Voz das Comunidades: Iniciativas promovem conversas sobre saúde e educação sexual para jovens de favela

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A internet virou extensão da vida real. A juventude acorda e já pega o celular, dorme de celular na mão, se informa, se diverte, se relaciona e se expõe. Mas nesse corre, adolescentes acabam caindo em armadilhas digitais que podem marcar para sempre. “A internet é um espaço de liberdade, mas liberdade vem com responsabilidade. E adolescente, na maioria das vezes, não entende esse peso”, dispara Dani Rodrigues, 27 anos, cria do Complexo da Penha e facilitadora do RAP da Saúde.

O RAP (Rede de Adolescentes e Jovens Promotores da Saúde) é um projeto que atua em quase todo o município do Rio. Dentro das favelas, os jovens promovem rodas de conversa, oficinas e até conteúdo digital sobre saúde sexual, saúde mental e cidadania. O foco é protagonismo juvenil, educação entre pares e multiplicação de informação. “A gente fala muito de camisinha, prevenção, mas também sobre saúde mental. Não dá pra falar de jovem preto e periférico sem falar da carga emocional que ele carrega vivendo num lugar tão marginalizado”, explica Dani.

Entre os debates mais urgentes está a exposição de adolescentes na internet: fotos íntimas, vídeos, trends sensuais, lives intermináveis. “Não dá pra romantizar quando um adolescente de 13, 14 anos tá se expondo de forma sexualizada online. Às vezes é influência do algoritmo, às vezes de um adulto, mas o risco sempre sobra pra quem é mais vulnerável”, alerta Gabriel, 24, cria de Parada de Lucas e hoje assistente de projetos na CEPIA, ONG de direitos humanos.

A ONG atua com oficinas em escolas públicas, puxando o fundamento sobre sexualidade, puberdade, métodos contraceptivos e internet. Gabriel conta que nas atividades surgem relatos pesados. “Já teve adolescente que revelou sofrer abuso, já teve quem contou que vazaram nudes na escola e acabou apanhando da própria mãe. A exposição digital não fica só no online, ela invade a vida real e pode gerar traumas profundos.”

Os facilitadores contam que os adolescentes não fogem do assunto. Pelo contrário: querem falar, querem perguntar, querem entender. “O que falta é espaço seguro. A escola, muitas vezes, não abre esse diálogo. Em casa, muitos pais ainda tratam sexo como tabu. Então eles trazem as perguntas pra gente”, diz Gabriel.

Gabriel, 24 anos, cria da Cidade Alta, hoje atua na CEPIA puxando debates sobre saúde sexual e proteção digital em escolas públicas. Foto: Uendell Vinícius/Voz das Comunidades

Mas a conta não pode cair só nos ombros de projetos sociais. A família tem papel central. “Eu sempre digo: comunicação é chave. O adolescente precisa saber que pode conversar com seus pais sem medo de julgamento. Se o diálogo não acontece em casa, a cria vai buscar resposta na rua ou na internet. E nem sempre encontra a melhor referência”, pontua Gabriel.

Para Dani, é urgente que mães e pais entendam que saúde sexual e mental não são luxos. “Não é só camisinha e gravidez. É falar de autoestima, de respeito, de direito. É falar que adolescente pode e deve pegar preservativo no posto de saúde sem constrangimento. É falar de consentimento. É quebrar o silêncio.”

O tema chegou ao Congresso. No fim de agosto, o Senado aprovou O Projeto de Lei nº 2.628/2022, que cria regras para combater a adultização de crianças e adolescentes no digital. A proposta agora segue para sanção presidencial.

No corre do RAP, da CEPIA e de tantas outras iniciativas, a ideia é blindar essa juventude com conhecimento, respeito e apoio. “A evolução que eu vejo é quando o jovem começa a se reconhecer como sujeito de direito. De alguém quieto, sem voz, pra um adolescente que fala: ‘Eu tenho direito a isso, eu sou cidadão’”, vibra Dani.

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