Calendário deve considerar idade, histórico vacinal e condição imunológica; contagem de CD4 é decisiva principalmente para o uso de vacinas com vírus vivos atenuados
Manter a vacinação em dia é uma parte fundamental do cuidado de pessoas vivendo com HIV. O diagnóstico não impede que alguém seja vacinado. Ao contrário: como algumas infecções podem evoluir com maior gravidade nessa população, a imunização representa uma importante estratégia de proteção, ao lado do tratamento antirretroviral e do acompanhamento regular de saúde.
O calendário, porém, não é exatamente igual para todas as pessoas. Além das vacinas recomendadas à população geral, algumas imunizações podem exigir maior número de doses, doses dobradas, reforços mais frequentes ou avaliação específica da condição imunológica.

A infectologista Dra. Aline Carralas Leão explica que a orientação deve combinar idade, histórico de vacinação, situação clínica, contagem de células CD4 e contexto epidemiológico. Na prática, isso significa que duas pessoas vivendo com HIV, ainda que tenham a mesma idade, podem receber recomendações diferentes.
HIV não é contraindicação para a vacinação
Um dos principais mitos enfrentados nos consultórios é a ideia de que pessoas vivendo com HIV não podem tomar vacinas por apresentarem alterações no sistema imunológico. A avaliação da especialista é justamente a oposta: esse público pode precisar ainda mais da proteção proporcionada pela imunização.
Pessoas vivendo com HIV têm acesso às vacinas previstas no Calendário Nacional de Vacinação. O que muda é que algumas delas seguem esquemas específicos definidos pelo Ministério da Saúde para pessoas com condições clínicas especiais.
“Algumas vacinas vão ter esquemas diferentes, número de doses diferentes e também algumas diferenciadas”, explica Dra. Aline.
O calendário é construído a partir da combinação entre as recomendações do Programa Nacional de Imunizações (PNI) para cada faixa etária e as orientações do Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. Entram nessa avaliação o histórico vacinal, a condição clínica, a resposta ao tratamento antirretroviral e a situação imunológica.
“Não é só um calendário paralelo. É uma combinação: o calendário de acordo com a idade, pelo PNI, mais a condição do HIV, considerando situação imunológica, histórico vacinal e também a situação epidemiológica”, afirma a infectologista.
O Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais reúne recomendações específicas para crianças, adolescentes e adultos vivendo com HIV. Além das vacinas de rotina, o documento contempla imunizantes como pneumocócica, hepatite A, HPV, meningocócica ACWY e, em determinadas situações, varicela e Haemophilus influenzae tipo b.
CD4 orienta principalmente o uso de vacinas com vírus vivos
Um dos principais critérios para a definição do calendário é a contagem de células CD4, que desempenham papel central na organização das defesas do organismo. Quando o HIV não está controlado, o número dessas células pode diminuir, deixando a pessoa mais suscetível a infecções.
A carga viral também é importante, porque mostra a quantidade de HIV presente no sangue e ajuda a avaliar a resposta ao tratamento. Mas ter carga viral indetectável não é, isoladamente, o que define se uma pessoa pode ou não receber determinada vacina.
“É principalmente de acordo com o CD4 e a situação clínica. A carga viral é importante para que a pessoa esteja com a doença controlada, mas não é isso que vai determinar sozinho se a pessoa pode ou não receber uma vacina”, explica Dra. Aline.
Essa avaliação é especialmente necessária diante das vacinas produzidas com vírus vivos atenuados, como a tríplice viral — contra sarampo, caxumba e rubéola —, a vacina contra varicela e a de febre amarela. Elas não são automaticamente proibidas para todas as pessoas vivendo com HIV, mas precisam ser indicadas conforme o grau de imunodeficiência e o risco epidemiológico.
Para adolescentes com mais de 13 anos e adultos, o Manual dos Crie utiliza, na avaliação da vacina contra a febre amarela, três faixas de CD4: acima de 350 células/mm³, entre 200 e 350 e abaixo de 200. A decisão também considera o risco de exposição à doença na região onde a pessoa vive ou para onde pretende viajar.
“Vacina de vírus vivo atenuado vai precisar de um pouco mais de cuidado”, ressalta a infectologista.
