Visibilidade Trans: Em roda de conversa no CRT, especialistas e ativistas afirmam que a transfobia tem afastado travestis e transexuais dos serviços de saúde

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Pessoas trans e cisgêneras se reuniram nessa segunda-feira (29), no Centro de Referência e Treinamento de DST/Aids de São Paulo, para uma roda de conversa em alusão ao Dia da Visibilidade Trans. Com a participação de ativistas, profissionais de saúde, representantes de organizações não governamentais e membros da comunidade trans, os participantes debateram sobre o que consideram fundamental para a implementação de políticas públicas que garantam a qualidade de vida da população trans brasileira. 

Questões que vão desde o acesso a serviços de saúde adequados até os desafios enfrentados no cotidiano foram abordadas no debate. Durante a roda, foram destacadas as barreiras enfrentadas pela população trans no sistema de saúde, incluindo a discriminação e a falta de acesso a tratamentos específicos. Além disso, quem esteve presente discutiu estratégias para promover uma saúde mais inclusiva e acessível não só no que se refere às IST/aids, mas a saúde integral e capacitação de profissionais de saúde para combater efetivamente a transfobia nos espaços de promoção à saúde. 

“Por que as meninas trans não estão chegando até as UBSs? Quando elas vão até a UBS, a primeira pergunta é: ‘você convive com o HIV?’”, questionou Alberto Silva, militante e diretor da Casa Florescer, que criticou a falta de acolhimento adequado e sensibilidade no cuidado integral, especialmente, das meninas trans e travestis em situação de extrema vulnerabilidade social.

Alberto afirmou que o enfrentamento ao HIV deve ser sim um debate presente, pois os dados mostram uma alta prevalência do vírus nesta população, mas contrapôs que o cuidado não deve se restringir à questão do HIV/aids.

Nesse sentido, aproveitou para mencionar que é urgente direcionar atenção ao que vai além da saúde física, destacando a importância de abordar questões sociais, emocionais e estruturais – como problemas de falta de alimentação, habitação, renda e empregabilidade -, que impactam diretamente a qualidade de vida e o bem-estar da comunidade de travestis e transexuais.

Na sequência, Rihanna Rios, mulher trans, ativista, agente de prevenção e navegadora de pares, contribuiu na discussão trazendo suas perspectivas pessoas e coletivas comuns que compartilha com outras pessoas trans que enfrentam no dia a dia e na pele os impactos da discriminação.

“Eu acredito que quando [um profissional] faz uma formação e pega um diploma, ele está se formando para lidar com pessoas, com seres humanos, com vidas… e precisa ter uma ética, e essa ética tem que ser pautada no atendimento. Saber lidar, acolher, tratar, respeitar… O serviço de saúde está para atender, não para julgar!”, falou.

Ainda abordando o acolhimento nos serviços de saúde, ela afirmou: “É preciso uma assertividade, colocar corpos que representam. Não tem experiência ou conhecimento? crie ferramentas colocando uma par para conversar com outra par e resolver qualquer assunto que venha acontecer, porque quando nós pessoas trans somos agredidas fisicamente ou verbalmente, apenas uma par consegue acolher e conversar [de fato], porque só ela sabe a dor que a outra sente.”

“Houve um caso em que a camisinha estourou e precisei de PEP e fui questionada sobre a frequência do uso da profilaxia. Eu respondi que se eu precisar ir [ao serviço] dez vezes, eu vou às dez vezes.”

A ativista destacou que este é um direito, mas que muitas pessoas, por não conhecê-lo ou subestimá-lo, deixam de reivindicá-lo. “Uma travesti que possivelmente não tem escolaridade alta não vai atrás.” Segundo ela, este é mais um problema que revela a transfobia estrutural do Brasil.

“Por várias vezes eu fui excluída pelo âmbito trabalhista, pelo âmbito profissional, da saúde […] um psicólogo já me perguntou: ‘como que eu te atendo?’ […] Respondi: ‘se você não sabe lidar com uma pessoa, você não sabe lidar com ninguém. Aqui, esquece a mulher, esquece o gênero, pensa em como atender uma pessoa, uma vida; e aí você vai entender o seguimento desta vida. O que ela tem, se sofre de algum transtorno mental, se essa vida sofreu algum tipo de ameaça, quem sabe dentro de sua própria casa…”

Comunicação e acesso à informação

Talita Martins, jornalista e coordenadora editorial da Agência Aids, falou sobre a importância da comunicação na luta contra a transfobia e a favor dos direitos humanos. Ela compartilhou que  esta Agência, por exemplo,  tem levado discussões sobre HIV/aids e saúde para pessoas que geralmente não acessam essas informações. “Não podemos falar de nós para nós mesmos, a nossa pauta precisa ser sempre de interesse público.”.

Segundo a comunicadora, é possível humanizar as pautas, inclusive da comunidade trans, contando histórias, compartilhando vivências e experiências, com uma abordagem mais sensível e respeitosa na cobertura jornalística.

