A estratégia de distribuir PrEP e PEP por meio de máquinas instaladas em quatro estações no metrô de São Paulo foi alvo de críticas da vereadora Janaína Paschoal (Progressistas) na rede social X (antigo Twitter), onde associou a distribuição gratuita de PrEP ao incentivo de “sexo sem camisinha” e a uma suposta “explosão de sífilis”.

Conheça a trajetória da Vereadora Janaína Paschoal

Advogada e professora de Direito Penal na USP (Universidade de São Paulo), a vereadora Janaina Paschoal (PP) traz para seu primeiro mandato na Câmara Municipal de São Paulo a defesa pela fiscalização da utilização do dinheiro público, segurança pública, saúde, educação e proteção de crianças e adolescentes.
Eleita com 48.893 votos, a expectativa da parlamentar é trazer para o mandato na capital paulista a experiência adquirida como deputada estadual pelo Partido Progressista (PP). Foi a deputada estadual mais votada em todo o Brasil.
Médicos elogiam máquinas que auxiliam a quebrar barreira de prevenção
Infectologistas ouvidos por esta Agência destacam que a PrEP, distribuída em máquinas no metrô de São Paulo, é parte essencial da prevenção combinada, responsável pela queda nos casos de HIV e pela ampliação do acesso entre os jovens. A implementação das máquinas de distribuição dos insumos de prevenção é uma iniciativa pioneira da cidade de São Paulo que tem recebido elogios e aprovação dos principais especialistas brasileiros que dedicam-se ao tema.
Os dados mostram que a implementação da PrEP tem tido bons resultados.
As máquinas já registraram quase 5 mil retiradas em pouco mais de um ano, segundo a Secretaria Municipal da Saúde (SMS). A iniciativa, considerada vanguarda na América Latina, ampliou o acesso à prevenção contra o HIV especialmente entre os jovens, que representam quase metade dos usuários.
Em São Paulo, a implementação da PrEP contribuiu para uma redução de 54,7% nos novos casos entre 2016 e 2024 (Secretaria Municipal de Saúde de SP) e, em 2018, foi registrada a maior queda histórica, de 11,7% em apenas um ano (Brazilian Journal of Sexually Transmitted Diseases).
As quatro máquinas automáticas que oferecem PrEP,também PEP e autotestes, estão localizadas nas seguintes estações: Luz e Vila Sônia — ambas na Linha 4‑Amarela —, Tucuruvi, na Linha 1‑Azul, e Consolação, na Linha 2‑Verde. Além disso, nesses pontos também há distribuição gratuita de camisinhas internas e externas, ampliando as opções de prevenção disponíveis para a população.
A opinião de infectologistas que trabalham cotidianamente com o HIV
Os infectologistas consultados pela Agência Aids disseram que a declaração que a vereadora publicou na rede social não tem respaldo cientifico.
Para o Dr. Ricardo Vasconcelos ( Rico), pesquisador do Hospital das Clínicas da USP, a implementação das máquinas foi fundamental para alcançar o público jovem:
“A relevância é gigantesca, porque é justamente entre os mais novos, com menos de 29 anos de idade, que, no Brasil, nos últimos dez anos, se viu a taxa de detecção de novos casos aumentar. Então, é ali que está faltando prevenção. Então, a relevância é total. Isso é muito importante e pode mudar o curso dessa tendência de crescimento entre os mais jovens dos casos de HIV.”
Sobre a crítica de que a PrEP estimularia relações sem preservativo, Vasconcelos respondeu de forma categórica:
“Eu entendo o ponto de vista da vereadora porque é a visão de uma pessoa que não compreende a profundidade do tema e faz a critica baseada em preconceito. Aquele conhecimento antigo que dizia que sexo seguro é o sexo com camisinha. Ela pode acabar por minar uma estratégia que funciona, que dá certo. Enquanto a gente só tinha camisinha, os casos de HIV no Brasil e no mundo aumentaram de forma explosiva. Então, a camisinha não é suficiente. É preciso PrEP, PEP, testagem e tratamento para fazer os novos casos de HIV não aconteçam.”
