Volta às aulas: quando educar sobre sexualidade é também cuidar, proteger e salvar vidas

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Na contramão do silêncio e dos tabus, o enfermeiro e ativista Jadilson Neto defende a educação sexual como estratégia fundamental de saúde, autonomia e prevenção para adolescentes maranhenses, fortalecendo a articulação entre escola, Unidade Básica de Saúde (UBS) e Sistema Único de Saúde (SUS).

O início do ano letivo marca muito mais do que o retorno às salas de aula. Para milhares de adolescentes, a volta às aulas também coincide com um período intenso de descobertas sobre o corpo, as emoções, os afetos e a sexualidade — quase sempre atravessado por dúvidas, medos e informações desencontradas. Em um cenário ainda marcado por tabus, silêncios familiares e desinformação, a educação sexual se apresenta como uma ferramenta essencial de cuidado, proteção e garantia de direitos.

É nesse cruzamento entre saúde e educação que atua Jadilson Neto, enfermeiro do SUS, ativista e educador maranhense reconhecido por seu trabalho na luta contra o HIV/aids e na promoção da educação sexual no Maranhão. Em entrevista à Agência Aids, ele destaca que falar sobre sexualidade no contexto escolar não é estimular comportamentos, mas construir autonomia, fortalecer vínculos e garantir que adolescentes tenham acesso a informações seguras para fazer escolhas conscientes — antes que a ausência de orientação se transforme em adoecimento, sofrimento emocional ou exclusão dos serviços de saúde.

Ao defender a escola como espaço estratégico de prevenção e a UBS como território de acolhimento, Jadilson aponta caminhos possíveis para a construção de uma geração mais informada, saudável e protagonista do próprio cuidado. Experiências desenvolvidas no município de Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís, demonstram que essa articulação é possível e eficaz — a ponto de alcançar reconhecimento nacional e internacional.

Paço do Lumiar: saúde e educação como política pública

Localizado na Região Metropolitana de São Luís, o município de Paço do Lumiar se destacou nacionalmente ao conquistar o 3º lugar no Brasil em uma premiação da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), com uma experiência exitosa que integrou ações das áreas da saúde e da educação. A iniciativa valorizou o território, fortaleceu o Programa Saúde na Escola e aproximou adolescentes dos serviços do SUS, evidenciando como políticas públicas bem articuladas podem gerar impacto real na vida das pessoas.

Mais do que um prêmio, o reconhecimento reforça que investir em educação sexual, prevenção e cuidado integral é uma estratégia eficaz para reduzir vulnerabilidades, promover saúde e garantir direitos — especialmente entre adolescentes e jovens.

Segundo explica Jadilson Neto, a educação sexual é um processo contínuo de construção de conhecimentos, valores e atitudes sobre o corpo, as relações, o cuidado, o respeito e os direitos sexuais e reprodutivos. “Vai muito além de falar apenas sobre prevenção de ISTs ou gravidez. Envolve autoestima, consentimento, diversidade, autocuidado, saúde mental e acesso à informação correta. Quando trabalhada de forma ética, científica e acolhedora, a educação sexual fortalece a autonomia, reduz vulnerabilidades e contribui para decisões mais seguras ao longo da vida”, afirma.

Confira a entrevista completa e entenda por que falar sobre sexualidade é também garantir direitos, promover cuidado e salvar vidas.

Por que falar de educação sexual no contexto da volta às aulas é tão importante, especialmente com adolescentes?

Falar sobre educação sexual na volta às aulas é falar sobre cuidado, proteção e construção de autonomia. A escola é um espaço onde o adolescente retoma vínculos sociais, troca experiências e vive intensamente processos de descobertas emocionais e corporais. Quando a saúde entra nesse ambiente, ela não entra apenas para orientar, mas para acolher, escutar e fortalecer escolhas conscientes. Para mim, como enfermeiro do SUS, educação sexual é prevenção, é saúde mental, é autoestima e é garantir que esses jovens cresçam com informação segura e sem medo de buscar ajuda.

Quais são os principais desafios que vocês, enquanto Estratégia Saúde da Família, observam quando o assunto é saúde sexual e reprodutiva entre jovens?

O maior desafio ainda é o silêncio. Muitos adolescentes têm dúvidas, medos e curiosidades, mas não encontram espaços seguros para falar sobre isso em casa, na escola ou até nos serviços de saúde. Outro desafio é combater a desinformação, porque hoje eles têm acesso a muitas informações, porém nem sempre corretas. Também enfrentamos barreiras culturais, religiosas e sociais que acabam dificultando o diálogo aberto sobre sexualidade.

Ainda existe muito tabu em torno da educação sexual. Como isso impacta o acesso dos adolescentes à informação e aos serviços de saúde?

