
A 29ª edição da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, realizada em 22 de junho de 2025, transformou a Avenida Paulista em um palco vibrante de celebração, reflexão e luta. Com o tema “Envelhecer LGBT+: Memória, Resistência e Futuro”, o evento destacou a importância de reconhecer e valorizar as trajetórias da população LGBT+ idosa, frequentemente invisibilizada nas discussões sociais e políticas.

No coração dessa celebração, o Camarote Solidário da Agência de Notícias da Aids se destacou como um espaço de acolhimento, informação e ação. Além de promover a visibilidade das questões relacionadas ao HIV e ao envelhecimento da comunidade LGBT+, o camarote arrecadou doações para apoiar pessoas vivendo com HIV, reforçando seu compromisso com a solidariedade e a cidadania.

A seguir, compartilhamos relatos de participantes que vivenciaram intensamente esse momento histórico, oferecendo uma perspectiva única sobre a importância deste evento e do Camarote Solidário na promoção de direitos, inclusão e respeito à diversidade em todas as idades.
Andrea Boccardi, diretora do UNAIDS no Brasil:

“Especialmente para nós, como UNAIDS, [estar presente na Parada e no Camarote] é uma oportunidade de dar visibilidade não só à população LGBT, mas também ao tema deste ano, que é o envelhecimento da população LGBT, uma população que resistiu a vida toda, que lutou por direitos.
Para o UNAIDS, essas pessoas foram um modelo. Ajudaram de maneira fundamental na resposta ao HIV, foram um motor dessa resposta, lutando por acesso à saúde e ao tratamento. Mas agora temos um desafio muito importante pela frente: imagine uma pessoa LGBT que envelhece vivendo com HIV. Essa pessoa enfrenta preconceito, estigma, discriminação.
Só para se ter uma ideia, o último relatório de 2025 mostra que 65% dos homens gays e bissexuais relataram alguma situação de discriminação no último ano. Entre a população de travestis e pessoas trans, metade não procura o sistema de saúde justamente por medo da discriminação. Essas são barreiras reais, que dificultam o acesso.
E quando falamos de acesso, não é só a medicamentos. É acesso a trabalho digno, educação, justiça. São temas que afetam toda a vida dessa população e que precisam continuar sendo pautas de luta. Agora, em especial, estamos homenageando essas pessoas que abriram o caminho. Mas as gerações jovens precisam continuar essa resistência.
Particularmente, é importante lutar também para ampliar o acesso às tecnologias mais modernas de prevenção. Hoje temos uma tecnologia quase como uma vacina contra o HIV: os injetáveis de longa duração. Mas enfrentamos o problema dos altos preços impostos pelos laboratórios — o que impede que o governo brasileiro consiga ofertar no SUS. O Brasil foi o primeiro país do mundo a oferecer tratamento gratuito. Agora quer oferecer a melhor prevenção, mas, para isso, precisamos pressionar os laboratórios a reduzir os preços.
Essa é uma oportunidade de gerar consciência e mobilizar a pressão social que precisamos. O trabalho precisa continuar, porque a epidemia de Aids continua e tende a crescer. É um desafio que temos pela frente.”
Luis Baron, 65 anos, conselheiro da associação EternamenteSou:
“Sou soropositivo há 38 anos e, pessoalmente, acredito que o HIV acabará no dia em que todas as pessoas estiverem preparadas, protegidas e que as pessoas soropositivas estejam bem cuidadas.
Essa é a maior Parada do mundo. Neste ano, traz a questão do envelhecimento, que é uma questão invisibilizada, da qual ninguém fala. A comunidade LGBTQIAPN+, assim como todas as pessoas, tem uma dificuldade imensa em lidar com o envelhecimento — com a velhice especial, que é onde nós trabalhamos. Trazer isso para a Parada é trazer um local onde essas pessoas brilhem, mas também onde elas sejam vistas.
Aconteceu algo muito curioso na Feira da Diversidade, na quinta-feira passada. Eu nunca vi tantas pessoas idosas frequentando aquele ambiente. Isso quer dizer o quê? Que as pessoas resolveram sair, porque estão, de alguma forma, sendo prestigiadas.
E outra questão é que a Parada é difusora: ela leva o tema da Parada de São Paulo para todas as paradas do Brasil. Mais de 100 cidades terão o mesmo tema. Ou seja, esse tema não morre durante pelo menos um ano. E a gente espera que ele não morra nunca.”
Cristina Abbate, coordenadora da área de IST/Aids da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo:
“Hoje é muito importante para nós estarmos aqui no Camarote da Agência Aids, que é um camarote solidário e também nos dá a oportunidade de divulgar os serviços principais da Prefeitura de São Paulo. Aqui estamos com um estande que tem uma réplica cenográfica das principais ações e serviços da cidade. Além disso, é um momento importante de falarmos com um número grande de pessoas. A Paulista hoje espera 3 milhões de pessoas da comunidade LGBT.
