Debate realizado no Hepatoaids expõe como desigualdades sociais, discriminação e falhas no acesso aos serviços de saúde continuam alimentando a epidemia de HIV, especialmente entre pessoas trans e travestis, apesar dos avanços na prevenção e no tratamento.
A resposta brasileira ao HIV acumulou conquistas históricas nas últimas décadas. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente preservativos, testagem, profilaxias pré e pós-exposição (PrEP e PEP), autotestes e tratamento antirretroviral. Ainda assim, especialistas reunidos no Hepatoaids alertaram que o avanço das tecnologias biomédicas não tem sido suficiente para alcançar as populações mais vulnerabilizadas, sobretudo pessoas trans e travestis.
Durante o debate “Prevenção Combinada do HIV, Vulnerabilidades e Iniquidades no Cuidado à População Trans”, representantes do Ministério da Saúde defenderam que o enfrentamento da epidemia exige olhar para além dos medicamentos e considerar fatores estruturais como pobreza, racismo, exclusão escolar, transfobia, violência e acesso desigual aos serviços de saúde.
O encontro reuniu o consultor técnico do Ministério da Saúde, Gilvane Casimiro, e a tecnologista do Ministério da Saúde Nathália Pacífico de Carvalho, sob mediação de Álvaro Furtado e Rosa Alencar.
HIV segue concentrado nas populações mais vulnerabilizadas
Ao abrir a discussão, Gilvane Casimiro destacou que a epidemia continua atingindo de forma desproporcional determinados grupos populacionais. Entre eles, as pessoas trans aparecem em situação de extrema vulnerabilidade.
Segundo ele, estudos nacionais apontam prevalência de HIV variando entre 17% e 37% entre mulheres trans e travestis, índices muito superiores aos observados na população geral.
“Todas essas pessoas já são vulneráveis por serem quem são. Por ser negro, por ser usuário de droga, por estar em situação de rua. E, somado a isso, vêm as dificuldades de acesso, a falta de acolhimento e serviços que ainda não estão preparados integralmente para lidar com essas populações”, afirmou.
Para o especialista, o conceito de prevenção combinada precisa ser compreendido de forma ampla. Mais do que oferecer medicamentos, trata-se de articular estratégias biomédicas, comportamentais e estruturais.
“Não adianta ter o medicamento na farmácia se eu não tiver acolhimento, se eu não tiver respeito às identidades e, principalmente, se eu não tiver trabalho, renda, casa e comida. Muitas vezes a prioridade dessas pessoas é sobreviver”, disse.
A epidemia é atravessada pelas desigualdades sociais
Ao longo da apresentação, Casimiro insistiu que a prevenção não pode ser dissociada das condições concretas de vida das pessoas. Ele lembrou que fatores como território, raça, gênero, escolaridade e renda influenciam diretamente o risco de infecção e a permanência no cuidado.
“O CEP das pessoas importa. Onde elas moram importa. A cultura, a religião, as desigualdades de raça e gênero, as violências. Tudo isso produz vulnerabilidade.”
Segundo ele, ainda existem barreiras básicas dentro dos próprios serviços de saúde. “Tem lugares onde o preservativo continua atrás do balcão da farmácia. Tem estados que ainda agendam testagem. Tem unidades em que a atenção primária não realiza teste de HIV e encaminha para outro serviço. Isso significa perder oportunidades.”
O consultor também criticou a concentração da PrEP em serviços especializados e defendeu sua ampliação para a atenção primária. “A PrEP precisa estar onde a população acessa. A atenção primária é a ordenadora do cuidado.”
Estigma continua sendo uma das maiores barreiras
Uma das partes mais contundentes da fala de Casimiro foi dedicada ao impacto do estigma e da discriminação. Segundo ele, dados do Índice de Estigma mostram que mais da metade das pessoas vivendo com HIV no Brasil já sofreu algum tipo de discriminação. “O estigma atravessa toda a linha de cuidado. Vai da promoção da saúde sexual até a supressão viral.”
Ele relatou que o medo do julgamento ainda afasta pessoas da testagem, da prevenção e do tratamento. “O HIV continua sendo um tabu. Muitas pessoas evitam fazer o teste porque têm medo do resultado e do julgamento da família, dos amigos e até dos profissionais de saúde.”
Casimiro também criticou posturas moralistas ainda presentes em alguns serviços. “Recentemente ouvi um médico dizer que era preciso abordar a promiscuidade. Essa é uma palavra muito pesada. As palavras têm peso.”
Segundo ele, comentários, olhares e atitudes aparentemente simples podem afastar usuários dos serviços. “A população trans fala muito da síndrome do cotovelo. Quando chega ao serviço de saúde, as pessoas ficam cutucando umas às outras. Isso impede o acesso.”
Gil defendeu que o combate ao HIV precisa estar ancorado na equidade. “As novas tecnologias ampliam as possibilidades de prevenção, mas somente a equidade amplia o seu impacto.O desafio não é apenas inovar na prevenção com novos medicamentos e tecnologias. É garantir que a inovação alcance primeiro quem mais precisa.”

Pessoas trans seguem sendo as mais afetadas pela epidemia
Nathália Pacífico aprofundou o debate sobre os impactos da epidemia entre pessoas trans e travestis. Ela apresentou resultados do primeiro monitoramento nacional do contínuo de cuidado em HIV nessa população, publicado este ano pelo Ministério da Saúde.
