
29 de janeiro é o Dia da Visibilidade Trans, uma data para homenagear a força e a resistência de pessoas transexuais e travestis. Neste contexto, apresentamos a história da paraibana Paola Alves de Souza, mestre em história, pesquisadora, educadora comunitária na Casa da Pesquisa do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo e doutoranda em psicologia. Paola compartilha sua trajetória marcada por descobertas, superações e conquistas, desde a infância até a sua atuação como mulher trans na academia.
“Quem é Paola?” Essa foi a pergunta inicial da entrevista. Com um sorriso reflexivo, ela respondeu: “Essa pergunta é profunda. São tantas histórias, tantas vivências que formam quem eu sou.”
Nascida em Campina Grande, na Paraíba, em uma família numerosa com cinco irmãs, Paola teve sua infância marcada por sentimentos de não pertencimento. A falta de letramento sobre identidade de gênero dificultava que ela e sua família nomeassem o que vivia. “Minha mãe sempre soube que eu era diferente, mas dizia: ‘Só tem um caminho: estudar.’ Meu pai, por outro lado, me tratava com indiferença. Na escola, sofri muito bullying, e meu desejo de ser menina era evidente, mas reprimido. Vivi uma infância solitária.”
Um despertar doloroso: o início da transição
Aos 20 anos, já no mestrado em História, Paola começou a enfrentar a verdade que tanto evitara. Durante uma aula sobre teoria de gênero, sua professora, Chiara, fez uma observação que a abalou profundamente: “Você entende que não é um homem, que você é uma mulher?” Essas palavras ecoaram em Paola, que, inicialmente, reagiu com raiva. “Aquilo mexeu muito comigo porque tocou em algo que eu evitava admitir.”
A reflexão foi ampliada por uma conversa com seu sobrinho, Bener, que a encorajou a enxergar sua identidade: “Ele me disse: ‘Só você que não vê.’ Isso me marcou profundamente.”
Ainda no mestrado, em uma pesquisa de campo na cidade de São Paulo, Paola começou a observar outras mulheres trans e travestis nas ruas, especialmente na região da Avenida São João. Ela conta que essa experiência trouxe sentimentos contraditórios: um misto de identificação e medo. “Eu tinha medo desse lugar de vulnerabilidade social associado às mulheres trans. Era como se aceitar a transição significasse aceitar um futuro de exclusão, miséria ou marginalização.”
Mesmo temendo as consequências, Paola começou sua transição hormonal de forma autodidata. “Comprei uma injeção na farmácia, e meu sobrinho aplicou. Eu me informava apenas pelas redes sociais, não tinha noção da importância do acompanhamento profissional neste processo.”
Mulher trans
O mestrado foi um período crucial de transformação. Foi ali que Paola começou a se identificar como mulher trans, passou a usar roupas femininas e a refletir sobre os desafios de sua trajetória.
“Eu tinha que lutar contra preconceitos externos e internos. Foi quando eu parei de fugir e comecei a me orgulhar de quem eu era. Lembro que eu amava o Pinóquio quando criança. Hoje, percebo que me identificava com a ideia de me transformar em ‘uma pessoa de verdade’. Era como se eu precisasse atravessar um arco-íris para me tornar quem eu realmente era.”
Apesar das dificuldades, Paola se manteve firme ao ouvir a reação negativa de sua mãe. Respondeu com convicção: “Eu sou uma mulher. Não tenho útero, mas sou uma mulher.”
O apoio das irmãs foi essencial. “Minha irmã Sueli foi como uma segunda mãe para mim. Foram elas que me deram alguma base para seguir em frente.”
Ao perceber a relação insustentável com a mãe, no final do mestrado, Paola decidiu romper com sua família de origem e deixou a Paraíba para recomeçar a vida em São Paulo. Ao chegar à capital paulista, contou com o apoio de uma amiga de infância, mas a convivência logo revelou a fragilidade das relações em um contexto marcado pela transfobia.
Reconstrução, acolhimento e redes de apoio
Cheia de sonhos, o rompimento com sua família marcou o início de uma nova etapa, mas também trouxe dificuldades. Na capital, enfrentou empregos precarizados e a dura realidade de ser rejeitada mesmo com sua qualificação. Foi no Centro de Referência da Diversidade que encontrou acolhimento: “As políticas públicas mudam vidas. Foi ali que minha trajetória começou a mudar.”
Na Umbanda, ela também foi acolhida e encontrou uma nova família. Silvia, uma mulher negra que enfrentava exclusões, acolheu Paola em sua casa. Juntas, criaram uma relação de apoio mútuo: “Eu cuidava do filho dela, ela me ajudava a sobreviver.”

Anos depois, Paola resolveu começar o doutorado e decidiu deixar a casa da amiga para se dedicar aos estudos. Fortalecida, ela não apenas encontrou a força para se reconectar consigo mesma, como conheceu Juscelino, seu grande amor, e construiu uma nova família cheia de cumplicidade. Hoje vive uma relação marcada por respeito e companheirismo. Juntos, criaram um lar acolhedor, compartilhado com seus amados pets, que são seus filhos. “Eles são minha terapia, minha alegria. Quando tudo parece difícil, o amor deles me lembra que vale a pena seguir em frente.”

