
Em celebração do Dia Mundial de Luta contra a Aids, comemorado sempre em 1º de dezembro, a Agência de Notícias da Aids deu início na manhã desta quinta-feira, 29 de novembro, ao “Webinário, Primeiro de Dezembro Dia Mundial de Combate à Aids: Os problemas no enfrentamento do crescimento do HIV no Brasil e as soluções propostas”.
Sob a mediação da jornalista Roseli Tardelli, diretora desta Agência, a primeira discussão reuniu o Dr. Draurio Barreira, diretor do Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs; e os ex-diretores do Programa de Aids Dr. Pedro Chequer, líder global em saúde pública; Dra. Mariângela Simão, diretora-presidente do Instituto Todos Pela Saúde; e o pesquisador e sociólogo Alexandre Grangeiro.
Para começar a conversa, Roseli quis saber dos participantes por que a mídia acaba prestando atenção à questão do HIV só em dezembro.
“Nós notamos que não é só a mídia responsável por essa ausência mas parte do próprio governo,” respondeu Pedro Chequer. “Nos últimos anos nós temos notado a ausência das ações governamentais no chamamento à mídia para informar, debater. O Dia Mundial, por exemplo, tem sido praticamente nada. O lançamento do boletim, que eu me lembro, nos anos 90 e no início do século, envolvia a mobilização de 40, 50 jornalistas de todo o Brasil, praticamente parou de existir. O lançamento das campanhas parou de ter presenças importantes. No passado, nós tínhamos presidente, vice-presidente no Dia Mundial, ou seja, nós tínhamos engajamento político. Sem engajamento político nós não temos reflexo na mídia, isso é fato. Quando falamos em HIV e mídia, temos que levar em conta que a mídia está interessada em atores políticos que precisam voltar a se interessar mais pelo combate à doença”, ressaltou.
“O combate à Aids foi inviabilizado na última gestão. Vi os colegas informarem que distribuíam a PrEP dizendo que era tratamento, porque se dissessem que era PrEP não conseguiriam fazer chegar às pessoas necessitadas”, contou o Dr. Draurio Barreira. “As populações mais vulneráveis quase sofreram uma tentativa de dizimação. Não havia nenhum interesse do Governo de fazer prevenção, de dar visibilidade às populações mais vulneráveis. Este é um aspecto, o HIV/aids virou, como muitas outras doenças que a gente trata hoje, mais uma. Então, hoje isso é fato, nós temos uma população extremamente empobrecida vítima das novas infecções e casos. Acho que isso perde apelo para a mídia. Primeiro, você tem uma ação de governo que invisibiliza e depois tem uma população que não é formadora de opinião, não é cliente, digamos, não traz recursos para a mídia, não compra o jornal e com isso a gente perde o destaque que sempre tivemos”, afirmou.
Dr. Draurio também adiantou dados do Boletim Epidemiológico deste ano, informando que haverá uma piora nos números referentes à população negra, indígena, pardos, pessoas pobres e de baixa escolaridade e, ao mesmo tempo, uma melhora do cenário epidemiológico em pessoas brancas, de alta escolaridade, de melhores condições de vida. “No final, a gente vai ter até dados melhores do que tivemos no passado, mas se você estratifica, você vê o quanto de desigualdade a gente tem, tanto na incidência quanto na mortalidade. Quem morre são os mais vulneráveis”, lamentou.
Para Alexandre Grangeiro, “a aids caminha ou para se tornar uma doença negligenciada ou para conseguirmos sua eliminação. Nós
precisamos assumir, de fato, que avançamos bastante nessa agenda nesse período. Nós reduzimos o impacto que a pandemia tinha na sociedade e, com isso, nós vamos ter duas questões: uma menor mobilização no envolvimento de todos os setores da sociedade e também vamos ter uma percepção de parte da sociedade de que é uma doença que não aflige tanto quanto afligia há quarenta anos”, pontuou.
“O HIV não é negligenciado porque o ativismo continua vivo. Ainda tem investimentos porque é um bom negócio para a indústria farmacêutica“. Acrescentou a Dra. Mariângela Simão. “Talvez o Brasil tenha passado um período difícil no governo passado, mas é uma doença que ainda tem investimento internacional, tem alternativa, desenvolvimento de novas drogas, mas cada vez menos na área de vacina. Acho que o que houve foi um atropelamento com uma nova ameaça global e acredito que o esforço hoje é continuar relevante nas políticas públicas e nas relações internacionais também. Isso não é só os profissionais de saúde que trabalham com o HIV, o ativismo não pode morrer. Se isso acontecer o HIV vira uma doença negligenciada”, observou.
Eliminação da doença
Draurio disse acreditar e se dedicar à agenda de eliminação da doença. “Isso virou uma pauta do Governo. A criação do Comitê Interministerial de eliminação das doenças determinadas socialmente foi um passo muito importante nesse sentido. A gente vem trabalhando, no começo com nove ministérios, agora com doze, incluindo aqueles que não podiam ficar de fora: Cidades, Mulheres, Meio Ambiente”, contou.
“Amanhã a gente vai lançar uma proposta, já endossada pelo Governo, que são as duas prioridades absolutas desta gestão de expansão do diagnóstico e expansão da prevenção, entendendo que é tudo a mesma coisa, prevenção combinada. Vamos disponibilizar todas as formas de prevenção: camisinha, camisinha externa, teste, PrEP, PEP, mas a PrEP será o carro chefe”, continuou.
