Usuários lamentam fim da atividade física para pessoas com HIV em serviços especializados da prefeitura de São Paulo

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 03/04/2014 – 20 h

A partir de junho, o programa de ginástica para pessoas vivendo com HIV em quatro Serviços de Assistência Especializada (SAEs) da prefeitura de São Paulo deixam de existir. O Programa Municipal de DST/Aids não renovou com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que o bancava. Essa é a informação que os usuários do projeto, batizado de Malhar e Viver Mais, estão recebendo de seus educadores físicos, nessa semana, ao chegarem para as aulas.

“Estou indignado, porque ninguém disse o que será feito de nós”, desabafa Luiz Neto de Almeida, 51 anos, usuário do projeto no SAE Ceci. Há ainda atendimento nos SAEs Campos Eliseos, Santo Amaro e Ipiranga. “Sou frequentador desse programa desde que ele surgiu, acho que em 2006, e já vinha de outro, que era bancado por ongs e se chamava Corpo e Mente”, continua Luiz

Bancário aposentado, Luiz diz ainda que a alegação de falta de recursos para tocar o projeto não o convence. O Programa Municipal não previu a continuidade desse trabalho no Plano de Ações e Metas (PAM) porque não se interessava mais por ele, não dava importância. Tanto que, desde o ano passado, ficamos sem interlocutor lá dentro. Ninguém nos atendia nem aos nosssos educadores físicos.”

Luiz, assim como outros usuários que ligaram para a Agência Aids durante toda a tarde dessa quinta-feira (3), enumerou uma lista de benefícios conquistados com o Malhar e Viver Mais. “Vivo com HIV desde 1991 e, no projeto, ganhei qualidade de vida. Não estou falando só da melhora na saúde e no aspecto físico mas nas relações sociais, afetivas. Porque ir para as aulas significa encontrar pessoas, trocar informações”, conta ele, que é bancário aposentado e vai de Guarulhos para o Ipiranga (o SAE Ipiranga cedeu espaço para o projeto do Ceci, que foi desativado) duas vezes por semana para fazer as atividades físicas. “O apoio que tenho lá me motiva a fazer a adesão ao tratamento.”

“O que vai ser feito de nós? E dos equipamentos de ginástica?”, pergunta Reginaldo Xavier, 62 anos, outro usuário que diz ter normalizado os níveis de triglicerides e colesterol com a malhação. “Eu e minhas amigas estamos inconformadas”, desabafa Alice Bosco, 55 anos. “Poder ir para uma academia onde um professor cuida da gente com carinho, sabe lidar com a nossa situação, dá os exercícios adequados é nossa maior motivação. Não vou para outro lugar pra cair nas mãos de quem pode me dar um exercício errado e ainda me tratar com preconceito.”

Alice conta que, ao começar no programa, tinha muita lipodistrofia (má distribuição de gordura corporal, que surge como efeito colateral nos pacientes soropositivos). “Meu abdomem estava enorme. Hoje, pareço uma menininha, estou com o corpo lindo.”

“Eu também perdi abdomem, minhas pernas estão mais fortes”, diz Tereza Rosário, 54 anos. “Na nossa turma, nós nos abraçamos, ficamos tristes e eu chorei para caramba quando soube do fim do projeto”, diz Júlia Martins, 42 anos. “Ali, nós formamos uma família.”

“Faço ginástica no serviço por recomendação médica, porque eu não dormia, comia mal, vivia indisposto, com colesterol alto. Agora que melhorei me avisam que não vai ter mais?” pergunta Cícero Oliveira, 72 anos.

A informação de que não haverá mais o projeto depois de maio foi dada numa reunião no Programa Municipal, para a qual foram chamados os três educadores físicos em atividade atualmente, segundo nos relatou um deles. “O projeto vai acabar no final de maio quando acaba o contrato com a Unesco porque não temos mais como bancá-lo”, foi o que ouviram.

Antes, correu a informação de que o Programa tinha o projeto de, no lugar desse trabalho, pagar academia para os alunos. “Está vendo como eles não dão valor ao nosso trabalho?”, continua um professor. “O que fazemos não é o que as academias fazem. Nós atendemos de forma adequada uma população com necessidades específicas. As pessoas usam o serviço como tratamento. Além dos cerca de 100 alunos que frequentam as aulas no dia a dia, atendemos outras 200, pelo menos, por mês, que vão tirar dúvidas, pegar informações, buscar uma consultoria.”

“Vão desperdiçar tudo o que construímos até agora?”, pergunta outro educador físico. Ele ainda diz que os educadores topariam ser chamados para renegociar salários, refazer orçamentos, enfim, dar sua contribuição para viabilizar a continuidade do projeto. “Mas ninguém nos chamou. Nos disseram, no fim do ano passado, que se quiséssemos continuar era para procurarmos recursos em associações, clubes, enfim, outras instituições. Já era um sinal que não iam querer investir.”

A resposta do Programa

Procurado, o Programa Municipal de DST/Aids, nos enviou a seguinte nota, por meio da assessoria de imprensa:

O Programa Municipal de DST/Aids (PM DST/Aids) informa que não há previsão de encerramento destas atividades a partir do mês de maio. No entanto, afirmamos que todos os projetos deste Programa passam por um processo de reavaliação e readequações, conforme necessidades e realidades locais.

Dentre os resultados deste levantamento, vale ressaltar que os próprios pacientes relataram dificuldades em participar das atividades no horário de funcionamento dos serviços.

Este fato nos fez considerar a possibilidade, dentro da perspectiva de intersetorialidade, de buscar alternativas em outros equipamentos municipais como, por exemplo, os Clubes da Comunidade (CDC), que são unidades esportivas em terrenos municipais ou parcerias com outras instituições de atividades física.

Entendendo a importância da atividade física para a redução dos efeitos adversos da terapia antirretroviral, reafirmamos nosso compromisso com os pacientes da Rede Municipal Especializada em DST/Aids na busca de alternativas para melhor atendê-los.


Redação da Agência de Notícias da Aids

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