O tabu gera afastamento. Quando o adolescente sente vergonha ou medo de julgamento, ele deixa de procurar o serviço de saúde. Isso pode resultar em início precoce da vida sexual sem proteção, maior vulnerabilidade às ISTs, gravidez não planejada e sofrimento emocional. Quando quebramos esse tabu, mostramos que a UBS é um espaço de cuidado integral e respeito.

Como surgiu a iniciativa de trazer adolescentes para conhecer os serviços da UBS?

Essa iniciativa nasceu da necessidade de aproximar o território da unidade de saúde. Observamos que muitos adolescentes só chegavam à UBS quando já havia algum problema instalado. Então, junto ao Programa Saúde na Escola, pensamos: por que não apresentar a UBS como um espaço que também pertence a eles? A partir disso, começamos a construir visitas guiadas, rodas de conversa e atividades educativas, fortalecendo vínculo e pertencimento.

O que muda quando o adolescente passa a enxergar a UBS como um espaço de acolhimento e não apenas de doença?

Muda tudo. O adolescente passa a entender que a UBS é um espaço de cuidado contínuo, não apenas de tratamento. Ele passa a procurar orientação antes de tomar decisões importantes, sente confiança para falar sobre suas dúvidas e se torna protagonista do próprio cuidado. Isso fortalece o vínculo e melhora os indicadores de saúde no território.

Quais serviços de saúde sexual e reprodutiva estão disponíveis hoje na UBS para adolescentes e jovens?

Hoje ofertamos orientações individuais e coletivas, testagem rápida para ISTs, distribuição gratuita de preservativos, acompanhamento em planejamento reprodutivo, vacinação, consultas de enfermagem e médicas, além de ações educativas voltadas à prevenção combinada. Também trabalhamos acolhimento, escuta qualificada e orientação sobre direitos em saúde.

O município de Paço do Lumiar conquistou o 3º lugar no Brasil na OPAS, em uma experiência que integrou saúde e educação. O que esse reconhecimento representa para vocês?

Esse reconhecimento representa a força do trabalho coletivo e o poder transformador do SUS. Estar entre as três experiências mais exitosas do país mostra que quando saúde e educação caminham juntas, conseguimos impactar vidas reais. Para mim, enquanto profissional, é motivo de orgulho e também de responsabilidade de continuar inovando e fortalecendo políticas públicas que realmente cheguem às pessoas.

Na prática, como funciona essa articulação entre escola e unidade de saúde?

Ela acontece através do diálogo permanente entre profissionais da saúde e da educação. Planejamos ações conjuntas, visitas escolares, atividades educativas, acompanhamento de situações específicas e construção de projetos voltados às necessidades dos estudantes. É um trabalho intersetorial que valoriza o território e respeita as particularidades de cada comunidade.

Quais resultados vocês já conseguem perceber na vida desses adolescentes após esse contato direto com a UBS?

Já percebemos maior procura espontânea pelos serviços, aumento na realização de testagens, maior adesão ao uso de preservativos, melhora na autoestima e fortalecimento do vínculo com a equipe de saúde. Além disso, vemos adolescentes mais informados, seguros e multiplicadores de conhecimento dentro da própria comunidade.

De que forma a educação sexual contribui para a prevenção de ISTs, HIV, gravidez não planejada e também para a saúde mental dos adolescentes?

A educação sexual oferece conhecimento, e conhecimento gera proteção. Quando o adolescente entende seu corpo, seus direitos e suas responsabilidades, ele consegue fazer escolhas mais seguras. Além disso, falar sobre sexualidade também reduz ansiedade, insegurança e medo, contribuindo diretamente para a saúde mental e emocional.

Como vocês trabalham temas como prevenção combinada, uso de preservativos, consentimento e autocuidado com esse público?

Trabalhamos de forma acessível, com linguagem simples, rodas de conversa, dinâmicas educativas e escuta ativa. Falamos sobre prevenção combinada mostrando que o cuidado vai além do preservativo, envolve testagem, vacinação, acompanhamento de saúde e respeito aos limites e ao consentimento. Sempre valorizamos o protagonismo do adolescente nesse processo.

Qual é o papel da informação correta para fortalecer a autonomia dos adolescentes sobre seus próprios corpos e escolhas?

A informação correta é libertadora. Ela permite que o adolescente tome decisões conscientes, respeite seus limites, compreenda seus direitos e desenvolva responsabilidade sobre sua própria saúde. Autonomia nasce do conhecimento aliado ao acolhimento.

Como iniciativas como essa fortalecem o SUS e ajudam a construir uma geração mais consciente e saudável?

Essas iniciativas mostram que o SUS vai além do atendimento clínico. Ele é educação, prevenção, vínculo e transformação social. Quando cuidamos dos adolescentes hoje, estamos construindo adultos mais conscientes, saudáveis e preparados para cuidar de si e da comunidade. Para mim, trabalhar no SUS é acreditar diariamente que a saúde é um direito e que o cuidado humanizado pode mudar histórias.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

Jadilson Neto

Instagram: @jadilsonneto

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