Alexandre Grangeiro se considera otimista em relação a caminharmos à eliminação do HIV na próxima década. “Vejo com muitos bons olhos este ano que passamos do ponto de vista da reconstrução da resposta ao HIV. Porque passamos anos desestruturando do ponto de vista técnico, da capacidade de resposta”. Ele acredita que as pontes entre as políticas públicas e a sociedade civil envelheceram.
“Para quem está em campo hoje na intervenção, você encontra diferentes atores da sociedade atuando com o tema do HIV por vários aspectos, pelas questões de gênero, pela questões de sexualidade, pelas questões afirmativas. Só que estas pessoas não estão mais organizadas, estão em coletivos, de forma mais individualizada. Essa estrutura é muito importante porque ali é que está a inovação, quem na realidade está mostrando para nós como incorporar a PrEP no cotidiano, como lidar com o estigma e o preconceito, a criar redes de apoio está nessa sociedade. Isso nós interrompemos, precisa renovar esse canal. Essa ligação entre as políticas de financiamento, de participação com a sociedade civil, infelizmente está baseada nos 40 anos e não no que está ocorrendo agora”, criticou.
O pesquisador ainda salientou que “as formas de encontro sexuais, a praça pública hoje é a internet, os aplicativos, não é mais a presencial. Quem é o responsável pela saúde, pela segurança de quem estão trazendo para esses encontros, são os aplicativos. É necessária uma regulação no uso dos aplicativos, não um intervencionismo, mas responsabilizar que nós precisamos de noções de saúde facilitadas nesses aplicativos.”
Adesão, vacina e cura
“Quais as sugestões quando falamos de adesão, vacina e cura?”, perguntou a mediadora.
O Dr. Pedro Chequer respondeu que adesão implica no envolvimento da sociedade. “Se a dispensação é feita pela rede pública, o processo de adesão necessariamente fica na inclusão da sociedade civil, dos pares. Ninguém melhor do que o movimento social próprio daquele grupo que está sendo atendido pela terapia para trabalhar a adesão. Segundo é o processo de verificação laboratorial, que avalia se o tratamento está sendo eficaz, indiretamente se está havendo adesão ou não. A rede tem um papel fundamental.”
Ele comentou que leu sobre uma vacina que seria um comprimido por ano. “É como se fosse a vacina que se toma para a gripe, mas não seria injetável. Li também que na África do Sul estão testando PrEP com vacina. Há outras iniciativas, uma delas foi rastreamento por computador de todos os subtipos e a elaboração de uma vacina que cubra todas as variantes do mundo”, discorreu.
Segundo a Dra. Mariângela Simão, o contexto mudou pelo menos de duas formas. “Mudou o contexto epidemiológico, o HIV está atingindo mais
grupos específicos em todos os países, principalmente nos países pobres. E o segundo é o contexto político, em que há várias demandas que estão competindo. O contexto de adesão a gente tem que aprender também com as outras doenças crônicas, quais foram as experiências que foram bem sucedidas”, sugeriu. “Garantir as condições para adesão é uma obrigação do governo, que a sociedade assume um papel mas é uma responsabilidade do governo”,
Em relação à vacina, a médica citou o que apareceu agora com o Covid, a plataforma do RNA mensageiro, que é mais rápida. “Conversei com os descobridores da vacina e eles disseram que o próximo passo deles é uma vacina para a tuberculose e daqui dez anos uma para o HIV, isto foi há três anos. A gente precisa criar um movimento por demanda para isso, para tecnologias de cura que vão ajudar a acabar com a infecção”, comentou.
“A gente hoje joga nas costas do indivíduo dar conta da própria adesão e acabamos incorporando pouco como uma política de saúde. Eu acho que é mais uma política do que uma responsabilização do movimento social ou do indivíduo”, disse Grangeiro.
Quanto à cura e à vacina, para ele as ferramentas estão postas: o que está em pesquisa e deve vir para o consumo público ou privado. “É incrementar o que temos hoje. Os instrumentos para a eliminação estão dados. É o suficiente, é, mas nós queremos mais. Nós queremos uma vacina e uma cura, porque senão nós vamos conviver com o HIV por muitas décadas. Se nós formos depender dos investimentos da indústria farmacêutica, nós não vamos avançar tão rapidamente nessa agenda. E vamos ter problemas para a incorporação do que já temos ou o que vier para o mercado”, finalizou.
Draurio destacou que a vacina significa o fim da doença, de uma doença crônica lucrativa para a indústria. “Sou pessimista em achar que uma vacina venha da iniciativa privada, acho que a indústria vai sempre investir na cronificação e nos lucros”.
Aids uma palavra
Para encerrar, Roseli Tardelli pediu a cada convidado para dizer a palavra que vem à mente quando se fala de aids.
Mariângela Simão – Solidariedade
Alexandre Grangeiro – Solidariedade
Pedro Chequer – Direitos Humanos
Draurio Barreira – Ativismo.
A realização do “Webinário, Primeiro de Dezembro Dia Mundial de Combate à Aids: Os problemas no enfrentamento do crescimento do HIV no Brasil e as soluções propostas”, conta com apoio do Senac São Paulo e das farmacêuticas GSK/ViiV e Janssen.
Redação Agência de Notícias da Aids



