Na última sexta-feira (5), o auditório do Sesc São Paulo, no bairro do Belém, recebeu uma das conversas mais intensas, sensíveis e necessárias deste Dezembro Vermelho. A convite do Festival Contato, que completa 30 anos em 2025, funcionários da instituição participaram de um bate-papo sobre HIV, prevenção combinada, redução de danos, estigma, arte e direitos — uma roda conduzida pela jornalista Roseli Tardelli, diretora da Agência Aids, e pela artista visual e ativista Micaela Cyrino, que nasceu com HIV.
O encontro evidenciou um Sesc comprometido com uma agenda histórica: garantir que informação, cultura e cuidado circulem entre trabalhadores e públicos, fortalecendo uma instituição que há três décadas aposta no diálogo franco sobre sexualidade, direitos humanos e enfrentamento das ISTs.
A conversa começou com Roseli Tardelli retomando suas memórias do início da epidemia. Aos 64 anos, a jornalista relembra que tinha apenas 32 quando o Sesc criou a primeira edição do Projeto Contato — iniciativa que atravessaria gerações.
“Eu comecei a trabalhar com essa história porque perdi um irmão”, contou. “Eu tinha voltado da Europa, estava bem profissionalmente, trabalhando no Estadão, na Eldorado. Mas naquele momento, receber um diagnóstico de HIV era uma sentença de morte. Era absolutamente devastador.”
Roseli relatou a primeira internação do irmão no Hospital 9 de Julho. Ele era dependente do convênio, mas uma representante da empresa entrou no quarto e disse que ele deveria sair. A justificativa? “Eles não atendiam aquele tipo de doença. Mas aids já era atendida pelo SUS. A recusa era por uma única palavra: preconceito. E toda vez que a gente abaixa a cabeça para qualquer preconceito, a gente diminui a humanidade inteira”, afirmou.
A família decidiu entrar na Justiça. Foram a segunda do país a mover esse tipo de ação — e a primeira a se expor publicamente. “O outro rapaz, de Belo Horizonte, conseguiu atendimento, mas ficou quieto. Nós não tivemos como ficar.” A imprensa, lembra Roseli, foi surpreendentemente solidária. “Jornalistas nem sempre são bacanas. Mas ali foram. Até hoje são.”
A mídia, os equívocos e as disputas de narrativa
A jornalista revisitou como a imprensa brasileira, nos anos 80 e 90, ajudou a consolidar equívocos que alimentaram o estigma que perdura até hoje. “O problema é que, quando a epidemia começou, os primeiros casos notificados eram de homens gays. E os médicos diziam que era uma doença de gays. A imprensa reproduziu. Faltou questionamento. Faltaram perguntas. Mas também faltavam respostas.”
Roseli lembrou capas históricas — como a da Veja, que estampou Cazuza como “Uma vítima da aids agoniza em praça públicas”, manchete cruel que atravessou o país. “Nenhum de vocês gostaria de ver um amigo ou parente exposto assim. Aquilo não ajudou em nada.”
Com o tempo, a imprensa mudou — mas o tema perdeu espaço. “No 1º de dezembro deste ano, eu não vi uma única capa sobre aids”, destacou. “Por isso o Contato é tão importante: porque mantém o assunto vivo.”
Em 2003, Roseli fundou a Agência Aids, com objetivo de reconstruir a narrativa sobre HIV com dignidade e precisão. “Nós nunca usamos expressões como ‘aidético’ ou manchetes que desumanizam. Uma pessoa não é um vírus ambulante. Ela tem o vírus. É diferente”, afirmou. “Nosso compromisso é com o respeito.”
“Eu nasci com HIV”: a vida de Micaela Cyrino entre o silêncio e a arte
Se a fala de Roseli reconstrói o passado da epidemia, Micaela Cyrino representa uma geração que nasceu já dentro dela. Hoje com 37 anos, ela narrou uma história que emocionou o público.
“Eu nasci com HIV. Minha mãe morreu em decorrência da aids. Eu fui encaminhada para um abrigo para crianças soropositivas. Isso, nos anos 90, era muito comum. Muitas crianças perderam os pais”, disse.
Dos 6 aos 18 anos, Micaela viveu sob tutela do Estado. “Minha rotina era hospital, escola e remédio. Sempre muito remédio. Já tomei 18 comprimidos por dia.”
No abrigo, falar sobre HIV era parte do cotidiano. “Ali era tudo muito natural. Mas quando comecei a sair para a vida, para a escola, descobri o mundo real: a sorofobia.”
O episódio mais marcante aconteceu na sala de aula. “O meu nariz sangrou e eu disse ao professor que ele precisava usar luva porque eu tinha aids. Na verdade, ele deveria usar luva com qualquer pessoa. Depois disso, muito pais proibiram seus filhos de brincar comigo.”
Foi na arte e no ativismo que encontrou força para transformar dor em discurso político. “Hoje, eu falo de HIV com leveza porque é minha vida. Não é minimizar — é reconhecer que eu estou viva. Hoje não se morre mais de HIV. Mas se morre de depressão, de violência, de abandono.”
Após as falas pessoais, Roseli e Micaela entraram nos temas centrais do Dezembro Vermelho: prevenção, acesso e cuidado.
Roseli explicou as formas de transmissão do HIV, ressaltando que hoje, uma pessoa em tratamento há seis meses atinge carga viral indetectável — e, portanto, não transmite o vírus. O princípio I=I (Indetectável=Intransmissível) foi reforçado diversas vezes.
“As pessoas precisam testar e tratar. Quando você testa e trata, você quebra a cadeia de transmissão”, afirmou.
Ela também falou sobre PEP e PrEP. A Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) consiste no uso diário ou sob demanda de medicamentos antirretrovirais (ARV) para pessoas que não vivem com o vírus. Ela deve ser tomada antes de uma exposição de risco. Já a Profilaxia Pós-Exposição (PEP) é uma medida de urgência com medicamentos antirretrovirais para prevenir o HIV após uma situação de risco (sexo desprotegido, violência sexual, acidente ocupacional), devendo ser iniciada em até 72 horas e durando 28 dias, disponível gratuitamente no SUS.
Micaela completou: “A PrEP só funciona quando dialoga com políticas de direitos, com acolhimento e com acesso real. Não dá para falar de prevenção sem falar de vida.”
Arte, cuidado e futuro

O encontro terminou com uma reflexão conjunta sobre a importância da arte — tanto na prevenção quanto no enfrentamento do estigma. O projeto Contato, com seus 30 anos, foi celebrado como um dos pilares da humanização no Sesc.
“Quando cultura e arte entram em cena, elas transformam”, disse Roseli. “E falar de HIV é falar de humanidade.”
Micaela completou: “Eu estou viva porque muitas pessoas fizeram o caminho antes de mim. E hoje eu faço porque outras virão. Nosso futuro depende do quanto somos capazes de olhar para a vida.”
Redação da Agência de Notícias da Aids




