
Aos 65 anos, o paulistano Luis Baron é presença marcante na Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo de 2025, cujo tema “O Envelhecer LGBT+” joga luz sobre um assunto ainda pouco debatido. Gay, vivendo com HIV e militante histórico, ele carrega em si memórias, dores, afetos e uma potência de vida que desafia os preconceitos ainda impostos à população idosa.
“Chegar aos 65 anos não é nenhum dano, é um privilégio. Eu não estou falando isso de forma festiva. Eu sei a dor e a delícia de ser quem eu sou.”
Desde jovem, sua vida foi marcada por silêncios, solidão e a ausência de referências. Ele cresceu nos anos 1970, quando ser LGBT+ significava, muitas vezes, viver às margens da sociedade.
“Quando comecei a entender quem eu era, aos 14 ou 15 anos, foi um momento de solidão. Eu não entendia por que as pessoas achavam errado algo que eu achava tão bonito”, lembra.
Hoje, ele se emociona ao ver que jovens LGBT+ encontram figuras como ele para olhar e se apoiar:
“Naquela época, eu não via um homem gay adulto, vivendo bem, dizendo: ‘isso vai passar, vai ficar tudo bem’. Hoje, isso mudou.”

O rosto da velhice, o peso do preconceito
Para Luis, o preconceito contra pessoas idosas é cruel, evidente, e atravessa até mesmo os espaços onde ele deveria se sentir acolhido.
“A velhice está na cara. É evidente, escancarada. As pessoas olham pra você e passam a não ouvir mais o que você tem pra dizer.”
Por isso, o tema da Parada deste ano toca num ponto sensível. Ele o define como urgente, provocador e necessário.
“A quem interessa essas velhices? Quem se interessa por um velho gay, por uma velha lésbica, por uma travesti idosa? A nós interessa.”
HIV, tesão, afeto
Luis vive com o HIV há 38 anos. Enfrentou estigma, medo, discriminação — mas hoje observa que, em muitos espaços, a soropositividade pesa menos do que a velhice.
“Na época que eu me descobri \[HIV positivo], foi muito complicado. Mas hoje a sociedade aprendeu a lidar um pouco mais com isso. Já a velhice é outra coisa. Ela é visível, está no rosto, no corpo. As pessoas veem você como velho, e isso basta para te descartarem.”
A fala não busca minimizar os efeitos da sorofobia. Pelo contrário: escancara como o etarismo está tão normalizado que muitas vezes passa despercebido, mesmo entre pessoas que se dizem progressistas.
Mas Luis também fala de prazer. De desejo. De amor. Ele insiste em lembrar que envelhecer não é o fim da potência de existir.
“Eu sou um homem que tem 65 anos, mas tenho um filho de 20, tenho minha mãe, tenho meus amigos, meus afetos. Tenho tesão, gosto de namorar, beijo na boca. Igual a qualquer pessoa.”
Entre afetos e políticas públicas
Luis também critica a ausência de políticas públicas permanentes para pessoas LGBT+ idosas no Brasil.
“Como política de Estado, nós não temos garantias. Temos direitos assegurados por decisões judiciais, mas isso é diferente de uma política que está na lei, que é permanente, que não depende do governo da vez.”
Ele reconhece esforços de secretarias municipais e estaduais, mas aponta os limites:
“São secretarias com verbas muito restritas. E pra desenvolver uma política pública, é preciso articulação, parlamentares engajados, orçamento. Não é só boa vontade.”
Por fim, Luis acredita que ainda há um longo caminho a ser percorrido, mas o orgulho de resistir, de envelhecer com dignidade, de seguir sendo quem é, permanece.
“A gente precisa parar de tratar a velhice como fim, como limitação. Ela também é possibilidade.”



