Vogue: Relatório mostra que jovens adultos têm a pior saúde mental entre os grupos etários. Por que isso acontece?

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Falta de propósito, solidão, questões políticas: o psiquiatra Filipe Batista discute os desafios emocionais que contribuem para que pessoas entre 18 e 24 anos sejam as que mais sofrem com transtornos mentais

Pessoas na faixa dos 20 anos têm maior probabilidade de ficar desempregadas devido a problemas de saúde mental do que aquelas na faixa dos 40. São dados recentes de um relatório britânico publicado pela Resolution Fundation. Isto é radicalmente diferente do observado antes, quando quanto mais velha a pessoa, maior a probabilidade de não trabalhar devido à doença.

De acordo com o relatório, os jovens entre 18 e 24 anos têm agora a pior saúde mental de qualquer grupo etário — uma inversão em relação a duas décadas atrás, quando tinham a menor incidência de transtornos mentais. Os piores resultados foram observados entre os jovens que não frequentam a universidade e as mulheres. Os achados são compatíveis com as evidências de aumento dos problemas relacionados à saúde mental entre as gerações mais novas.

Falta de significado e propósito, preocupações financeiras, pressão de realização, a percepção de que o mundo está desmoronando, solidão, preocupação com questões sociais e políticas. Estes são alguns dos principais impulsionadores dos desafios emocionais de jovens adultos hoje, conforme relatório do Making Caring Common (MCC), um projeto da Harvard Graduate School of Education.

Na esteira das mudanças envolvendo a saúde mental de adultos jovens e o trabalho, um fenômeno começa a ser observado: os candidatos recém-formados da Geração Z estão levando os pais para suas entrevistas de emprego. Um levantamento feito em 2023 pela consultoria educacional norte-americana Intelligent mostrou que cerca de 20% dos 800 profissionais em cargos de liderança entrevistados disseram ter observado o comportamento. Estes empregadores estariam evitando contratar recém-formados em favor de trabalhadores mais velhos.

É preciso dar o desconto: a visão do empregador esconde um importante viés de avaliação. Não é novidade que empregadores não sejam exatamente fãs das atitudes da Geração Z. Dentre os motivos, a impressão de que os mais jovens não estariam suficientemente comprometidos com o trabalho e dispostos a superar as adversidades. Em suma, a margem de manobra seria comparativamente menor que a de gerações anteriores, que julgam mais preparadas, a partir dessas premissas. Está também impregnada uma certa tendência atávica de gerações mais velhas rotularem os mais jovens como preguiçosos e irresponsáveis.

O equilíbrio da saúde mental é um valor importante para as gerações mais jovens. De fato, os adultos jovens de hoje podem ser mais conscientes emocionalmente e estar mais abertos a falar sobre os seus problemas de saúde mental do que qualquer geração anterior. Estas capacidades, se utilizadas de forma eficaz, podem ajudar os mais novos ao longo da vida a desenvolver relações significativas, a contribuir para as suas comunidades e a lidar de forma mais construtiva com o sofrimento emocional.

Ao tomar decisões, é provável que os impactos na saúde mental sejam especialmente considerados pelos mais jovens. As chamadas “demissão silenciosa” — ou seja, recusar atividades e desafios extras no emprego, cumprindo apenas com o mínimo exigido — ou “ambição silenciosa” — que consiste na rejeição voluntária de assumir cargos de liderança — figuram entre os artifícios para manter um equilíbrio saudável entre vida pessoal e profissional. Os termos viralizaram nas redes e as interpretações variam conforme as letras do alfabeto avançam nas diferentes gerações. O que separa o “descaso” e a “acomodação” do “colocar limites” podem ser precisamente as fronteiras geracionais.

A insatisfação de empregadores com o desempenho dos mais jovens, contudo, caminha lado a lado com uma realidade no trabalho que de modo algum está restrita a uma única geração: sobrecarga, precarização, remuneração insatisfatória, uso indiscriminado de psicoestimulantes e burnout.

Os desafios atualmente postos para um adulto jovem são, se não mais difíceis que os de outrora, no mínimo, bastante diferentes. A pandemia de Covid é exemplo. Somam-se os impactos da tecnologia, as transformações nos modelos e relações de trabalho, as marcadas divisões socioeconômicas, raciais, de gênero, e o esgarçamento das tensões sociopolíticas observadas globalmente.

As expectativas da geração Z em relação ao trabalho são plausíveis? O trabalho é capaz de oferecer o que esperam dele? Muitos impasses surgem a partir dessas perguntas. Se as expectativas da Geração Z parecem deslocadas da realidade e impertinentes aos olhos das gerações anteriores — dispostas a fazer concessões —, como acomodar os anseios de toda uma geração mais educada para ser feliz do que ensinada a manejar a frustração? A felicidade ocorre em intervalos, não é um contínuo, sequer é uma garantia.

É irônico notar, os que cobram da Geração Z mais “pragmatismo” podem ser os mesmos que se esforçaram para criar um mundo artificial para seus filhos: acertos hipervalorizados, falhas contemporizadas e o patrocínio velado de uma aversão a todo tipo de frustração. Esperar em contrapartida autonomia e resiliência encerram uma contradição fundamental. Tal qual empregadores que esperam obter resultados satisfatórios sem oferecer amparo e oportunidades razoáveis.

A transição para a idade adulta pode ser tumultuosa e desafiadora, mas também cabem nesta fase a descoberta e o florescimento de possibilidades, com saúde e pertencimento. As gerações mais novas carregam consigo a mudança e fazem as pressões necessárias para que elas ocorram. São elas que podem finalmente quebrar o estigma em torno da saúde mental e realizar transformações sociais vitais. O futuro do trabalho deve envolver a busca por segurança, empatia, senso de comunidade e culturas organizacionais mais salubres.

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