Levantamento da doença de 1990 a 2023 mostra crescimento de 40% de casos e 12% de mortes no período de 2019 a 2023; Brasil teve recertificação de eliminação da doença em 2024, mas casos em SP preocupam
De 2020 a 2023, a cobertura vacinal de crianças de até cinco anos contra o sarampo em todo o mundo caiu, o que provocou um aumento na incidência de casos e mortes pela doença, segundo pesquisa.
A análise publicada pelo Global Burden of Diseases (Carga Global da Doença), estudo epidemiológico mais abrangente no mundo, mostra que a incidência de sarampo em crianças de até cinco anos no mundo caiu de 52,2 milhões de casos, em 1990, para 11,1 milhões, em 2019 (ou uma redução de aproximadamente 79%). Porém, o número saltou para 15,6 milhões em 2023, um aumento de 40%.
Em relação à mortalidade, em 1990 a taxa era de 148 mortes por cem mil crianças de até 5 anos e chegou a 15,3 mortes a cada cem mil em 2019 —registrando uma redução histórica de 90%. O sarampo, então a quarta causa de morte em crianças dessa faixa etária, passou ao 7º lugar, no final de 2019.
Já em 2023, o número voltou a subir, chegando a 18,4 mortes por cem mil, um aumento de 20%. No período que compreende os anos de 2020 a 2023, o sarampo foi a sexta causa de morte em crianças com menos de cinco anos, com 118 mil mortes registradas (eram 105 mil em 2019).
O estudo foi publicado na última quarta-feira (21) na revista especializada Nature Medicine.
Dentre as regiões analisadas que mais registraram aumento da incidência de casos e mortes por sarampo entre 2019 e 2023 estão a África Subsaariana (+57,3% de casos e +13,5% de mortes), o Sudeste Asiático (aumento de 39,5% de casos e 27,2% de mortes) e o Norte da África (subida de 37,4% no número de casos e 54% no de mortes).
A cobertura da vacina contra o sarampo, cujo esquema vacinal inclui duas doses —uma aos doze meses de idade e um reforço aos 15 meses— aumentou progressivamente de 1990 a 2019, mas o crescimento estagnou a partir de 2020. A cobertura da D1 (primeira dose) era de 67,2% em 1990, passando para 83,5% em 2019 e depois apresentando uma queda para 81% em 2023.
Para a D2, a cobertura vacinal passou de 14,4%, em 1990, para 68,4%, em 2019, e 71,4%, em 2023 —que os autores reconhecem ser uma pequena melhora, mas ainda ocorre em ritmo lento. Mais ainda, chamam a atenção para o número de crianças zero-dose, número de crianças que não receberam a vacina na idade indicada, que subiu de 19,3 milhões, em 2019, para 22,2 milhões em 2023.
Países de alta renda, especialmente do continente europeu, tiveram, nos últimos anos, a maior carga da doença em mais de 25 anos, com mais de 127 mil casos registrados em países como Polônia, França, Alemanha e Itália.
No estudo, os cientistas atribuem a estagnação da cobertura a diversos fatores, incluindo fragilidades do sistema de saúde, dificuldades no acesso a imunizantes e também a disruptura dos serviços de vacinação durante a pandemia da Covid.
Isso pode refletir, em parte, o desmantelamento de políticas públicas de imunização, o enfraquecimento da confiança da população em imunizantes e a dificuldade para adesão ao programa de vacinação em locais em conflito ou com outras emergências sanitárias.
Para garantir a imunidade de rebanho, a OMS (Organização Mundial da Saúde) prevê uma cobertura de 95% ou mais para as duas doses da vacina contra o sarampo em crianças de 1 a 5 anos. Estudo do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) apontou que, em todo o mundo, 48 milhões de crianças deixaram de ser vacinadas no período da pandemia.
Além disso, alguns países, como os Estados Unidos, viram um aumento substantivo do número de estados que aceitam algum tipo de licença médica para negar a obrigatoriedade da vacina, passando de 3,6% (em todo o território americano) para mais de 5% em 2023 —há hoje 17 estados onde algum tipo de desobrigação da vacina é aceito.
O caso do Brasil é particular, pois o país recebeu a certificação de eliminação do sarampo pela Opas-OMS em 2016, mas a perdeu em 2019, com aumento de casos registrados da doença. O país registrou, de 2020 a 2022, quatro das principais vacinas do calendário infantil (BCG, pólio, DTP e tetraviral) abaixo da meta. Estes indicadores começaram a crescer em 2023, primeiro ano do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e chegaram a uma cobertura preconizada em 15 dos 16 imunizantes infantis no final de 2024.
Em 2024, com a recuperação das taxas de cobertura vacinal e sem registros de casos autóctones desde 2022, o país voltou a receber a certificação de eliminação do sarampo.
Casos de sarampo registrados neste ano em São Paulo, porém, preocupam especialistas.
“O sarampo, quando a cobertura vacinal cai muito abaixo dos 95% [preconizados], é muito difícil controlar” afirma a epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine. “Uma pessoa infectada pode infectar outras 15 pessoas, por isso é importante que a gente olhe a situação com muita preocupação.”
Também em 2024, o presidente Donald Trump escolheu como seu secretário na área de saúde Robert F. Kennedy Jr., conhecido por suas posições publicamente contrárias às vacinas. Assim como o presidente Trump, ele já associou as vacinas contra sarampo ao autismo, o que não tem respaldo científico.
Os Estados Unidos estão no momento enfrentando um dos piores surtos de sarampo das últimas décadas, com 4.588 casos e cinco mortes confirmadas.
Segundo Garrett, é muito mais fácil perder a confiança nas vacinas do que recuperá-la. “Qualquer governo que enfraqueça os programas de imunização ou legitime a desinformação sobre vacinas estará aumentando o risco de surtos e colocando em perigo conquistas de saúde pública que levaram décadas para serem alcançadas.”
O mesmo tipo de campanha foi divulgada, durante o início da pandemia, pelo então presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (PL). O ex-presidente disse publicamente não confiar nas vacinas.
Um estudo do SoU_Ciência (Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência), da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), de 2023, apontou que a rejeição à vacinação entre os eleitores de Bolsonaro chega a 27,2% contra 2,2% dos que declaram apoio a Lula.
A desconfiança na vacinação está também nos discursos do candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), filho primogênito de Jair. Ele já questionou a vacinação e disse que “a vacina [da Covid-19] não foi testada como as outras sempre foram”, uma alegação falsa, já que os estudos das vacinas contra a Covid passaram por todos os ritos necessários. O candidato do PL também afirmou, durante a CPI da Covid, que “não iria tomar a vacina” por “recomendação médica”.
Em entrevistas posteriores, já cotado para a candidatura à presidência, Flávio disse que se vacinou, em uma tentativa de se distanciar de posicionamentos antivacina.



