Evento reuniu menos empresas apoiadoras em comparação aos outros anos e foi marcado por críticas a bolsonaristas feitas por parlamentares de esquerda
Com slogan político e presença das cores do Brasil, a 30ª Parada do Orgulho LGBT+ reuniu ontem 36,8 mil pessoas na Avenida Paulista, em São Paulo — público menor do que nos anos anteriores. O evento se deu num contexto de redução drástica de patrocínios, o que afetou o número de trios elétricos. A organização escolheu a importância do voto e a defesa dos direitos da comunidade como tema central da edição. Outro componente político envolveu a tentativa de vereadores de atrapalhar a festa.
Entre as atrações de ontem, destacaram-se artistas como Pabllo Vittar, Gloria Groove e Melody, além de parlamentares de esquerda. O mote da Parada era “A rua convoca, a urna confirma”. Atípica, a presença das cores da bandeira nacional, com direito a diversas camisetas da seleção brasileira, foi um dos marcos da Parada. Mais por motivo político-eleitoral do que pela proximidade da Copa do Mundo, frisaram os participantes.
“Hoje podemos colocar a bandeira do Brasil na nossa causa, símbolo que por muito tempo foi apropriado pela extrema direita”, disse a assistente social Silvia Maria de Lima, de 58 anos, que trabalha em uma ONG voltada para o atendimento de pessoas portadoras de HIV.
Redução de apoios
A Associação da Parada do Orgulho LGBT, ONG responsável pela organização e atualmente presidida por Nelson Matias Pereira, calcula que, na comparação com o ano passado, a saída de grandes empresas que patrocinavam o evento provocou uma queda de 60% na receita. Em 2025, eram 12 marcas. Agora, foram apenas três: a patrocinadora oficial, Amstel, o Grupo L’Oréal no Brasil como copatrocinador e a Philip Morris Brasil como apoiadora.
Esse encolhimento ocorre num contexto de retração global de investimentos corporativos em diversidade e inclusão. Como efeito, o número de trios elétricos passou de 19 para 14. O cenário contrasta com o período imediatamente posterior à pandemia, quando houve um expressivo crescimento do interesse empresarial.
“Estamos vendo uma falta de patrocínios nos trios. E para mim isso está muito relacionado a esse clima conservador que estamos vendo na sociedade. Este ano precisamos defender o voto consciente para a comunidade LGBT, defender que todos temos os mesmos direitos”, afirmou a psicóloga Andrea Domanico, de 60 anos.
Na Câmara Municipal da capital paulista, em maio, um projeto de lei aprovado em primeira votação, e que ainda tramita, tenta proibir a presença de crianças e adolescentes em eventos públicos e privados que façam “alusão ou fomentem práticas LGBT+”. O texto tenta ainda impor uma classificação indicativa para maiores de 18 anos e multas em caso de descumprimento, além de impedir a interdição de vias públicas para realização de eventos como a Parada.
Presença da esquerda
Ontem, ao mencionar a proposta apoiada por bolsonaristas, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) fez o público vaiar o projeto de lei. Outras deputadas federais que subiram ao palco para discursar foram Erika Hilton (PSOL-SP), que aproveitou o espaço para defender o fim da escala 6×1, e Daiana Santos (PCdoB-SP). Também falaram os deputados estaduais Eduardo Suplicy (PT) e Guilherme Cortez (PSOL), além de vereadores de São Paulo e de outras cidades, como Monica Benicio (PSOL), do Rio.
“Este ano é um ano de eleição. Não votem em pessoas que querem nos matar, votem em pessoas que nos amem”, pediu a drag queen Salete Campari, que participou da organização de uma das primeiras edições do evento, em declaração que evidenciou o tom político da festa.
Segundo o Monitor do Debate Político, pesquisa feita por equipes do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), da USP e da ONG More in Common, o público estimado foi de 36,8 mil pessoas, já que o momento de maior concentração, por volta das 14h37, somava entre 32,3 mil e 41,2 mil, e a margem de erro é de 12%. Trata-se de uma queda na comparação com os anos anteriores. Em 2025, a estimativa de pico de público foi de cerca de 48,7 mil pessoas; em 2024, eram 73,6 mil presentes.




