
Suzy Caginks, aos 43 anos, é uma profissional da beleza que se apresenta ao mundo como mulher preta e trans. Do Belém do Pará, ela mudou-se para São Paulo na década de 1990 em busca de uma vida melhor. Suzy guarda lembranças felizes de sua infância, apesar de vir de uma família religiosa e das dificuldades impostas pela sociedade conservadora da época. Em alusão ao Dia da Visibilidade Trans, comemorado sempre em 29 de janeiro, a Agência Aids traz histórias de pessoas trans, que com muita garra e força de viver, vem contrariando as estatísticas.

‘‘Vim para São Paulo em busca de ser alguém. Me entendi uma mulher trans aos 12 anos, sempre fui bem feminina’’, conta Suzy sobre sua jornada de identidade e autoconhecimento.
Segundo Suzy, sua filosofia de vida é o amor, a empatia e o respeito. No seu salão de beleza, garante uma atmosfera inclusiva para quem passa por lá, onde seus clientes de diferentes idades se sentem à vontade e o respeito compartilhado é mútuo. ‘‘Tenho clientes de 14 anos, alguns clientes trazem os netos para cortar o cabelo comigo […] no dia a dia sempre converso sobre respeito e empatia’’, afirma a profissional.

Essa solidariedade e empatia se estendem ao voluntariado. Para além da sua atuação profissional no mundo da beleza, sempre que pode Suzi se envolve em atividades de voluntariado e ativismo no Instituto Vida Nova, uma ONG da Zona Leste de São Paulo que há muitos anos luta em prol de qualidade de vida para as pessoas vivendo e convivendo com HIV/aids.
Na contramão das estatísticas

‘‘Aos 12 anos, quando me entendi trans, achava que meu destino seria a prostituição ou que não viveria muito’’, ela revela.
‘‘Hoje, já vemos muitas pessoas trans e travestis chegarem aos 40, 50, 60 anos, até mesmo 70, envelhecendo com dignidade’’, celebra Suzy, que aposta na educação como chave para abrir portas que antes estavam fechadas pela ignorância e preconceito.
Ela menciona o projeto Transcidadania como exemplo de iniciativa que auxilia jovens trans e travestis a alcançarem seus sonhos e objetivos.
O projeto Transcidadania é um programa que nasceu em São Paulo para ajudar pessoas trans e travestis, oferecendo a elas suporte para que possam estudar e arrumar emprego, com apoio educacional, profissional e psicossocial. O programa também foca em promover ações de conscientização e combate à discriminação.
‘‘Travesti não é só sexo e morte. Já passei dos 40, e muitas vão passar também, eu acredito! Pois estão se educando e procurando melhorar de vida.’’
Envelhecimento
Apesar das melhorias, a belenense reconhece que a sociedade ainda é bastante preconceituosa. ‘‘Chegar aos 43 anos de vida saudável para mim é uma vitória, só o fato de estar viva sendo negra e trans, é sim um ato de resistência.’’
‘’Todo dia, acordo, tomo um banho, tomo meu café, faço minha higiene pessoal e minha oração, pedindo a Deus que me dê forças e agradeço por mais uma oportunidade de estar viva.’’
Saúde mental
Ao abordar a questão da saúde mental, Suzy destaca a importância de olhar para as pessoas trans que ultrapassaram a casa dos 30/40 anos, chamando atenção para a Operação Tarântula e a necessidade de lembrar sempre daqueles que vieram antes.
Incentivando o autocuidado, destaca a disponibilidade do SUS, mas ressalta as deficiências no sistema de saúde público brasileiro. ‘’Ainda não estamos em um lugar legal!’’
Ela alerta para a transfobia perpetuada, inclusive, por alguns profissionais de saúde, o que afasta as pessoas dos cuidados necessários. Diante disso, a entrevistada aposta em mobilização e participação social constante, o ano todo.
‘‘O que eu deixo como incentivo para outras pessoas trans e travestis é: ‘Os nossos corpos são aceitos na medida que a gente se aceita’. E o que eu desejo sempre é muita dignidade e amor’’, conclui, deixando uma mensagem de esperança e empoderamento.
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Suzy Caginks
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