Vale a pena adoecer por política? Escreve Stephanie Itala Rizk para O Globo

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Encerrar uma conversa ou deixar de seguir um perfil não significa fugir do debate. Às vezes significa escolher o que merece ocupar espaço dentro de você

À medida que as eleições se aproximam, cresce também uma espécie de febre coletiva. Famílias discutem, amigos deixam de se falar, grupos de WhatsApp viram arenas e desconhecidos passam horas tentando convencer outros desconhecidos de que estão errados. O problema é que, enquanto a raiva parece apontada para fora, parte dela acontece dentro de quem sente.

A medicina não mede “ódio” com facilidade. Estuda raiva, hostilidade e ruminação, aquele hábito de continuar uma discussão sozinho muito depois de ela ter terminado. E a ciência já mostrou que essas emoções não ficam apenas na cabeça.

Episódios intensos de raiva estão associados a aumento transitório do risco de infarto, arritmias e outros eventos cardiovasculares nas horas seguintes. Em uma metanálise, pessoas com níveis elevados de raiva e hostilidade apresentaram risco 19% maior de desenvolver doença coronariana. Entre quem já tinha doença cardíaca, o risco de novos eventos foi 24% maior.

Outro estudo mostrou algo ainda mais curioso: bastaram oito minutos relembrando uma situação que provocava raiva para prejudicar temporariamente o funcionamento dos vasos sanguíneos.

Basta lembrar do próprio corpo durante uma discussão: o coração acelera, o rosto esquenta, a respiração muda, os músculos ficam tensos. O organismo interpreta conflito como ameaça. Só que a ameaça pode nem existir mais. A discussão terminou. A outra pessoa foi jantar, assistir a uma série ou dormir. Mas você continua reconstruindo a conversa na cabeça, imaginando o que deveria ter respondido, relendo a mensagem, esperando a próxima provocação. Seu adversário saiu da discussão. Seu corpo, não.

As redes sociais tornaram isso ainda mais fácil. Há sempre uma nova frase capaz de nos irritar, uma nova indignação disponível, alguém dizendo exatamente aquilo que vai nos deixar com raiva. E conteúdos que provocam emoções fortes prendem nossa atenção. A indignação nos mantém olhando, clicando e voltando.

O problema não é sentir raiva. Ela é humana e muitas vezes legítima. Pode surgir diante de injustiça, violência ou de algo que ameaça aquilo em que acreditamos. O problema começa quando deixa de ser passageira e vira um modo de viver.

A hostilidade persistente está associada a maior risco cardiovascular e costuma vir acompanhada de hábitos que também prejudicam a saúde: dormir pior, alimentar-se pior, exercitar-se menos, beber mais ou abandonar cuidados médicos. Corpo e comportamento se misturam.

O estresse psicológico crônico também interfere no sistema imunológico e favorece inflamação persistente.

Existe uma maneira simples de começar a interromper esse ciclo: criar um intervalo entre a raiva e a resposta. Antes de responder àquela mensagem que fez seu coração acelerar, pare. Respire devagar algumas vezes. Levante. Caminhe. Deixe o celular de lado por alguns minutos. A ideia não é engolir a raiva, mas evitar que ela assuma o comando.

Também vale fazer uma pergunta simples: isso ainda vai importar amanhã?

Nem toda provocação merece resposta. Nem toda discussão precisa ser vencida. Encerrar uma conversa ou deixar de seguir um perfil não significa fugir do debate. Às vezes significa escolher o que merece continuar ocupando espaço dentro de você.

Se a raiva for frequente, desproporcional ou estiver prejudicando relações, sono, trabalho ou saúde, procurar ajuda profissional também faz parte do cuidado.

Talvez, a questão não seja apenas em quem votar, mas quanto da nossa saúde estamos dispostos a entregar a pessoas que pensam diferente de nós. Preservar a saúde também pode ser aprender a escolher quais brigas merecem entrar no nosso corpo.

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