
Dando continuidade ao “Webinário, Primeiro de Dezembro Dia Mundial de Combate à Aids: Os problemas no enfrentamento do crescimento do HIV no Brasil e as soluções propostas”, realizado pela Agência Aids para celebrar o Dezembro Vermelho e o Dia Mundial de Luta contra a Aids, a jornalista e coordenadora editorial Talita Martins mediou o segundo painel desta quarta-feira, 29 de novembro.
Com o tema “Sociedade Civil se posiciona sobre o tema dificuldades no enfrentamento, apontando caminhos e possibilidades”, o debate reuniu os ativistas Alessandra Nilo, da Gestos, Pernambuco; Márcia Leão, do Fórum de ONGs/Aids do Rio Grande do Sul; Veriano Terto, da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), Rio de Janeiro; e o Dr. Artur Kalichman – diretor-adjunto no Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis.
Saúde Pública
A jornalista Talita Martins iniciou a conversa pontuando que é essencial reconhecer que a aids ainda é um problema de saúde pública.
“A aids continua sendo um problema gravíssimo de saúde pública, mas infelizmente tem perdido a sua importância”, concordou Alessandra Nilo. “Nós precisamos entender que pensar em saúde pública hoje em dia não é mais pensar naquela visão de saúde que nós tínhamos há um tempo atrás. A saúde pública hoje tem cada vez mais dialogado com outros. problemas mundiais. Um deles, por exemplo, e muito recente, é a questão das mudanças climáticas. Nós, da sociedade civil e a Gestos, muito particularmente, temos feito uma incidência política muito forte para que também as questões de saúde sejam compreendidas e tratadas a partir também de outros determinantes sociais, de outros determinantes econômicos e outros determinantes comerciais. Cabe a nós da sociedade civil estarmos abertos e abertas, os governos também, para entenderem que aids, como saúde pública, não é só falar como um problema epidemiológico puramente dito, digamos assim. Acho que é um bom momento para nós ampliarmos e saímos das caixinhas que nos colocaram durante tanto tempo.”
Veriano Terto ressalta que o discurso ouvido nos últimos anos é sobre o fim da aids, é em eliminação, que é uma questão de tempo. “A gente vê o nome aids desaparecendo, a gente tinha um programa de aids, hoje não tem mais. Ela é equiparada a outras doenças que não têm a sua mesma dimensão social, principalmente e até mesmo epidemiológica, em termos globais. Não adianta eu que estou em uma ONG/aids dizer que a aids é importante, claro, parece que eu estou vendendo o meu peixe, mas é preciso que lideranças no mundo e nacionais, inclusive fora do campo da aids, mas também as do campo da aids, voltem a falar que a aids é importante. É importante a recriação das comissões com o nome aids dito, interdisciplinares, intersetoriais e tudo isso a gente precisa recuperar. Se não, não dá. Não adianta uma pessoa vivendo com HIV dizer que a aids é um problema importante, claro, para ela é importante. A aids perdeu sua excelência, mas perdeu também porque pessoas fizeram com que ela perdesse. Quem deveria estar colocando que ela é importante começou a falar que é um problema já praticamente controlado e hoje nós vivemos esse mito, onde as pessoas dizem que já não é mais aquele problema de antes. Caímos em discursos de faça o teste e se trate, é simples, de que saber o diagnóstico e tomar o remédio é o suficiente para gente viver com HIV. Eu acho que a gente precisa recolocar a aids de uma outra maneira, nas suas diferentes dimensões, que vão além do nós aqui entre falarmos que é importante”.
Visibilidade
“Como é que a gente consegue trazer a aids para a visibilidade que ela merece. ainda hoje”, questionou a mediadora.
“Acho que o desafio aí é mais de um, só a visibilidade não adianta. A gente precisa falar de um componente essencial quando vai se pensar na questão do enfrentamento, que é a questão de financiamento”, respondeu Márcia Leão. “E isso é uma coisa que é muito difícil da gente conseguir levar, esse discurso, mesmo dentro do Congresso Nacional ou em outros pontos. Uma coisa é que a aids saiu de uma agenda prioritária há alguns anos, em função do crescimento de uma pauta, de uma agenda de costumes que fazia com que a gente discutisse aids somente em uma perspectiva biomédica, não podendo se discutir sexualidade. E a gente sabe que a resposta ela não se dá somente na questão biomédica, apesar de ter inúmeros avanços inegáveis nessa questão”.