Em situações de imunodeficiência grave, essas vacinas podem ser contraindicadas ou adiadas. Quando possível, a imunização pode ser postergada até que o tratamento antirretroviral proporcione recuperação imunológica. A decisão, no entanto, deve ser tomada pela equipe de saúde, e não apenas pela interpretação isolada do resultado de um exame.
Carga viral indetectável torna o cenário mais favorável
Estar em tratamento antirretroviral, com carga viral indetectável e boa recuperação do sistema imunológico, cria uma condição muito mais favorável para a vacinação. Na maioria das situações, a pessoa poderá receber as vacinas indicadas para sua faixa etária.
“Uma pessoa com tratamento antirretroviral, com carga viral indetectável, com uma boa recuperação imunológica, vai ter uma condição muito mais favorável para a vacinação. Na maioria das vezes, ela vai poder receber as mesmas vacinas que estão normalmente indicadas para a sua faixa etária”, explica Dra. Aline.
Isso não significa, porém, que o diagnóstico de HIV deixe de ser considerado. Algumas vacinas continuam exigindo esquemas diferenciados mesmo quando a carga viral está indetectável e a contagem de CD4 é adequada.
“Só a questão do indetectável não vai significar que não precisa mais considerar o HIV. A gente vai considerar, sim. Em algumas vacinas, mesmo sendo as mesmas indicadas para a população em geral, vão ter algumas peculiaridades em razão do HIV”, ressalta.
A vacina contra hepatite B é um dos principais exemplos: pessoas vivendo com HIV devem receber quatro doses, com o dobro da dose habitual. A vacina contra o HPV também mantém um esquema de três doses para esse público, independentemente da contagem de CD4.
Recém-diagnosticados não precisam esperar para começar
Receber o diagnóstico de HIV não significa que toda a vacinação deva ser adiada. A recomendação é conferir a caderneta e avaliar, o quanto antes, idade, condição clínica, CD4, carga viral, presença de infecções oportunistas e histórico de imunização.
“Não devemos esperar muito para vacinar uma pessoa porque ela acabou de receber o diagnóstico de HIV”, afirma Dra. Aline.
Se a pessoa estiver clinicamente bem e sem imunodeficiência grave, a atualização pode começar imediatamente, conforme avaliação da equipe de saúde. As vacinas que não contêm agentes vivos costumam oferecer um cenário mais simples de indicação. Já as vacinas vivas atenuadas exigem análise individualizada.
Quando há sintomas ou comprometimento importante da imunidade, pode ser necessário iniciar ou ajustar o tratamento antirretroviral e aguardar alguma recuperação antes de administrar determinadas vacinas. Essa espera não deve ser uma regra geral, mas uma decisão clínica voltada à segurança e à melhor resposta possível.
Resposta imunológica pode ser menor ou menos duradoura
O HIV pode comprometer a resposta produzida pelo organismo após a vacinação, principalmente quando a pessoa apresenta algum grau de imunodeficiência. Isso significa que a quantidade de anticorpos pode ser menor ou que a proteção pode durar menos tempo.
“Dependendo do grau de imunossupressão, essa pessoa pode produzir uma resposta imunológica menor e, às vezes, que não dure tanto, menos duradoura, após algumas vacinas”, explica Dra. Aline.
Por esse motivo, determinadas imunizações são administradas com doses maiores, número ampliado de aplicações ou intervalos específicos. Em alguns casos, também pode ser indicada uma sorologia para verificar se a pessoa desenvolveu a proteção esperada.
“Isso não quer dizer que a vacina não funciona. Significa que a gente tem que adaptar um pouco a estratégia para tentar aumentar essas chances de proteção”, reforça a infectologista.
Quais vacinas merecem atenção especial
A lista não é igual para todos, mas algumas vacinas ocupam lugar de destaque no cuidado de pessoas vivendo com HIV.
Influenza: a vacina contra a gripe deve ser administrada todos os anos. Alterações na imunidade podem elevar o risco de complicações e formas graves da doença, o que torna a vacinação anual especialmente importante.
Covid-19: a vacinação deve seguir as recomendações vigentes do PNI. O Calendário Nacional de Vacinação de 2026 prevê doses periódicas a cada seis meses para pessoas classificadas como imunocomprometidas. A equipe de saúde deve avaliar em qual grupo a pessoa se enquadra e se há doses pendentes.
