Viver mais com HIV impõe novo desafio: cuidar do metabolismo, da menopausa e da saúde dos órgãos

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Especialistas alertam que a supressão viral, embora fundamental, já não resume as necessidades das pessoas vivendo com HIV; síndrome metabólica, transição menopáusica e acesso a transplantes ganham espaço na agenda do cuidado integral

O avanço da terapia antirretroviral mudou profundamente a história do HIV. A infecção deixou de representar, para quem tem acesso ao diagnóstico e ao tratamento adequado, uma sentença de morte e passou a ser uma condição crônica controlável. Essa conquista, no entanto, trouxe uma nova pergunta para os serviços de saúde: depois de garantir a supressão viral, como assegurar que as pessoas vivendo com HIV envelheçam com saúde e qualidade de vida?

A resposta exige ampliar o olhar. Obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e renais, transição menopáusica, saúde óssea, sofrimento emocional e necessidade de transplantes já fazem parte da rotina de uma população que vive mais e, por isso, demanda um acompanhamento capaz de ir muito além da contagem de CD4 e da carga viral.

Esse foi o eixo da mesa “Doenças crônicas não transmissíveis em pessoas vivendo com HIV/aids”, realizada nesta sexta-feira (28), durante o Congresso Paulista de Infectologia.

As apresentações foram conduzidas pela Dra. Gisele Cristina Gosuen, médica infectologista do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo (CRT-SP); pela Dra. Roberta Schiavon Nogueira, médica infectologista da Casa da Pesquisa do CRT-SP; e pelo Dr. Ayrton Santos Silveira, médico infectologista, pós-graduando e preceptor da residência médica em Infectologia da Escola Paulista de Medicina da Unifesp.

As exposições abordaram três dimensões aparentemente distintas — síndrome metabólica e medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, transição menopáusica e transplantes —, mas chegaram à mesma conclusão: controlar o vírus é indispensável, porém já não é suficiente para garantir o cuidado integral.

Obesidade e síndrome metabólica exigem atenção precoce

Ao abrir o debate, a Dra. Gisele afirmou que o aumento da longevidade das pessoas vivendo com HIV veio acompanhado de uma presença maior de doenças crônicas não transmissíveis.

O risco metabólico, explicou, resulta de uma combinação de fatores. Entre eles estão a inflamação persistente relacionada à infecção crônica, o envelhecimento, o acúmulo de gordura visceral, a resistência à insulina, características individuais e os possíveis efeitos metabólicos de determinados esquemas antirretrovirais.

“Se a gente não procura, muitas vezes não vê. E, se esperar o paciente apresentar algum efeito clínico, talvez seja um pouco tarde para tomar alguma providência”, alertou.

A gordura visceral não representa apenas uma reserva de energia. Metabolicamente ativa, ela participa da produção de substâncias inflamatórias, favorece a resistência à insulina e pode ampliar o risco de diabetes, doença cardiovascular e comprometimento renal. Em pessoas vivendo com HIV, esse processo se soma a uma ativação inflamatória basal que pode persistir mesmo quando a carga viral está indetectável.

A Dra. Gisele ressaltou que isso não diminui a importância da terapia antirretroviral. Ao contrário: o tratamento continua sendo decisivo para preservar a vida e impedir a progressão do HIV. O desafio é monitorar e manejar os fatores metabólicos sem comprometer a supressão viral.

GLP-1: entusiasmo acompanhado de cautela

A infectologista também analisou os agonistas do receptor de GLP-1, classe de medicamentos que ganhou enorme visibilidade com substâncias como semaglutida e liraglutida. Popularizados pelo uso contra obesidade e diabetes, eles imitam a ação de um hormônio produzido no intestino após a alimentação.

Esses medicamentos ajudam a aumentar a saciedade, reduzir o apetite, retardar o esvaziamento gástrico, estimular a secreção de insulina de maneira dependente da glicose e diminuir a produção hepática de glicose. Os benefícios podem incluir perda de peso, redução da gordura visceral e melhora da glicemia e da sensibilidade à insulina.

Nas pessoas vivendo com HIV, afirmou a Dra. Gisele, a classe desperta interesse justamente por atuar sobre problemas que se tornaram frequentes com o envelhecimento: obesidade, resistência à insulina, diabetes e aumento do risco cardiovascular.