Marcia trouxe para a conversa a realidade do Rio Grande do Sul, seu território e o estado que tem a epidemia de aids generalizada, com dados agora de evidência científica. “A gente teve resultado de uma pesquisa, que se chama de PCAP, pesquisa de conhecimento de atitudes práticas que foi feita aqui no Rio Grande do Sul. Quando você começa a analisar um pouco, entende o funcionamento do restante da epidemia também no país, que não é muito diferente. Você vê as pessoas dizendo que sim, aids tem tratamento e a maior parte admite que a forma mais efetiva barreira para a infecção do HIV é o uso do preservativo, de chegar a 93% das pessoas entrevistadas dizerem que o preservativo é a forma mais efetiva, mas apenas 32% utilizou preservativo nas primeiras relações. Isso mostra um pouco a grande dificuldade que a gente tem tido de discutir aids nos ambientes em que podem formar as políticas públicas. É quando a gente deixa de ver a aids dentro de toda a sua multiplicidade e passa a pensar ela somente em um critério que é o biomédico. O nosso maior desafio agora é conseguir romper essa agenda de costumes”, acrescentou.
Artur Kalichman admite que dar à aids o destaque que ela merece não é uma questão fácil, mas relatou alguns avanços. “O Departamento agora
voltou a se chamar Departamento de Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs. E a gente está buscando dar essa visibilidade no trabalho. A gente, de fato, passou por um período muito ruim no Brasil em relação não só às políticas específicas de saúde, mas um ponto de vista mais amplo. A gente está passou por um contexto social em todos os sentidos muito adverso. E isso teve um impacto no aumento da retomada de indicadores péssimos de tuberculose. A gente voltou 10 anos para trás em relação a tuberculose em relação à mortalidade. E isso teve impacto também em relação ao HIV, em um momento em que houve uma piora das condições sociai, uma maior interdição do debate sobre direitos dos direitos sexuais e reprodutivos, tanto na escola quanto na sociedade como um todo, ao mesmo tempo, onde novas tecnologias que fizeram a diferença, começaram a ser incorporadas no Brasil. Ainda que a gente ainda não tenha uma cura, o HIV está em um patamar onde a gente já tem tecnologia para resolver essas questões. Então, o que que tá pegando? Não é uma questão tecnológica, são as iniquidades, são as injustiças. São o conjunto de desigualdades que tem no Brasil, onde a gente vê que as novas infecções entre os brancos, a população branca no Brasil, está caindo. Isso não acontece entre os pardos. Isso não acontece entre os pretos. Isso não acontece entre as populações indígenas. Isso não acontece nas regiões mais pobres do Brasil. Ou seja, a gente tem uma questão de desigualdade que está colocada aqui no Brasil, tem que caminhar para vencer e a gente tem questões que estão para fora do sistema de saúde”, ressaltou.
Intersetorialidade, vulnerabilidade e saúde mental
Veriano vê com preocupação a perda de uma no que diz respeito às pessoas vivendo com HIV. “Eu acho que isso precisa ser também resgatado, essa dimensão que é intersetorial, entre elas, por exemplo, a questão da saúde mental. Não é que as pessoas com HIV estão psicóticas, mas a gente pode dizer que muitas piram, porque é pra pirar mesmo. O abandono, às vezes, é muito grande e tem a questão do estigma, do preconceito. A questão de reduzir a vida ao HIV, a dimensão somente clínica e epidemiológica, é muito ruim para quem vive com o vírus. É a questão trabalhista, questão de educação, a questão reprodutiva, a questão de saúde mental. Acho que tudo isso é muito importante de ser resgatado para que as pessoas consigam efetivamente viver com HIV”, explicou.
Talita lembrou que, recentemente, o Ministério da saúde lançou um boletim sobre a saúde da população negra. E ficou claro nesse boletim o quanto o racismo estrutural contribui para as desigualdades de impacto da epidemia de HIV.