A PrEP faz parte da “Mandala da Prevenção”, um modelo visual criado e divulgado pelo Ministério da Saúde que representa graficamente diversas ferramentas e estratégias disponíveis atualmente para a prevenção do HIV e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis. Nesse sentido, a Profilaxia é vista como parte da solução do problema que são as infecções pelo HIV.
Dr. Ricardo também rebateu a associação entre PrEP e sífilis. “Os casos novos de sífilis começaram a aumentar lá na virada do século, muito antes da chegada da PrEP. Então não dá para atribuir à PrEP esse aumento dos casos. Inclusive, quem trabalha com isso acredita que é exatamente o oposto, porque a PrEP, apesar de não proteger contra sífilis, tem um acompanhamento de saúde que permite que as pessoas façam rastreamento periódico, diagnosticando precocemente os casos incidentes e dando a oportunidade de tratamento dessa infecção, com a cura e a quebra da transmissão para outras pessoas.”
Diminuição de infecções na capital paulista
“A partir de 2017 e 2018, que é quando começa a ter PrEP em São Paulo, acompanhamos a diminuição de novos de HIV. Então, se deixássemos de oferecer PrEP e PEP de uma hora para outra e voltassemos a incentivar apenas o uso de camisinha, os casos novos de HIV voltariam a aumentar Considero o comentário da vereadora grandessíssimo equívoco.”
Outro infectologista, o doutor Marcos Vinícius Borges, conhecido como Doutor Maravilha, também rebateu as declarações da vereadora. Ele lembrou que o estigma ainda é um real obstáculo no acesso à prevenção:
“Já tive pacientes que tiveram medo de usar PrEP por ser associada ao ‘grupo de risco’, como se isso existisse. As pessoas ainda acham que PrEP está associada à promiscuidade, isto é um equívoco”.
Dr. Vinicius lembrou que, embora a PrEP esteja disponível no SUS, o acesso não é igualitário
“Os principais desafios são as questões de combate à desigualdade social, com serviços mais acolhedores e democráticos. A PrEP existe desde 2017, mas ainda não chega as camadas menos favorecidas. Então ter as máquinas no metrô ajuda muito a romperas barreiras de prevenção, porque mostra que a prevenção pode e deve acontecer de maneira cotidiana. Isso é disponibilizar o acesso a prevenção em todos os lugares, para todas as pessoas.”
E finaliza. “A camisinha continua tendo um papel muito importante, mas precisa ser associada a outros métodos de prevenção. A escolha de usar camisinha não acontece por parte de todas as pessoas, a decisão não é 100%. Se a camisinha resolvesse sozinha toda essa problemática, já teria resolvido. Então é preciso investir em PrEP, investir no controle do HIV, em menos mortes por AIDS e trazer equidade para essas camadas da população.”
Com base em dados e experiências clínicas, os especialistas reforçam que a PrEP é parte de uma estratégia reconhecida internacionalmente para frear a pandemia de HIV. Em vez de “gasto desnecessário”, o investimento representa menos casos, menos mortes e mais justiça social.
Secretaria de Saúde esclarece que mais de 5 milhões de preservativos são distribuídos mensalmente na cidade
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Agência Aids quis saber qual a média de preservativos que São Paulo disponibiliza mensalmente. Através de nota a pasta de saúde respondeu. “ Secretaria Municipal da Saúde (SMS), por meio da Coordenadoria de IST/Aids, informa que a cidade de São Paulo dispõe de políticas públicas de prevenção ao HIV e a outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), estruturadas em estratégias que asseguram o amplo acesso à Prevenção Combinada.
Além da distribuição nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e na Rede Municipal Especializada (RME) em IST/Aids, entre janeiro de 2024 e julho de 2025, foram distribuídos mais de 82 milhões de preservativos externos e internos em mais de 100 pontos de grande circulação, como estações de metrô e terminais de ônibus, onde dispositivos garantem acesso facilitado e gratuito a esses insumos, representando uma média de 5 milhões de unidades por mês.
Especialistas saudaram a chegada das máquinas no Metrô da maior metrópole da América Latina