Mas o entusiasmo não deve apagar as limitações do conhecimento disponível. Embora os resultados sejam promissores, os estudos específicos com pessoas vivendo com HIV ainda são pequenos e insuficientes para responder a todas as questões sobre efeitos anti-inflamatórios, benefícios de longo prazo e manutenção dos resultados.

“Tem estudo com 25 pessoas. Fica difícil transportar para a prática clínica uma evidência científica ainda tão pequena. Mas acho que é uma questão de tempo”, ponderou.

A médica lembrou ainda que náuseas, vômitos, diarreia e alterações intestinais estão entre os efeitos adversos possíveis e que a resposta varia conforme o medicamento, a dose e as condições individuais. A interrupção do tratamento também pode ser seguida por recuperação do peso e perda de parte dos benefícios metabólicos, sobretudo quando a medicação não é acompanhada de mudanças sustentáveis no estilo de vida.

A mensagem, portanto, não foi a de apresentar os agonistas de GLP-1 como solução isolada, mas como uma ferramenta potencial dentro de um cuidado contínuo, individualizado e baseado em evidências.

Mulheres com HIV podem chegar mais cedo à menopausa

A invisibilidade dos sintomas relacionados à transição menopáusica foi o centro da apresentação da Dra. Roberta. Logo no início, ela propôs uma mudança de linguagem: em lugar de tratar o climatério como um “período crítico”, o cuidado deve compreender a transição menopáusica como uma fase da vida que pode e deve ser acompanhada.

Menopausa é o nome dado, retrospectivamente, ao período após 12 meses consecutivos sem menstruação. A transição que a antecede, porém, pode começar anos antes e envolver dezenas de manifestações físicas, emocionais, cognitivas, metabólicas e geniturinárias.

Segundo a Dra. Roberta, as mulheres vivendo com HIV tendem a chegar à menopausa cerca de três anos antes das mulheres sem HIV — aproximadamente aos 48 anos, diante de uma média de 51 anos na população geral. Quanto mais precoce esse processo, maior pode ser a exposição a problemas cardiovasculares, ósseos e metabólicos.

“Para cada ano a menos na idade da menopausa, o risco aumenta em 3%. Então, temos que olhar para essa mulher realmente com muito carinho”, afirmou.

Um dos principais problemas é a atribuição incorreta dos sintomas. Ondas de calor, alterações do sono, perda de concentração, mudanças de humor, dores, ansiedade, sintomas geniturinários e queda da qualidade de vida podem ser confundidos com efeitos do HIV, dos antirretrovirais, do envelhecimento ou de dificuldades emocionais. O resultado é o atraso do diagnóstico e do cuidado.

“A gente, às vezes por desconhecimento, negligencia as queixas e acha que elas se misturam com sintomas do próprio HIV. A própria mulher pode não perceber que aquilo está relacionado à transição menopáusica”, explicou.

A Dra. Roberta citou um estudo realizado com profissionais de clínicas especializadas no atendimento de mulheres vivendo com HIV no qual 40% disseram não se sentir seguros para avaliar e tratar esses sintomas. O dado expõe uma lacuna dentro de serviços teoricamente preparados para acompanhar essa população.

“A dor é real”

A médica pediu que os profissionais comecem a conversar sobre a transição menopáusica com todas as mulheres vivendo com HIV a partir dos 40 anos. Escalas simples, preenchidas ainda na sala de espera, podem ajudar a reconhecer sintomas somáticos, psicológicos e geniturinários e acompanhar sua evolução.

Ela também chamou atenção para os sintomas vasomotores, como ondas de calor e suores noturnos. Além de interferirem no trabalho, nas relações, no autocuidado e na vida social, essas manifestações podem estar associadas a maior risco cardiovascular.

O sono aparece como outra dimensão decisiva. Sua deterioração pode ampliar o risco de depressão, ansiedade, doença cardiovascular e dificuldades de adesão ao tratamento antirretroviral.

“Não achem que a mulher é mal-amada ou está revoltada com a vida. A dor é real”, enfatizou a Dra. Roberta.

A terapia hormonal, afirmou, precisa ser discutida sem preconceitos e avaliada individualmente, considerando sintomas, idade, tempo desde a menopausa, contraindicações e possíveis interações medicamentosas. Quando indicada dentro da chamada janela de oportunidade — em geral, antes dos 60 anos e nos primeiros dez anos após a menopausa —, pode produzir benefícios importantes.