Alessandra afirmou que esse dado deste boletim, na verdade, se reproduz a cada ano. “Esse dado não é uma novidade, mas ele apenas atesta que esse desafio permanece. Inclusive quando você vê o número de óbitos das pessoas em decorrência do HIV/aids, a gente observa que são as pessoas negras as que morrem mais. Na Gestos, nós atendemos majoritariamente pessoas muito, muito pobres. A saúde mental é a primeira das prioridades, então oferecemos acompanhamento psicossocial, porque pra gente não adianta só você ter psicólogo, se você não tem um assistente social que vai poder ir à tua casa, observar quais são as tuas necessidades, fazer conexão com as outras políticas públicas. Nós temos atuado muito é nos processos de garantia de renda para essas pessoas que são muito pobres, porque elas estão em um contexto em que sem renda elas não vão conseguir aderir ao tratamento do HIV/aids. Não adianta você dar o acesso ao medicamento se essa pessoa não tem acesso à alimentação. Por exemplo, se ela não tem acesso a um vale transporte que vai fazer com que ela chegue no serviço para consulta, para pegar o seu medicamento e, se quando ela chega nesse serviço, ela também é tratada com desrespeito ou tem um serviço de extrema baixa qualidade ou ela é desrespeitada pelo profissional que a atende. Então, existe um conjunto de fatores que são essenciais para que você garanta adesão.”
Caminhos a seguir
“Acho que tem algumas coisas que, talvez, a gente não tenha bola mágica pra poder dizer que vai funcionar. Mas algumas coisas poderiam ser tentadas ou melhoradas”, observou Veriano. “Eu acho que a gente ainda precisa ir mais além na questão da prevenção combinada, por exemplo. Precisa ter outras formas de ofertar PrEP no Brasil para além dos serviços públicos de saúde. Isso precisa ser ampliado, tem que ir para diferentes lugares, onde as pessoas possam ter acesso, talvez alguns tipos de associação de moradores, talvez escolas mais progressistas, outras instituições onde a PrEP poderia ser mais bem ofertada, e repensar algumas mensagens sobre como ela funciona. Acredito que isso é um caminho interessante para romper um pouco essa realidade que a gente vive. Até há pouco tempo se falava que 70% dos usuários da PrEP eram homens gays brancos e não chega ao restante da população onde deveria chegar, principalmente homens gays pretos”, observou.
O ativista ressaltou que não adianta ter só os direitos básicos atendidos. “A gente sabe que ao se receber um diagnóstico com HIV – digo isso enquanto pessoa que vive com o vírus há muitos anos –, a gente também recebe uma carga de obrigações ético-morais que não são fáceis de serem levadas. Eu tenho meus direitos básicos atendidos, pessoa de classe média, tenho salário e tal. Mesmo assim, para mim é difícil, mais ainda para quem não tem os seus direitos básicos atendidos. Mas além disso, tem essas obrigações ético-morais: questão da revelação, a questão dos projetos de vida, minha carreira enquanto profissional, a minha carreira enquanto pai, a minha carreira enquanto mãe e enquanto filho, enquanto paciente do dentista, enquanto trabalhador. Como eu me comporto, uso camisinha, não uso, deixo que me chupem ou não deixo que me chupem. É assim, é uma coisa maluca. Qual é a minha responsabilidade com o outro? Quantas pessoas soropositivas acham que são responsáveis pelo destino da pandemia?”
Alessandra considera ser hora de aplicarmos o que nós já sabemos que funciona. “Nós já temos lições aprendidas sobre essa pandemia que podem facilmente nos levar ao fim da aids como uma pandemia. No entanto, nós precisamos agora é trabalhar em conjunto, trabalhar inclusive com outros movimentos sociais que tem, digamos, uma expertise maior também nesse campo dos determinantes sociais econômicos que nós tanto falamos aqui, para que a gente construa algo mais. É impactante que a gente consiga convencer os governos a fazerem o que é necessário. Então, fazer o que é necessário é a minha perspectiva para o próximo ano, entendendo que esse primeiro ano do governo Lula foi um ano muito de reorganizar uma casa que, enfim, que precisava de muitos concertos e muitos ajustes. Acho que a nossa perspectiva para o próximo ano e para esse processo como um todo, é primeiro que a gente consiga aumentar os recursos para resposta HIV/aids no Brasil”, disse a ativista.
A realização do “Webinário, Primeiro de Dezembro Dia Mundial de Combate à Aids: Os problemas no enfrentamento do crescimento do HIV no Brasil e as soluções propostas”, conta com apoio do Senac São Paulo e das farmacêuticas GSK/ViiV e Janssen.
Redação Agência de Notícias da Aids