Pneumocócicas: pessoas vivendo com HIV apresentam maior risco de doença pneumocócica invasiva, que pode causar quadros graves de pneumonia, meningite e infecção generalizada.
Em 2026, o Ministério da Saúde iniciou a introdução da vacina pneumocócica conjugada 20-valente, a VPC20, na rede pública e incluiu expressamente as pessoas vivendo com HIV entre os grupos com indicação. A mudança atualiza os esquemas anteriores, que utilizavam a VPC13 e a pneumocócica 23-valente.
A nota técnica de introdução da VPC20 estabelece que quem recebe a VPC20 não deve receber posteriormente a VPP23. Como o número de doses necessárias depende das vacinas pneumocócicas já aplicadas, é importante apresentar a caderneta e solicitar a conferência do histórico. A transição também pode ocorrer em momentos diferentes nos estados e municípios, conforme a disponibilidade dos imunizantes.
Hepatite B: para pessoas vivendo com HIV, o esquema indicado é de quatro doses, aplicadas nos meses 0, 1, 2 e entre 6 e 12 meses, com o dobro da dose utilizada na população geral. A estratégia busca ampliar a possibilidade de uma resposta imunológica adequada. Em algumas situações, pode ser solicitada a dosagem de anticorpos anti-HBs após a conclusão do esquema.
Hepatite A: pessoas suscetíveis, ou seja, que não tiveram a infecção e não apresentam comprovação de vacinação, devem receber duas doses, com intervalo de seis a 12 meses.
HPV: pessoas vivendo com HIV de 9 a 45 anos podem receber a vacina pelo SUS em três doses, administradas nos meses 0, 2 e 6, independentemente da contagem de CD4. Diferentemente do esquema de dose única adotado para crianças e adolescentes imunocompetentes, o esquema de três doses permanece para pessoas imunocomprometidas.
Segundo o Ministério da Saúde, pessoas vivendo com HIV podem receber a vacina contra o HPV em qualquer sala pública de vacinação, incluindo postos de saúde, Crie, Serviços de Assistência Especializada e Centros de Testagem e Aconselhamento. É necessário apresentar algum comprovante do uso da terapia antirretroviral ou uma prescrição do imunizante.
Meningocócica ACWY: para adultos vivendo com HIV, são indicadas duas doses, com intervalo de oito a 12 semanas. A revacinação deve ser realizada a cada cinco anos enquanto persistir a condição de risco.
Haemophilus influenzae tipo b: embora seja frequentemente associada ao calendário infantil, a vacina também tem indicação especial para adultos vivendo com HIV. O Manual dos Crie recomenda duas doses, com intervalo de oito a 12 semanas, independentemente da idade.
Tríplice viral, varicela e febre amarela: como são vacinas vivas atenuadas, dependem de avaliação clínica e imunológica. Não são proibidas para todas as pessoas vivendo com HIV, mas podem ser adiadas ou contraindicadas quando há imunodeficiência grave.
Herpes-zóster: a vacina recombinante adjuvada não contém vírus vivo e pode ser utilizada em pessoas imunocomprometidas. Dra. Aline lembra, porém, que ela ainda não está disponível no SUS. Em dezembro de 2025, a Conitec recomendou a não incorporação da vacina contra herpes-zóster para pessoas imunocomprometidas com 18 anos ou mais e idosos a partir de 80 anos, principalmente em razão do impacto orçamentário e da relação de custo-efetividade. Por enquanto, o imunizante permanece disponível na rede privada.
Crianças, adolescentes, adultos e idosos têm necessidades diferentes
Nas crianças vivendo com HIV, a atenção começa nos primeiros meses de vida. Além da idade, é necessário considerar se a criança foi apenas exposta ao HIV durante a gestação e o parto ou se o diagnóstico foi confirmado, além do grau de comprometimento imunológico. Algumas vacinas vivas podem exigir adaptação ou adiamento.
“Nas crianças, a gente vai ter uma atenção especial, porque o calendário começa muito cedo, e algumas vacinas precisam ser adaptadas conforme o grau de imunodeficiência”, explica Dra. Aline.
Na adolescência, a vacina contra o HPV ganha destaque, sem deixar de lado a atualização das demais imunizações. Também é importante verificar doses de meningocócica, hepatites, tríplice viral, difteria, tétano e coqueluche, entre outras.