Dra. Vadiléa Veloso, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/INI-Fiocruz:
“É fantástico o trabalho de Cidadania da Coordenadoria de Aids, como atendimento muito diversa as necessidades diferentes das populações vulnerabilizadas. Eu estou bastante impressionada com a estrutura, com a dedicação da equipe, com o entusiasmo e com a efetividade das ações. É impressionante a redução do número de novas infecções. São Paulo está bem próximo de chegar na eliminação do HIV como problema de saúde pública. E nós viemos aqui para conhecer a experiência, conhecer o trabalho e entender como nós podemos aprender com essa equipe fantástica e, na medida do possível, implementar algumas dessas inovações lá no Rio de Janeiro. A máquina é a cerveja do bolo, essa tecnologia realmente pode fazer a diferença para as pessoas que precisam de PEP e PrEP, isso combinado com o atendimento online.”
Dra. Beatriz Grinsztejn, presidente do International Aids Society (IAS):

“Conhecer as ações espetaculares que estão sendo desenvolvidas pela Secretaria de Saúde aqui de São Paulo na prevenção do HIV. Uma diversidade de ações multifacetadas que tem causado um impacto sistêmico, com uma redução importante do número de novas infecções pelo HIV. É absolutamente sensacional ver a máquina de distribuição de PrEP e PEP. É absolutamente emocionante estar aqui na estação de prevenção Jorge Beloqui, com uma ação tão incrível quanto essa estação que está promovendo saúde sexual aqui no centro de São Paulo.”
Dr. Fábio Mesquita, médico epidemiologista e ex-diretor do Departamento de Aids do Ministério da Saúde, Secretário de Saúde do Guarujá:
“Nunca tinha visto uma máquina como essa no mundo, eu fiquei completamente encantado. E olha que eu tenho viajado o mundo todo, tenho muitos contatos pelo Brasil adentro. Eu até comentei com a Cristina e com os colegas que estão trabalhando com a máquina o quanto fiquei encantado. Eu acho que a gente está trabalhando muito hoje para a questão de garantir acesso, de trazer as pessoas de diversas formas. A forma eletrônica é uma forma bastante importante. A gente vê no Ministério da Saúde hoje um esforço que está concentrado num foco muito importante, que é o desenvolvimento da tecnologia. A cidade de São Paulo, de novo, dando um exemplo extraordinário. Eu espero que todo mundo se encante com essa ideia, que a gente possa expandir para o País e para vários outros lugares do mundo. Esse equipamento que vai garantir que mais gente possa acessar PEP e PrEP que hoje são tão fundamentais na prevenção do HIV, na prevenção combinada.”

Harley Nascimento, fundador e coordenador geral do Fundo Positivo:
“Celebramos este ano 12 anos do Fundo Poshitivo, sempre lançando editais no campo da prevenção combinada.Ter em São Paulo uma máquina que disponibiliza PrEP e PEP sem dúvida nenhuma é um instrumento extremamente importante de acesso à prevenção para a população.”

Eduardo Barbosa, coordenador do Movimento Paulistano de Luta contra a Aids, do Grupo Pela Vidda SP e gerente do CRD Bruna Valim:
“Essa é uma novidade boa. Eu acho que a ampliação da PrEP e da PEP têm que acontecer de maneira bastante efetiva. O município de São Paulo tem sido inovador nesse aspecto. Lá no CRD, Centro de Referência e Defesa da Diversidade, a gente está com a primeira experiência de oferecimento da PrEP e PEP numa ONG, em parceria com o município. Ter a máquina espalhada por toda a cidade vai ser mais uma oportunidade de fazer as coisas chegarem onde as pessoas estão. Ter a PrEP, PEP lá no CRD é dar oportunidade. Ter uma máquina dessa em estação de metrô, de trem, é importante porque as pessoas vão ter praticidade para ter acesso a essa medicação.”

Marta Mc Britton, presidente do Instituto Cultural Barong:
“Eu percebi, quando me deparei com a máquina, que realmente o município de São Paulo pode zerar a transmissão do HIV nessa cidade. É a ideia de você ter uma máquina que facilite tanto o acesso, é que você vai conversar sobre sexualidade em todos os cantos da cidade. É emoção acreditar na possibilidade de um novo futuro e estar de verde e amarelo, graças à Madonna, porque foi ela que nos devolveu o verde e amarelo, é ainda mais brilhante. Eu acompanho o trabalho da Coordenadoria há muitos anos e sei a garra, a luta que é para essas conquistas e a gente só tem que se organizar. Hoje, eu não moro mais em São Paulo e eu vejo o abismo que existe do município de São Paulo com as outras cidades do Brasil. Eu espero que as outras cidades, os outros coordenadores de aids, os outros secretários de saúde, assistam, percebam o que é esta mudança. Parabéns, município de São Paulo. Parabéns, Coordenadoria Municipal de Aids. E parabéns, Roseli Tardelli, por esse Camarote brilhante que vai trazer muita saúde e alimento para várias pessoas do Brasil.”

Américo Nunes, ativista e presidente do Instituto Vida Nova:
“É uma novidade, é a ponta, é a questão de quebrar barreiras de acesso de uma maneira moderna e prática. A pessoa passa pela teleconsulta, retira a receita, chega na máquina com o QR Code e está disponível o antirretroviral e a PEP.”
Apuração de Vinicius Monteiro, estagiário. Edição de Talita Martins
Dicas de entrevista
Janaina Paschoal (Gabinete)
Telefone: (011) 3396 – 4233
Dr. Ricardo Vasconcelos
Instagram: ricovasconcelos
Dr. Marcos Vinicius Borges
Instagram: doutormaravilha
Dra. Valdiléia Veloso e Dra. Beatriz Grinsztejn (Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas/INI-Fiocruz)
Telefone: (21) 3865-9595
Dr. Fábio Mesquita (Secretaria de Saúde do Guarujá)
Telefone: (13) 3308-7470
Harley Nascimento (Fundo Positivo)
Site: fundopositivo.org.br
Eduardo Barbosa (CRD Brunna Valin)
Telefone: (11) 3151-5786
Marta Mc Britton (Barong)
E-mail: contato@barong.org.br
Américo Nunes (IVN)
Telefone: (11) 2297-1516



