Em meio a resistências e desinformação, psicóloga e sexóloga defende que falar de saúde sexual e reprodutiva nas escolas é uma estratégia de proteção, acolhimento e promoção da saúde mental.
Com o início do ano letivo, as escolas voltam a ocupar um lugar central na vida de crianças e adolescentes. É também nesse período que ressurgem debates, muitas vezes marcados por ruído e desinformação, sobre a presença da educação sexual no ambiente escolar.
Para a psicóloga Regiane Garcia, especialista em sexualidade, saúde e prevenção, tratar saúde sexual e reprodutiva de forma responsável, adequada à idade e baseada na ciência não é um excesso, mas parte do papel fundamental da escola como espaço de aprendizado, socialização e cuidado.

A escola como espaço de formação, convivência e diversidade
Na avaliação da especialista, a escola vai muito além da transmissão de conteúdos formais. Ela é um ambiente onde crianças e adolescentes aprendem a conviver, a lidar com diferenças e a construir vínculos afetivos.
“A instituição escola é uma instituição de aprendizado, de conhecimento e também de socialização. É um momento onde crianças e adolescentes aprendem a se relacionar, aprendem a administrar as diferenças, aprendem a trocar afetos.”
Por isso, Regiane aponta que o espaço escolar seria naturalmente propício para abordar temas ligados à diversidade em seus múltiplos aspectos.
“É um ambiente extremamente propício para a gente falar de diversidade, de todo tipo de diversidade: a sexual, a racial, a religiosa, muitas vezes até a de classe social.”
Ainda assim, esse potencial nem sempre se concretiza na prática.
Resistência, ultraconservadorismo e falta de preparo
Segundo a psicóloga, o atual contexto social contribui para que a educação sexual seja vista como um tabu, mesmo quando tratada de forma técnica e cuidadosa.
“No momento que a gente está vivendo, de um ultraconservadorismo exacerbado, a gente tem dificuldade de falar de educação sexual.”
Essa dificuldade, segundo ela, não se limita à sexualidade, mas se estende a outros temas sensíveis do cotidiano escolar.
“As escolas, infelizmente, não têm preparo não só para a questão da saúde sexual e reprodutiva, mas também para falar de diversidade no geral, para falar de bullying, para falar de agressões e inclusive de saúde mental.”
Regiane relata acompanhar adolescentes que enfrentam sofrimento psicológico diretamente relacionado à forma como suas identidades e vivências são tratadas ou silenciadas.
“Eu acompanho vários adolescentes com muita dificuldade na área da saúde mental, muitas vezes prejudicadas pela questão da sexualidade, da orientação sexual, da identidade de gênero.”

Educação sexual não é igual para todas as idades
Um dos pontos centrais da fala da especialista é a necessidade de diferenciar educação sexual de acordo com as fases do desenvolvimento. Para ela, grande parte da resistência nasce da falsa ideia de que falar sobre o tema significa antecipar experiências.
“Quando a gente fala de educação sexual para criança, ninguém vai falar de relação sexual.”
No caso das crianças menores, o foco é outro.
“A gente vai falar de autocuidado, de higiene com o corpo, de cuidado com relação a possíveis abusos, de autoproteção.”
Ela destaca a importância de criar um ambiente em que a criança se sinta segura para relatar situações desconfortáveis.
“A criança tem que ter essa liberdade para falar, inclusive na escola.”
Na pré-adolescência, os temas acompanham as transformações do corpo.
“A gente vai falar de primeira menstruação, de mudanças hormonais, de higiene, das mudanças físicas do corpo, por que o corpo muda e como lidar com isso.”
Já na adolescência, entram em cena discussões mais amplas sobre identidade, relações e prevenção.
“A gente começa a falar de identidade de gênero, orientação sexual, relações sexuais propriamente ditas, no sentido de autocuidado, prevenção às ISTs, prevenção à gravidez não planejada e respeito afetivo.”
Informação negada, impactos profundos
Quando o acesso à informação é limitado ou negado, as consequências não se restringem à saúde física. Regiane aponta efeitos diretos na saúde mental de crianças e adolescentes.
“Quando o acesso à educação sexual e à informação são negados, você tem um reflexo diretamente na saúde mental.”
Entre os impactos, ela cita quadros de sofrimento psicológico importantes.
“Problemas de depressão, ansiedade, automutilação e uma porção de questões de saúde mental que muitas vezes o adolescente desenvolve ao lidar com a própria sexualidade.”
A falta de informação também contribui para comportamentos de risco.
“Além da saúde mental, a gente desemboca numa questão de não cuidado, de não prevenção e de exposição a comportamentos de risco.”
Falar não estimula, protege
Um dos argumentos mais recorrentes contra a educação sexual é o medo de que o diálogo estimule comportamentos precoces. Do ponto de vista psicológico, esse receio não se sustenta.
“Esse medo não faz o menor sentido do ponto de vista psicológico.”
Para Regiane, a sexualidade faz parte do desenvolvimento humano.
“A sexualidade é uma parte integrante da personalidade. Ela não precisa ser estimulada. Ela naturalmente vai acontecer, principalmente na adolescência.”
O papel da educação, nesse contexto, é outro.
“O que a gente precisa é falar, informar, conscientizar, para que as pessoas se cuidem e tenham uma sexualidade responsável.”

