem inovação, tem dados importantes. Eu acho que o mais importante é a gente falar durante o ano inteiro e focar especialmente em derrubar os estigmas. Eu concluo fazendo esse convite mesmo para a mídia, especialmente para a mídia especializada em saúde, para que se envolva com a pauta da aids, porque é uma pauta que, claro, tem problemas, tem questões a serem resolvidas, mas é uma pauta muito legal. É uma pauta muito boa de se trabalhar. É uma pauta que traz muita felicidade pra gente”.
A realização do “Webinário, Primeiro de Dezembro Dia Mundial de Combate à Aids: Os problemas no enfrentamento do crescimento do HIV no Brasil e as soluções propostas”, conta com apoio do Senac São Paulo e das farmacêuticas GSK/ViiV e Janssen.
Redação Agência de Notícias da Aids