Apesar da cidade de São Paulo ter números bastante positivos na redução de novas infecções, o HIV ainda atinge de maneira desproporcional alguns grupos sociais, principalmente a população gay e a população trans. Hoje é um dia em que temos a oportunidade de conversar, num curto espaço de tempo, com um número muito grande de pessoas, levando informação não só sobre tudo que está à disposição delas na cidade, como também oferecendo insumos de prevenção: as camisinhas o gel, o autoteste, que é uma possibilidade da pessoa conhecer sua condição sorológica.”
Américo Nunes, 64 anos, presidente do Instituto Vida Nova:
“Estar aqui na Parada é um compromisso de todos os anos, porque tem um cunho social. É um camarote solidário e tem a importância de dar visibilidade para que as pessoas do movimento de luta contra a Aids, a sociedade civil organizada, gestores e governo tenham esse espaço para realmente fazer conexões e avançar nas respostas ao enfrentamento das ISTs, HIV e Aids, contextualizando também a temática da 29ª Parada, que traz como foco as pessoas vivendo com 50+.
Me sinto nesse grupo, e percebo o quanto é importante trazer esse tema, pensando na rede de apoio. O que tem acontecido é que essas pessoas estão voltando para o armário, por conta do preconceito e da discriminação, até mesmo dentro da própria comunidade, que esquece que essas pessoas têm uma história, têm alguém, têm um familiar. Essas pessoas precisam de apoio, não só em saúde, mas principalmente em suporte psicológico.
Precisamos, sim, fazer conexões e trazer à tona essa reflexão: como melhorar a longevidade com qualidade de vida para essas pessoas? A Parada traz esse tema.
Eu tenho ainda um agravante: vivo com HIV há mais de 40 anos e já sou uma pessoa idosa. Quais são as consequências de tudo isso? Moro sozinho, sou recentemente viúvo. Quem é minha rede de apoio? Se eu contar nos dedos, tenho aproximadamente cinco pessoas que posso considerar como amigos, que podem ser essa rede. Mas, se você pensar no contexto da comunidade, tem muitas pessoas sozinhas, abandonadas, principalmente vivendo em situação de rua, à mercê. É preciso pensar em políticas públicas, de direitos humanos, mais efetivas, com eficácia e eficiência para essa população também.”
Karen Valdez, médica cubana:
“Estou no Brasil participando da Parada de São Paulo. Tem sido uma experiência maravilhosa de integração e reivindicação de direitos. Acho muito importante que as pessoas possam se expressar, e este é um espaço onde me impressionou ver não apenas pessoas do movimento LGBTI+, mas também aquelas que simplesmente entendem que os direitos são para todos e que todos merecemos isso. Trabalho com pessoas que vivem com HIV, e, por isso, essas experiências são essenciais também para mim.”
Dr. Fábio Mesquita, médico epidemiologista:
“Sou médico epidemiologista e trabalho com HIV desde 1987. Achei a parada maravilhosa, como todos os anos. Hoje, tudo deu certo, e o tema foi superinteressante, já que as pessoas da minha geração estão envelhecendo. É preciso ter um cuidado específico para que não sejam discriminadas pelo envelhecimento, por serem da comunidade LGBT ou por qualquer outro motivo. A parada trouxe esse tópico importante.
O camarote, como sempre, foi maravilhoso e um sucesso absoluto. Encontramos aqui os maiores ativistas do Brasil nesse campo, profissionais de saúde, militantes, jornalistas, professores… Todos passaram por aqui e ficaram muito felizes com o que funcionou. Como sempre, a Roseli Tardelli e a equipe da Agência de Notícias da AIDS estão de parabéns por essa atividade incrível.”
Diana Victória, 27 anos, integrante do Instituto Barong:
“Estamos aqui nesse evento maravilhoso da diversidade, a Parada da Diversidade, com um tema superimportante: o envelhecimento LGBT, o direito de envelhecer.
Estamos com um projeto maravilhoso que envolve mulheres trans, trazendo capacitação sobre ecologia e meio ambiente. Estamos produzindo, de forma artesanal e manual, glitter biodegradável. A gente sabe o quanto o microplástico do glitter convencional pode estar presente nesses eventos e ser prejudicial para o meio ambiente.
Então além de oferecer uma oportunidade de remuneração, essa parceria entre o Camarote e o Barong está capacitando mulheres trans com essa iniciativa revolucionária, que traz consciência, porque o fervo também é luta. E está sendo incrível maquiar as pessoas aqui, fazer todo mundo brilhar e trazer essa mensagem de conscientização.”
A edição 2025 do Camarote Solidário da Agência Aids contou com o apoio do Senac São Paulo, SESC São Paulo, GSK ViiV Healthcare, Gilead, MSD, Janssen, Prefeitura de São Paulo, Coordenadoria Municipal de IST/Aids, OPAS, Mopaids e Galeria 2001.

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dicas de entrevista:
Luis Baron
Email: contato@eternamentesou.org
Cristina Abbate
Email: contato@crt.saude.sp.gov.br
Américo Nunes
Telefone: (11) 2554-4043
Diana Victoria
Instagram: dianavictoriagcf
Andrea Boccardi
Email: brazil@unaids.org
Karen Valdez
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Dr. Fábio Mesquita
Instagram: fabiocdemesquita