Ciência, direitos e responsabilidade
A psicóloga defende que a educação sexual seja orientada por princípios claros.
“Ela deve ser baseada nos estudos científicos, na ciência e nos marcos legais.”
Segundo ela, esse cuidado garante uma abordagem informativa, preventiva e respeitosa.
“Assim, a educação sexual ajuda o adolescente a traçar seus projetos de vida e ser responsável pelas suas escolhas.”
Pequenas ações também educam
Para além de projetos formais, Regiane acredita que o cotidiano escolar tem um papel decisivo.
“As questões do dia a dia fazem muita diferença.”
Ela defende que temas como respeito, autocuidado e diversidade estejam presentes em diferentes disciplinas.
“Esses assuntos podem e devem aparecer nas aulas de matemática, português, história, geografia, redação.”
O diálogo constante, segundo ela, contribui para a construção de um ambiente mais seguro.
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Escola, saúde mental e proteção
A escola, na visão da especialista, deveria funcionar como um espaço de proteção emocional.
“A escola deveria ser um espaço de proteção da saúde mental.”
No entanto, ela reconhece que ainda há desafios importantes.
“A escola deixa muito a desejar em lidar com violência, discriminação, preconceito e bullying.”
Apesar disso, o potencial transformador do ambiente escolar permanece.
“É ali que a criança e o adolescente vão aprender a viver em sociedade, a se relacionar.”
Integração entre escola, família e saúde
Para Regiane, o cenário ideal envolve diálogo e cooperação entre diferentes setores.
“O melhor dos mundos seria a integração entre escola, família e serviços de saúde.”
Ela reconhece que esse é um processo gradual.
“A gente vai devagarinho, batalhando para que essa integração aconteça.”
Ainda assim, os benefícios seriam amplos.
“Com certeza observaríamos adolescentes mais saudáveis, comportamentos mais adequados e projetos de vida mais bacanas.”

Um recado para escolas e adolescentes
Para as instituições que ainda enfrentam dificuldades, a psicóloga deixa um convite.
“Estude, se aprofunde, conheça, se permita conhecer mais sobre sexualidade.”
Ela reforça a importância de buscar apoio especializado.
“Conte sempre com profissionais que têm formação em sexualidade.”
Aos adolescentes, a mensagem é de acolhimento e cuidado.
“As dúvidas, os medos e as inseguranças fazem parte do momento que você está vivendo.”
E um alerta importante:
“Não se compare. A sexualidade não existe. Existem sexualidades. Existem corpos. Existem sentimentos diferentes.”
Por fim, ela reforça o valor do diálogo.
“Troquem ideias, conversem, porque é assim que a gente constrói relações com mais qualidade e uma vida com mais qualidade.”
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista:
Regiane Garcia
Instagram: @regiane8806




