Vacinação contra HPV reduz infecção mesmo entre mulheres não imunizadas, aponta estudo brasileiro – Folha de S. Paulo

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Maior pesquisa da área na América Latina indica que uma dose de vacina protege tanto quanto duas ou três
Pesquisa do Hospital Moinhos de Vento com o Ministério da Saúde mostra gargalos na cobertura entre meninos e desigualdade regional

Uma única dose da vacina contra o HPV protege tanto quanto duas ou três doses, e a imunização de parte da população já basta para reduzir a circulação do vírus entre quem nunca foi vacinado. São essas as principais conclusões de uma pesquisa brasileira, a maior já feita sobre o impacto populacional do imunizante na América Latina.

O estudo do Hospital Moinhos de Vento, em parceria com o Ministério da Saúde, comparou dados de mais de 16 mil brasileiros com idade entre 16 e 25 anos coletados em duas pesquisas nacionais —uma realizada em 2016 e 2017, logo após a introdução da vacina no SUS, e outra feita entre 2020 e 2023. O trabalho, batizado POP-Brasil, será publicado na revista científica npj Vaccines, do grupo Nature.

Entre as mulheres vacinadas, a prevalência dos tipos de HPV cobertos pela vacina caiu 81% em relação ao período anterior à vacinação (de 15,6% para 3,1%). Mas o achado que mais chama atenção é que a vacinação teve um impacto populacional.

Mesmo entre as mulheres que nunca tomaram a vacina houve queda de 33% na circulação desses tipos de HPV, um efeito indireto, de proteção coletiva, que só se sustenta onde a cobertura vacinal é alta, afirma Eliana Wendland, pesquisadora do Hospital Moinhos de Vento e autora principal do estudo.

O mecanismo é simples, diz ela. “Isso se explica pela quantidade de vírus circulante. Quando eu tenho menos vírus circulante, eu tenho menos contatos e, portanto, eu começo a diminuir as taxas de prevalência na população em geral.”

Esse efeito coletivo, porém, só apareceu entre mulheres. Nos homens, que têm cobertura vacinal bem menor no país, o fenômeno não se repetiu. Também depende da idade: a proteção coletiva é visível até os 20-21 anos, faixa com as maiores coberturas, mas desaparece nas faixas seguintes.

Um dos achados com maior potencial prático é a confirmação de que uma dose protege tanto quanto o esquema de duas ou três. “A efetividade foi a mesma”, diz Wendland. O resultado reforça a decisão do Ministério da Saúde, que migrou o esquema vacinal brasileiro para dose única em 2024.

Segundo Ana Goretti Maranhão, do Departamento do Programa Nacional de Imunizações, a mudança já vinha respaldada por evidência internacional. “Quando a OMS [Organização Mundial da Saúde] tomou essa decisão, ela já vinha acompanhando três grandes estudos de mais de dez anos, onde mostrou que a dose única tinha o mesmo impacto das outras. Esse é o primeiro que a gente tem aqui no país.”

A dose única também não depende de coberturas tão altas quanto o esquema de duas doses. Historicamente, a adesão à primeira dose sempre foi maior do que o retorno para a segunda.

A ressalva fica para grupos específicos. Pessoas com HIV, imunossuprimidos e quem já teve lesão de alto grau ou câncer de colo do útero seguem no esquema de três doses. “Quanto mais precoce a vacina, maior a eficácia. Ela diminui depois dos 18 e principalmente depois dos 26 anos”, explica Wendland.

O estudo não mediu cobertura por região, mas dados do ministério mostram um país heterogêneo. A cobertura nacional está em 86%, mas no Acre —que tem pior desempenho— cai para 43% entre meninas e 36% entre meninos. Para Ana Goretti Maranhão, o cenário é herança de uma onda de desinformação entre 2018 e 2019 da qual o estado nunca se recuperou. “A cobertura nunca voltou ao que era antes”, diz.

A desigualdade não se resume a um ranking entre estados. “Não adianta a gente ter uma média nacional ótima se, por exemplo, o Rio de Janeiro têm ainda coberturas piores que o Acre.” O ministério investe em microplanejamento com estados e municípios para corrigir bolsões de baixa cobertura mesmo em estados com média boa.

Um estudo com o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) comparou Rio Branco, capital acreana com cobertura de cerca de 52%, a Ariquemes, em Rondônia, de perfil socioeconômico semelhante, mas cobertura acima de 90%. A diferença esteve na integração com as escolas —há três anos o ministério promove campanhas de vacinação nas escolas em abril e maio.

Se entre as mulheres participantes do estudo a cobertura chegou a 61,8%, entre os homens ficou em 31,1%, reflexo de uma desigualdade histórica. A vacinação de meninas começou em 2014, a de meninos só em 2017, e as faixas etárias só foram equalizadas em 2022.

Hoje, três estados já têm cobertura acima de 90% entre meninos, mas a média nacional segue distante.

“A menina, quando entra na adolescência, a mãe já leva no ginecologista. O pai, o menino, não”, diz Maranhão. O ministério trabalha com a Sociedade Brasileira de Urologia e ONGs para reverter isso, além de manter busca ativa entre 15 e 19 anos — meta de 640 mil jovens, da qual só metade foi alcançada.

Wendland vê nesse desequilíbrio um problema de percepção a corrigir com urgência. “Ficou muito no consciente coletivo que é uma vacina para proteger o câncer de colo uterino. A gente vacina os meninos para proteger as meninas. Mas precisamos desmistificar isso. A gente vacina os meninos para proteger os meninos”, afirma.

Hoje, o câncer mais associado ao HPV entre homens é o de cabeça e pescoço, sobretudo o de orofaringe, que vem crescendo e, segundo estimativas do grupo, já é quase tão prevalente no Brasil quanto o de colo do útero.

O estudo também identificou reduções em outros tipos de HPV não incluídos na vacina, indício de proteção cruzada que reforça o benefício da imunização além dos quatro tipos-alvo originais.

Uma ressalva importante: o estudo mede prevalência de infecção, não incidência de câncer, que leva décadas para aparecer ou desaparecer nas estatísticas. “Eu preciso prevenir essa infecção para que toda a geração já chegue lá sem câncer”, resume Wendland.

Para ela, duas frentes vão determinar se o Brasil se aproxima de países como Austrália e Dinamarca, que caminham para eliminar os cânceres ligados ao HPV: reforçar a vacinação até 80% de cobertura em todos os estados e introduzir o rastreamento por HPV-DNA, capaz de reduzir a mortalidade por câncer de colo do útero mais rápido que a própria vacina.

A meta da OMS é 90% de cobertura entre meninas de até 14 anos até 2030. O Brasil já tem 11 estados nesse patamar e mantém otimismo quanto ao prazo, mas com ambição maior do que a definida pela OMS, diz Maranhão. “Nós queremos alcançar nas meninas e nos meninos também.”

Um dado chamou atenção mesmo entre as pesquisadoras: a prevalência geral de HPV, somando todos os tipos, vacinais e não vacinais, aumentou de forma discreta entre as duas pesquisas, puxada por tipos fora da cobertura da vacina e por mudanças de comportamento sexual, como o aumento da proporção de pessoas com dois ou mais parceiros no último ano.

O achado não contradiz o impacto da vacina, dizem as autoras, mas reforça que a queda nos tipos vacinais —os mais associados ao câncer— não seria explicada por uma redução geral da circulação do vírus, e sim pelo efeito específico da imunização.

Apoios