
Muitas vozes têm quebrado barreiras e desafiado os limites impostos por uma sociedade que, historicamente, exclui, nega oportunidades e paralisa os sonhos de pessoas trans e travestis. Entre essas vozes, destaca-se Gabriela Augusto, um exemplo de superação, coragem e liderança. Com uma trajetória marcada por desafios e conquistas, ela vem se consolidando como uma jovem liderança.
Gabriela é advogada, palestrante e fundadora da consultoria em diversidade e inclusão Transcendemos. Atualmente, também integra o conselho executivo do CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola), entidade sem fins lucrativos que há seis décadas apoia a inserção de jovens no mercado de trabalho. Nessa função, contribui com estratégias de governança e decisões executivas.
Em alusão ao Dia Nacional da Visibilidade Trans, comemorado sempre em 29 de janeiro, Gabriela conversou com a Agência Aids sobre diversidade, inclusão, o combate ao preconceito e o futuro das maiorias minorizadas diante das desigualdades, ataques aos direitos humanos e novas demandas sociais. Durante o bate-papo, também compartilhou sua trajetória, motivações e expectativas para o futuro.

Mulher negra e trans, ela carrega com orgulho a potência de ser quem é, sem se limitar a rótulos identitários ou expectativas sociais impostas. Para Gabriela, o céu é o limite – e é por isso que vem construindo pontes em busca de um futuro onde todas as pessoas, especialmente pessoas trans e travestis, tenham a liberdade de sonhar e realizar.
História de vida, memória e carreira
Criada em uma família afetuosa e cercada de amor, Gabriela sempre teve uma base sólida de apoio. No entanto, isso não a isentou de enfrentar o preconceito ao longo do caminho.
Com o tempo, descobriu sua paixão pelas questões de ESG, diversidade e inclusão, especialmente no mundo corporativo. Segundo ela, esse envolvimento aconteceu de forma bastante orgânica.
Seu primeiro contato mais próximo com a pauta dos direitos humanos ocorreu durante a faculdade de Direito na PUC São Paulo. Para Gabriela, contar sua história significa, necessariamente, falar sobre o poder transformador da educação.
“Eu venho de uma família simples. Minha mãe estudou até a quarta série e meu pai só terminou o ensino médio. Eu cheguei a uma boa universidade graças às ações afirmativas. Me formei com bolsa integral, porque, sem isso, não teria como pagar uma faculdade. Sempre estudei em escolas públicas. Foi no curso de Direito que me conectei com a questão dos direitos humanos. Também participei de alguns coletivos universitários, o que me ajudou a desenvolver mais essa minha paixão por diversidade e inclusão”, contou.
A luta contra o preconceito
Já perto de concluir a graduação, Gabriela iniciou sua transição de gênero, um processo desafiador, mas que também lhe trouxe grande força.
“Eu já conhecia o racismo, o peso de outras opressões, mas foi a partir da minha transição de gênero que passei a conhecer a LGBTfobia de perto […]. Isso me motivou a fazer algo para que outras pessoas não passassem pelo que eu estava passando”, compartilhou.
Em 2017, Gabriela lançou o Manual Empresa de Respeito, que começou a distribuir voluntariamente de porta em porta nas empresas. O material, com dicas práticas sobre igualdade de gênero e respeito às diferenças, despertou interesse entre empresários e resultou em sua primeira contratação para treinar funcionários de uma hamburgueria.
Pouco depois, uma jornalista conheceu seu trabalho e escreveu sobre ele, aumentando ainda mais sua visibilidade. Grandes empresas começaram a procurá-la para treinamentos, o que a motivou a fundar a Transcendemos, empresa especializada em consultoria de diversidade e inclusão. Desde então, Gabriela tem ganhado reconhecimento no setor, realizando palestras e recebendo diversos prêmios.
Representação e representatividade

