Infectologista Mario Peribañez Gonzalez destacou os avanços obtidos com a imunização, as desigualdades regionais e a necessidade de simplificar o cuidado no SUS
A hepatite B pode ser prevenida por vacina, diagnosticada por testes disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) e controlada com medicamentos capazes de reduzir o risco de cirrose e câncer de fígado. Ainda assim, milhares de brasileiros convivem com o vírus sem saber, enquanto parte das pessoas diagnosticadas permanece distante do acompanhamento e do tratamento.
Essa contradição esteve no centro da palestra “Hepatite B: da Meta de Eliminação à Cura Funcional”, apresentada pelo médico infectologista Mario Peribañez Gonzalez, do Ambulatório de Hepatites Virais do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, durante o Congresso Paulista de infectologia.
Ao percorrer dados epidemiológicos, estratégias de prevenção e perspectivas terapêuticas, o especialista mostrou que o Brasil avançou, sobretudo entre as gerações alcançadas pela vacinação. Mas deixou claro que eliminar a hepatite B como problema de saúde pública exigirá encontrar as pessoas ainda não diagnosticadas, aproximá-las dos serviços e fazer o tratamento chegar aos territórios onde faltam especialistas.
O que é a hepatite B?
A hepatite B é uma infecção causada pelo vírus HBV, que atinge o fígado. Pode se apresentar de forma aguda, pouco tempo depois da transmissão, ou tornar-se crônica e permanecer no organismo durante muitos anos.
A transmissão ocorre principalmente pelo contato com sangue e outros fluidos corporais contaminados, incluindo relações sexuais sem preservativo, compartilhamento de objetos perfurocortantes e procedimentos realizados sem esterilização adequada. O vírus também pode passar da gestante para o bebê durante a gestação ou o parto.
Muitas pessoas não apresentam sintomas. Quando surgem, podem incluir cansaço, febre, enjoo, dor abdominal, urina escura e coloração amarelada da pele e dos olhos. Sem acompanhamento, a infecção crônica pode provocar cirrose, insuficiência hepática e câncer de fígado.
Em 2024, cerca de 240 milhões de pessoas viviam com hepatite B crônica no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Vacinação transforma o perfil da epidemia
Um dos dados mais expressivos apresentados por Gonzalez foi a redução da hepatite B entre os brasileiros mais jovens. Em 2015, a taxa de detecção entre pessoas de 20 a 24 anos era de 6,6 casos por 100 mil habitantes. Em 2025, caiu para 1,8.
“A vacina já é dada há duas décadas no Brasil. Então, os jovens que estão sendo testados agora já estão, em sua grande maioria, vacinados”, explicou.
A vacina é oferecida gratuitamente pelo SUS para pessoas de todas as idades. Nos recém-nascidos, a primeira dose deve ser administrada preferencialmente ainda na maternidade, nas primeiras horas de vida. A medida é fundamental para prevenir a transmissão vertical e reduzir o risco de a infecção se tornar crônica.
O infectologista, no entanto, chamou a atenção para a queda da cobertura vacinal registrada a partir de 2020. Recuperar os índices, garantir a dose ao nascer e completar os esquemas são condições indispensáveis para sustentar os avanços.
Mais de 10 mil casos em um ano
Entre 2000 e 2025, o Brasil confirmou 315.074 casos de hepatite B. Somente em 2025, foram registrados 10.997, o equivalente a uma taxa de 5,2 por 100 mil habitantes, segundo o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais de 2026.
A distribuição está longe de ser uniforme. Em 2025, as taxas chegaram a 10 casos por 100 mil habitantes na Região Norte e a 9,2 no Sul. Acre, Rondônia e Amazonas apresentaram alguns dos índices mais elevados do país.
Os números mostram que não existe uma única realidade brasileira. O acesso ao diagnóstico, aos exames, aos especialistas e ao tratamento varia profundamente entre capitais, municípios do interior, comunidades indígenas e áreas de difícil acesso, particularmente na Amazônia Legal.