Para mulheres vivendo com HIV, a via transdérmica, por adesivo ou gel, pode ser uma alternativa particularmente adequada em determinadas situações por evitar a primeira passagem do medicamento pelo fígado. A indicação, contudo, depende de avaliação médica individual; não se trata de uma recomendação automática para todas as mulheres.

“Como mensagem final, o cuidado vai muito além da supressão viral. Perguntem sobre os sintomas a partir dos 40 anos, usem alguma escala e conversem sobre a transição menopáusica antes que ela aconteça”, recomendou.

HIV deixou de ser barreira absoluta ao transplante

O Dr. Ayrton encerrou a mesa mostrando como a evolução do tratamento também modificou o acesso das pessoas vivendo com HIV aos transplantes.

Nos primeiros anos da epidemia, quando não havia controle adequado da infecção, o HIV era frequentemente tratado como uma contraindicação absoluta. Com a terapia antirretroviral e a melhora do prognóstico, estudos passaram a demonstrar que pessoas selecionadas, com acompanhamento adequado, podem alcançar resultados comparáveis aos da população sem HIV em determinados tipos de transplante.

O transplante renal concentra a maior parte das evidências. Entre os critérios considerados estão supressão viral, estabilidade do esquema antirretroviral, contagem adequada de CD4, ausência de infecção oportunista ativa e avaliação das condições clínicas de cada pessoa.

A rejeição do órgão continua sendo uma preocupação importante, assim como as interações entre antirretrovirais e imunossupressores. Por isso, o acompanhamento exige integração entre infectologistas, equipes transplantadoras, farmacêuticos e outros profissionais.

“Os antirretrovirais podem interagir com diversas outras medicações, e esse é um cuidado que precisamos ter”, explicou o Dr. Ayrton.

Avanços como os inibidores de integrase e os antivirais de ação direta contra a hepatite C tornaram o manejo mais seguro, especialmente nos transplantes hepáticos. Para transplantes de coração e pulmão, os resultados também são considerados promissores, embora ainda existam menos evidências.

Pessoas com HIV também podem ser doadoras

Uma das mudanças mais simbólicas abordadas pelo Dr. Ayrton foi a possibilidade de utilizar órgãos de pessoas vivendo com HIV em receptores que também têm o vírus.

Nos Estados Unidos, essa possibilidade foi aberta pela legislação conhecida como HOPE Act. Um estudo multicêntrico divulgado pelo National Institutes of Health (NIH) em 2024 indicou que transplantes renais entre doadores e receptores vivendo com HIV apresentaram segurança comparável à dos procedimentos nos quais pessoas com HIV receberam rins de doadores sem o vírus.

Ainda existem questões que precisam de acompanhamento, como a possibilidade teórica de transmissão de outra variante do HIV, a resistência aos antirretrovirais, oscilações da carga viral e o manejo da imunossupressão. Mesmo assim, os resultados ampliaram uma fronteira antes considerada praticamente inacessível.

Para o Dr. Ayrton, essa possibilidade também deve ser entendida sob a perspectiva da equidade. Permitir que pessoas com HIV sejam doadoras pode ampliar o número de órgãos disponíveis e reduzir a pressão sobre as filas.

“A parte mais importante é a equidade que conseguimos oferecer com essa ferramenta. Poder disponibilizar órgãos de pessoas vivendo com HIV amplia as possibilidades e pode reduzir o tempo de espera na lista”, afirmou.

Uma nova agenda para o cuidado

Síndrome metabólica, transição menopáusica e transplantes não são temas periféricos na resposta ao HIV. Eles são consequência direta de uma das maiores conquistas da medicina contemporânea: pessoas vivendo com o vírus passaram a viver mais.

Essa longevidade, entretanto, precisa ser acompanhada por serviços preparados para reconhecer novos riscos, escutar sintomas frequentemente negligenciados e articular diferentes especialidades.

A mesa deixou um recado comum: carga viral indetectável é uma conquista decisiva, mas não pode ser o ponto final do cuidado. Para que viver mais também signifique viver melhor, será necessário enxergar a pessoa inteira — seu metabolismo, seus hormônios, sua saúde mental, seus órgãos e seus projetos de vida.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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