“Hoje eu estou ocupando lugares que pessoas como eu sequer sabiam que existiam”, destacou.
“A marginalização que enfrentamos como pessoas trans e negras nos coloca em uma situação extrema vulnerabilidade. Muitas vezes, não sabemos o que sonhar, porque nossos horizontes são limitados. Até mesmo as palavras e os conceitos com os quais lidamos criam barreiras. Eu nunca tive muito, e minha família também não. As referências que eu tinha sobre o que é sucesso e como alcançar uma posição de liderança eram totalmente outras. Foi difícil para mim entender, por exemplo, que eu poderia chegar a ajudar uma empresa com 50 mil funcionários. Quando pensava em prestar serviço para uma empresa, imaginava algo com 20 pessoas, não 20 mil.”
Mais do que continuar conquistando espaços, Gabriela quer abrir caminhos para outras pessoas. Seu compromisso com a equidade influencia diretamente suas decisões dentro das empresas, mas ela lamenta que muitas vezes sua voz seja desconsiderada.
“Minha narrativa acaba, por muitos, sendo desvalorizada ou invisibilizada, sendo apenas vista como um discurso ideológico. Além disso, preciso me esforçar muito mais para mostrar que sei falar sobre negócios, sobre carreira, estratégias empresariais, etc. Sou reduzida à imagem de uma mulher trans e negra. Até quando sou mais polida, ainda assim muitas pessoas se fecham ao me ver, me enxergando apenas como uma militante […].”
“Já fui rejeitada por empresas que disseram diretamente a mim que preferiam trazer um homem branco gay para falar sobre diversidade para suas lideranças. Eu tenho uma abordagem muito educativa, então com isso entendi que não era sobre o meu discurso, mas sobre meu corpo, sobre minha imagem, sobre quem eu sou.”
Essas dificuldades impactam sua saúde mental, tornando o equilíbrio entre trabalho e autocuidado um desafio constante.
“Ser uma pessoa trans é lidar com muita muita violência todos os dias. Muitas coisas que eu ouço machucam profundamente”, afirmou.
Conquistas

Seu trabalho e dedicação já lhe renderam inúmeros reconhecimentos, incluindo uma capa na Forbes. Ao comentar sobre sua nomeação na Forbes 30 Under 30, como uma das personalidades mais influentes do país, Gabriela reflete sobre a importância desse espaço e também sobre os desafios que ele representa.
“Acredito que estar nesses lugares também é importante. Aparecer na Forbes, por exemplo, me abriu outras portas e validou meu trabalho. Esse reconhecimento me levou a ocupar mais lugares, como o CIEE.”
O futuro dos direitos humanos
Diante das crescentes ameaças da desinformação e dos discursos de ódio, tanto no Brasil quanto no mundo, Gabriela alerta para a urgência da mobilização da sociedade civil na defesa da paz e dos direitos humanos, que seguem sendo constantemente violados. Para ela, cabe aos líderes transformar o discurso de inclusão em ações concretas.
“Não podemos mais nos acomodar ou retroceder. Pode ser que a gente tenha perdido algumas batalhas específicas, mas a luta continua. A luta não acabou e somos maioria. Estamos defendendo igualdade de oportunidades, não estamos pedindo favores. O que queremos é respeito e dignidade, nem mais nem menos.”
Ela também reforça que a diversidade não é apenas uma questão ética ou social, mas um fator estratégico para o sucesso das empresas.

“A diversidade gera mais produtividade, inovação, criatividade e também lucro. Se uma empresa não se importa com isso, ela pode sofrer as consequências, como aconteceu com algumas grandes empresas que conhecemos aqui no Brasil que tiveram que pagar milhões em multas além de sofrer um grande prejuízo de imagem.”
Brasil no protagonismo
Gabriela também se posiciona contra o novo governo Trump, em resposta às recentes declarações e ao fim das políticas afirmativas nos Estados Unidos.
“O Brasil tem a chance de se tornar protagonista em direitos humanos. Nós temos plena capacidade de mostrar ao mundo que a diversidade e a inclusão são essenciais. Pessoas negras e de outros grupos sub-representados estão cada vez mais conscientes de seus direitos, e isso não vai retroceder.”
Por fim, Gabriela reforça que, para avançar, a reação precisa ser coletiva. “Se queremos avançar, precisamos reagir de forma coletiva”, finalizou.
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
E-mail: gabriela@transcendemos.com.br
Instagram: @gabriela.aug
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