Por isso, Gonzalez destacou a possibilidade de validação subnacional: estados e municípios podem avançar em ritmos diferentes e alcançar progressivamente os indicadores necessários para a eliminação.
“Não é que a gente vá conseguir a eliminação imediatamente. Estruturar os serviços de saúde, promover o cuidado e fortalecer a prevenção são questões que precisam ser trabalhadas ao longo do tempo”, afirmou.
Diagnóstico precisa chegar antes da doença avançada
A hepatite B pode permanecer silenciosa por décadas. Em muitos casos, o diagnóstico ocorre apenas quando já existem alterações no fígado ou complicações mais graves.
Gestantes devem ser testadas durante o pré-natal. O rastreamento também precisa alcançar pessoas com maior possibilidade de exposição, habitantes de regiões com elevada prevalência, familiares e parceiros de pessoas diagnosticadas, pessoas que vivem com HIV e profissionais expostos a material biológico.
O teste está disponível no SUS. Um resultado reagente para o HBsAg — marcador que indica a presença do vírus — exige investigação complementar e vinculação a um serviço de saúde.
O desafio, portanto, não termina no teste. Entre a confirmação do diagnóstico e o início do cuidado existe um caminho que pode ser interrompido por dificuldades de deslocamento, demora nos exames, falta de especialistas e protocolos complexos.
Tratamento não pode ficar restrito às capitais
Para Gonzalez, será necessário simplificar as indicações de tratamento e ampliar a capacidade de acompanhamento na atenção primária.
“Não vamos avançar nesse intervalo se continuarmos insistindo que a hepatite B só deve ser tratada por especialistas”, alertou.
A concentração de infectologistas e hepatologistas nos grandes centros impõe uma barreira concreta. Em regiões extensas, uma pessoa pode precisar viajar durante horas ou dias para consultar um especialista, realizar exames ou obter a indicação do medicamento.
A descentralização não significa dispensar o atendimento especializado nos casos mais complexos. Significa capacitar a rede básica para diagnosticar, acompanhar e iniciar o cuidado quando indicado.
O tratamento disponível atualmente consegue suprimir a multiplicação do vírus, reduzir a inflamação do fígado e diminuir o risco de cirrose e câncer. Em muitos casos, porém, o uso dos medicamentos precisa ser prolongado.
O que significa cura funcional?
Diferentemente da hepatite C, cujo vírus pode ser eliminado com os medicamentos atuais, o HBV mantém material genético dentro das células do fígado. Essa característica torna muito mais difícil alcançar uma cura completa.
A chamada cura funcional ocorre quando o organismo mantém o vírus sob controle de forma duradoura, com perda do HBsAg e ausência de replicação viral clinicamente relevante, mesmo depois da suspensão do tratamento. Pequenos reservatórios podem permanecer nas células, mas sem provocar atividade significativa da infecção.
Alcançar esse resultado em um número expressivo de pacientes é um dos principais objetivos da pesquisa científica. Diferentes estratégias estão sendo estudadas para atacar etapas do ciclo viral e fortalecer a resposta imunológica.
Eliminar não significa zerar os casos
A meta internacional não pressupõe que o vírus desapareça completamente até 2030. Eliminar as hepatites virais como problema de saúde pública significa reduzir drasticamente novas infecções e mortes, além de ampliar diagnóstico e tratamento.
A estratégia da OMS prevê, em relação a 2015, redução de 90% nas novas infecções e de 65% na mortalidade associada às hepatites virais.
Na avaliação apresentada durante a palestra, o Brasil avança mais rapidamente na redução dos casos entre os jovens, impulsionada pela vacinação, do que na queda da mortalidade. As mortes refletem infecções adquiridas muitos anos antes, diagnósticos tardios e dificuldades de acesso ao cuidado.
A cura funcional aponta para um novo horizonte. Para milhares de pessoas que já vivem com hepatite B, entretanto, o desafio mais urgente é garantir que as ferramentas existentes — vacina, teste, acompanhamento e tratamento — cheguem a todos que precisam.
Redação da Agência de Notícias da Aids