A especialista chamou atenção para a gravidade do cenário. “As pessoas trans e travestis são as mais afetadas pelo HIV.”
Segundo ela, dados do estudo TransOdara apontam prevalência de 34% entre mulheres trans e travestis. Em nível global, mulheres trans apresentam até 66 vezes mais chances de viver com HIV em comparação à população geral. “Isso por si só já nos coloca em situação de alerta.”
Vulnerabilidade não está na identidade de gênero
Ao longo da exposição, Nathália insistiu que a vulnerabilidade não decorre da identidade trans em si, mas das condições sociais impostas a essa população. “É impossível falar desse tema sem falar de gênero.”
Segundo ela, o gênero organiza relações sociais, define hierarquias e influencia quem é reconhecido como sujeito digno de cuidado. “As pessoas trans circulam pela sociedade sendo constantemente lidas a partir dessa lente. Muitas vezes são vistas como um desvio daquilo que é considerado normal.”
Ela afirmou que essa dinâmica produz exclusão social e repercute diretamente na saúde. “A dificuldade de permanecer na escola, acessar trabalho, renda e moradia impacta todas as possibilidades de cuidado.”
Dados revelam dificuldades para permanecer em tratamento
O monitoramento apresentado pela pesquisadora identificou aproximadamente 23,5 mil pessoas trans vivendo com HIV no Brasil.
Embora os indicadores de diagnóstico e supressão viral sejam relativamente próximos aos da população geral, o cenário muda quando se analisa a continuidade do tratamento. “O percentual de interrupção de tratamento entre mulheres trans e travestis é mais que o dobro do observado entre pessoas cis.”
Outro dado preocupante foi o atraso na retirada dos medicamentos antirretrovirais. “Mulheres trans e travestis concentram os maiores percentuais de atraso.”
Para Nathália, esses números revelam que as maiores barreiras surgem justamente após o diagnóstico. “Talvez as pessoas consigam chegar ao serviço, fazer o teste e receber o diagnóstico. Mas permanecer no cuidado é muito mais difícil.”
Falta de informação compromete políticas públicas
Outro ponto destacado pela pesquisadora foi a necessidade de melhorar o registro da identidade de gênero nos sistemas de informação do SUS.
Segundo ela, quase 40% das pessoas vivendo com HIV registradas nas bases nacionais não possuíam informação adequada sobre identidade de gênero ou orientação sexual.
“A gente não conseguiria fazer esse monitoramento sem esses dados. Mas ainda precisamos avançar muito na qualidade dessas informações.”
Ela orientou profissionais a adotarem abordagens simples e respeitosas. “A tecnologia mais simples é perguntar para a pessoa como ela gostaria de ser chamada. Perguntar com respeito é muito melhor do que presumir.”
Cuidado precisa ser afirmativo e integral
A pesquisadora também apresentou evidências sobre barreiras enfrentadas por pessoas trans nos serviços de saúde. Segundo ela, discriminação, transfobia e insegurança continuam sendo experiências frequentes. “Os serviços muitas vezes são percebidos como hostis e excludentes.”
Além disso, observou que as necessidades dessa população vão muito além do HIV. “Não podemos centrar todas as intervenções exclusivamente no HIV. As necessidades de saúde dessas pessoas são amplas e integrais.”
Ela defendeu políticas de afirmação de gênero, qualificação dos profissionais e ampliação da participação comunitária. “A ampliação da continuidade do cuidado depende do enfrentamento do estigma, da qualificação dos profissionais e de mudanças estruturais.”
Debate amplia reflexões sobre trabalho, ativismo e acesso
Durante o debate com o público, profissionais compartilharam experiências que reforçaram os desafios apontados pelos palestrantes.
Um participante destacou que o medo da exposição no ambiente corporativo também afasta pessoas do cuidado. “Há pacientes que abandonam o acompanhamento para não precisar apresentar atestados. Existe uma pressão muito forte do mundo do trabalho.”
Outro comentário abordou o crescimento de discursos antitrans e seus impactos na saúde. “Existe hoje uma campanha contra o transativismo que é devastadora.”
A experiência dos Agentes de Prevenção do município de São Paulo também foi citada como exemplo de redução de estigmas e fortalecimento comunitário. Uma participante relatou ter se emocionado ao ver mulheres trans, profissionais do sexo, jovens, gays, lésbicas e mulheres cis compartilhando trajetórias de vida em atividades coletivas. “Essa convivência heterogênea ajuda a desmontar preconceitos que a sociedade ainda carrega.”
Também foram levantadas questões sobre a inclusão da variável gênero nos sistemas de vigilância, a ampliação do acesso aos medicamentos em municípios pequenos e a necessidade de facilitar a dispensação da PrEP em todo o país.

Uma epidemia que exige respostas além da saúde
Ao final do encontro, ficou evidente o consenso entre os especialistas: a resposta ao HIV não depende apenas da incorporação de novas tecnologias.
Embora medicamentos inovadores, autotestes e profilaxias representem avanços fundamentais, eles não conseguem, sozinhos, superar os efeitos da exclusão social, da pobreza e da discriminação.
Como resumiu Nathália Pacífico:”A vulnerabilidade das pessoas trans e travestis em relação ao HIV não diz respeito à identidade de gênero. Diz respeito à forma como a sociedade lida com a diversidade.”
E, nas palavras de Gilvane Casimiro: “Somente a equidade é capaz de fazer a inovação chegar a quem mais precisa.”
Redação da Agência de Notícias da Aids