Transformação profissional e impacto social
Em 2015, indicada pelo CRD, Paola ingressou no Programa Transcidadania, que, a partir da educação, promove a inclusão de pessoas trans. Lá, encontrou seu lugar como educadora. “Eu fazia supervisão pedagógica e ajudava a inserir pessoas trans em escolas e programas educacionais. Era doloroso ver o impacto do preconceito na vida dessas pessoas.”
A relação entre a população trans e a epidemia de HIV também foi um ponto central em sua trajetória. Durante seu trabalho no Transcidadania, ela percebeu que muitas pessoas trans atendidas pelo programa enfrentavam diagnósticos de HIV positivo. “A questão do HIV estava profundamente atravessada em nossas ações. Não há como falar sobre a população trans sem falar sobre o HIV. É uma realidade que atinge uma parcela significativa da nossa comunidade e expõe as desigualdades de acesso à saúde e à prevenção”, explica.
Emocionada, Paola lembrou de um caso onde uma participante do programa deixou de frequentar as atividades ao descobrir que vivia com HIV. “Ela desapareceu, e eu fui atrás para entender o que havia acontecido. Quando ela me contou sobre o diagnóstico, vi o quanto o preconceito e o estigma ainda afastam as pessoas do cuidado e do acolhimento. Foi ali que eu compreendi a profundidade do problema”, relembra.
O Transcidadania marcou sua carreira e sua visão sobre o papel das políticas públicas. “Essas políticas não deveriam ser partidárias, mas de Estado.”
A voz trans na academia e na sociedade

No campo da saúde e da pesquisa científica, Paola é um exemplo claro de como a visibilidade trans pode transformar não apenas trajetórias pessoais, mas também realidades coletivas. Com uma carreira que começou de maneira quase intuitiva, ela percebeu rapidamente que seu lugar de fala e sua vivência seriam ferramentas poderosas para criar mudanças em espaços historicamente excludentes.
Hoje, como doutoranda em Psicologia pela USP, ela continua transformando realidades ao unir vivências pessoais à pesquisa acadêmica. Sua participação como pesquisadora em estudos voltados para pessoas trans, como o Divas, liderado pela professora Maria Amélia Veras, da Santa Casa, e o Mosaico, na Casa da Pesquisa, abriu caminhos para novas iniciativas.
“Consegui recrutar muitas meninas trans e travestis. Aqui (no CRT) virou um festival de pessoas trans em alto nível de vulnerabilidade. Transformamos o espaço de trabalho em um lugar afetivo. Essa afetividade cria vínculos e dá sentido ao trabalho. Até hoje eu tento acolher as meninas no pajubá (dialeto criado pela comunidade trans para se comunicar entre si), dentro da realidade delas. Não é possível impor regras rígidas, mas também precisamos criar um ambiente seguro e respeitoso. Esse equilíbrio é essencial para o sucesso dos estudos com pessoas trans.”

Seu trabalho na Educação Comunitária do CRT já rendeu o reconhecimento da sociedade civil com o Prêmio José Araújo Lima Filho de Ativismo e Direitos Humanos, na categoria Pesquisa.
Corpo trans
Mesmo com conquistas, ela reflete sobre os desafios: “O corpo trans é um outdoor político. Antes de ser vista como acadêmica, sou vista como trans. É um marcador que não consigo desvencilhar, mas que muitas vezes apaga outras partes de quem eu sou.”
Ela continua: “Eu posso ter chegado até aqui, mas, mesmo que mais sofisticadas, enfrento violências. É um apagamento epistemológico. O meu saber muitas vezes não é validado, é descredibilizado. Tudo o que eu digo acaba sendo enquadrado como militância, quando, na verdade, eu também falo do lugar de uma acadêmica, de quem passou pelo mesmo crivo que qualquer outro pesquisador”, relata.
Sonhos, resistência e esperança
Neste Dia da Visibilidade Trans, Paola sonha com um Brasil mais inclusivo, onde pessoas trans tenham acesso à educação e oportunidades. “Nada sobre nós, sem nós. A mudança começa aí.” Ela acredita que a educação é a chave para transformar realidades: “Sem afeto e apoio, a gente vai fundo no poço.”

Ela acredita que o combate à transfobia estrutural deve ser uma luta contínua. “Sonho com um mundo onde sejamos menos impedidas, menos diminuídas. Onde possamos existir sem tantas interferências. É um sonho coletivo, mas sabemos que ainda há muito a ser feito… Quero terminar meu doutorado, passar em um concurso público e ser professora universitária. Quero poder ensinar sobre gênero, letramento de identidade de gênero e trazer para a academia debates que não estão nos currículos, mas que são fundamentais para formar cidadãos mais conscientes e menos preconceituosos”, afirma.
Questionada sobre as mudanças desde a sua transição, ela foi direta: “O que mudou de 20 anos pra cá foi essa rede de afeto que eu construí. Ser trans, pesquisadora e estar em espaços que antes me eram negados é algo extraordinário. Hoje, meu maior desejo é que outras pessoas trans tenham acesso a oportunidades e acolhimento que transformem suas vidas, assim como aconteceu comigo.”
Sua relação com a família, embora desafiadora no passado, também foi se reconstruindo ao longo dos anos. “Hoje, a minha relação com a minha mãe é boa. Ela me respeita como Paola, e isso para mim é fundamental”, diz com um sorriso de gratidão. Seu pai morreu, e suas irmãs são presentes.
A história de Paola é um retrato das múltiplas camadas de exclusão enfrentadas por pessoas trans, mas também é um lembrete de que redes de apoio, educação e políticas inclusivas podem transformar vidas. Ela é um símbolo de força e esperança, uma inspiração para a visibilidade e os direitos das pessoas trans.
“Olho para trás e vejo uma história difícil, mas cheia de aprendizado. Cada passo foi essencial para que eu me tornasse a mulher que sou hoje.”
Paola finaliza com um recado às pessoas trans que enfrentam desafios semelhantes: “Não desistam de quem vocês são. Há um futuro possível, mesmo que, às vezes, ele pareça distante.”
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Paola Alves de Souza
Instagram:paola.alves.souza