Na vida adulta, muitas pessoas chegam aos serviços com esquemas incompletos ou sem registros. Nesses casos, a equipe deve reconstruir o histórico e avaliar quais doses precisam ser iniciadas ou completadas. O diagnóstico de HIV não exige que todos os esquemas sejam reiniciados.
Para os idosos, permanecem as recomendações próprias do envelhecimento, mas o HIV pode acrescentar indicações e modificar esquemas. A avaliação deve considerar também doenças crônicas, uso de outros medicamentos e possíveis situações de imunossupressão.
“Não existe uma única vacinação do HIV. A gente vai sempre individualizar isso de acordo com a idade e a situação imunológica”, afirma a infectologista.
Gestantes vivendo com HIV também devem ser vacinadas
Gestantes vivendo com HIV devem receber as vacinas recomendadas durante o pré-natal. A gestação e o diagnóstico de HIV precisam ser analisados em conjunto, principalmente quando houver indicação de uma vacina com vírus vivo.
De acordo com o Calendário Nacional de Vacinação para Gestantes de 2026, a vacina dTpa deve ser aplicada em cada gestação a partir da 20ª semana, independentemente de doses anteriores. Ela ajuda a proteger o bebê contra a coqueluche durante os primeiros meses de vida.
A vacina contra o vírus sincicial respiratório, responsável por grande parte dos casos de bronquiolite, é indicada a partir da 28ª semana e também deve ser aplicada em cada gestação. Influenza é recomendada em qualquer fase da gravidez, com a vacina da temporada, e a vacina contra a Covid-19 deve ser administrada uma vez em cada gestação, respeitando o intervalo previsto desde a última dose.
A hepatite B pode ser iniciada ou completada durante a gravidez quando o esquema estiver incompleto. Já as vacinas vivas, como tríplice viral e varicela, são contraindicadas durante a gestação. A febre amarela somente deve ser considerada quando não for possível evitar a exposição e após avaliação criteriosa dos riscos e benefícios.
Onde procurar as vacinas
A atualização pode começar na Unidade Básica de Saúde ou no serviço em que a pessoa realiza o acompanhamento do HIV. Dependendo do município e da vacina indicada, o atendimento também pode ocorrer em um Serviço de Assistência Especializada ou em um Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais.
É importante levar a caderneta de vacinação, quando disponível, além de documentos que ajudem a comprovar a condição clínica. Resultados recentes de CD4 e carga viral também podem ser necessários para a avaliação de vacinas vivas atenuadas.
Quem perdeu a caderneta não deve deixar de procurar o serviço. A equipe poderá consultar os registros disponíveis e orientar a reconstrução do histórico vacinal.
Mitos ainda afastam pessoas da vacinação
A ideia de que “tenho HIV e, por isso, não posso tomar vacina” é um mito. Pessoas vivendo com HIV podem e devem ser vacinadas, respeitando as particularidades clínicas de cada uma.
Também é incorreto acreditar que uma carga viral indetectável permite receber qualquer vacina sem avaliação. O controle do HIV torna a vacinação mais segura e favorece uma boa resposta, mas a contagem de CD4 e a condição clínica continuam sendo importantes, principalmente para vacinas vivas.
Da mesma forma, nem toda vacina de vírus vivo é proibida para quem vive com HIV. A indicação depende do grau de imunodeficiência, do risco de exposição à doença e da avaliação da equipe de saúde.
O tratamento antirretroviral também não substitui a imunização. São estratégias complementares: enquanto os medicamentos controlam a reprodução do HIV e preservam o sistema imunológico, as vacinas oferecem proteção específica contra diferentes doenças.
“HIV não é motivo para deixar de vacinar”
Para Dra. Aline, a principal mensagem é que pessoas vivendo com HIV não devem ter medo da vacinação. Precisam, sim, ter acesso à vacina correta, no momento adequado e com um esquema definido de forma individualizada.
“O HIV não é motivo para deixar de vacinar”, afirma.
Manter a caderneta atualizada ajuda a prevenir infecções que podem se tornar mais graves, reduzir internações e proteger a qualidade de vida. A vacinação, portanto, não é um cuidado secundário: é parte essencial do acompanhamento integral de quem vive com HIV.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
Dra. Aline Carralas Leão
@dra.alinecarralas