“Nesse ano, nosso especial mês da visibilidade trans focou nas meninas que estão contrariando as estatísticas, com mais de 35 anos, [que é a expectativa média de uma pessoa trans no Brasil]. Elas não morreram, elas estão aí, elas estão produzindo, elas são artistas, são cabeleireiras… e nós estamos contando estas histórias […] é isso que a gente tenta fazer, trazer uma pauta mais humana, tanto falando de HIV, quanto dos direitos humanos”, comentou.

Criminalização e punição

Adriana Silva, diretora na APOGBLT SP (ONG responsável pela maior Parada LGBT do mundo: a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo), defendeu que todo e qualquer ato discriminatório contra pessoas trans deve ser devidamente penalizado no rigor da lei.

“A gente tem que processar, tem que ser assim. Quando veem uma pessoa trans e desrespeitam o nome social, fazem de propósito”, exemplificou.

A diretora adjunta do CRT DST/Aids de SP, dra. Rosa Alencar, destacou que “embora a gente tenha aí ao longo dos anos uma série de parcerias e avanços, com intersetorialidade, ainda temos grandes desafios, e um dos grandes desafios que temos aqui no CRT é o de estabelecer uma parceria mais consistente com a área de desenvolvimento social, pois muitas pessoas ainda sofrem dificuldade de acesso, principalmente as populações mais vulnerabilizadas.”

“Temos trabalhado nesse sentido de ampliar as estratégias de educação de forma permanente e sistematizada, mas também precisamos sempre olhar para a questão do componente social e avançar para que a gente transforme o espaço de saúde em um ambiente mais acolhedor, onde o julgamento e o despreparo dos profissionais seja equacionado e se torne um espaço de pertencimento.”

Ivone de Paula, gerente da área de prevenção do CRT, complementou: “A gente continua rodando e caindo nas mesmas questões: falta de acolhimento, preconceito… ano após ano abordamos as mesmas coisas, mas temos que avançar.”

Transfobia e capacitismo

Já Allan Bastos, do Grupo Pela Vidda SP, provocou: “A gente trabalha com a diversidade até que ponto?”. Ele questionou a falta de debate e acessibilidade dentro da própria comunidade trans ao se tratar de pessoas com deficiência.

Um exemplo citado foi a ausência de intérpretes de libras para pessoas trans surdas e mudas nos serviços de saúde públicos e privados.

“Dentro da população trans, a gente fala, por exemplo, da população preta trans que é muito grande, mas e da população trans PCD? Não temos pauta nenhuma.” 

População trans em situação de rua

Ele continuou: “Essas pessoas estão sobrevivendo nas ruas […] chove em São Paulo, a enchente leva tudo delas, no dia seguinte correm para o CRD pedindo por uma roupa, um lanche… mas os antirretrovirais questionam o porquê querem pegar de novo, sendo que a chuva levou tudo, a roupa, o remédio, o documento… a polícia constantemente leva embora o medicamento das pessoas vivendo com HIV que estão nas ruas, no minhocão, debaixo do viaduto… Estamos discutindo as mesmas pautas, sendo que temos estas questões impostas também”, criticou.

Infâncias trans

A fonoaudióloga Maíra Caricari, que atende no ambulatório transdisciplinar do Hospital das Clínicas de SP, dedicado a crianças e adolescentes trans, destacou que precisamos falar sobre as ISTs com crianças e adolescentes transexuais, com apoio da área da educação. “A parceria com a educação a gente precisa ter para falar disso e falar de infâncias trans desde cedo.”

“A militância do coletivo de mães [pela diversidade] usa uma frase que a gente se apropria: ‘as pessoas trans não nascem aos 18 anos’; então, a educação precisa estar preparada para falar sobre equidade de gênero”, finalizou.

Na ocasião, a epidemiologista e professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP), Maria Amélia Veras, frisou: “Temos discutido as mesmas pautas”, mas destacou: “[na FCMSCSP] temos seguido na linha de pesquisa, tentando nos unir todos numa mesma linguagem para avançar [nas questões] da população trans, no Brasil.”

Também marcaram presença, representantes da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, eles mencionaram que a pasta está à disposição para fiscalizar e contribuir com medidas reparadoras e de prevenção à violência contra as pessoas trans. “É importante que quando vocês souberem xxxx, orientem que formalizem via sistema de acesso à informação, ouvidoria ou no próprio login do aluno que todos os estudantes da rede estadual podem entrar, têm um espaço na SEDE (Secretaria Escolar Digital) de fale conosco e ele (a) pode colocar ali [sua queixa]. Isso ajuda e é importante para que a escola faça atividades de prevenção.”

“Pensando em nome social, tivemos nos últimos ano um crescimento no número de estudantes no Estado de São Paulo com nome social na rede. Em 2019 tínhamos cerca de 500 alunos e até dezembro do ano passado, tínhamos registrado 3.399. É um salto gigantesco, isso é muito significativo!”.

O evento chegou ao fim com a proposta do grupo de reunir pelo menos a cada quatro meses para debater avanços e desafios e continuar pensando em uma política pública que dê conta de atender as necessidades de pessoas transexuais e travestis. 

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

CRT DST/Aids de SP

Tel.: 50879911

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