Seleções estreiam pelo Grupo H da Copa do Mundo de 2026 em meio a realidades contrastantes na resposta ao vírus
Uruguai e Arábia Saudita entram em campo nesta segunda-feira (15), às 19h (horário de Brasília), no Hard Rock Stadium, em Miami, pela primeira rodada do Grupo H da Copa do Mundo de 2026. Além da disputa esportiva, o confronto reúne dois países com contextos bastante diferentes no enfrentamento ao HIV.
Enquanto o Uruguai convive com uma das maiores prevalências da América do Sul e busca reduzir os diagnósticos tardios, a Arábia Saudita mantém uma das menores prevalências do Oriente Médio, mas enfrenta críticas relacionadas ao estigma, à falta de transparência nos dados e às restrições impostas a pessoas vivendo com HIV.
Uruguai tem uma das maiores prevalências da América do Sul

O Uruguai possui aproximadamente 16 mil pessoas vivendo com HIV, segundo dados do Ministério da Saúde do país. Cerca de 91% conhecem seu estado sorológico e 85% estão em tratamento antirretroviral. A prevalência entre adultos de 15 a 49 anos é de 0,5%, uma das mais elevadas da América do Sul.
Em 2024, foram registrados cerca de 900 novos diagnósticos. Homens que fazem sexo com homens (HSH) seguem como o grupo mais afetado pela epidemia, representando 58% das novas infecções. As relações heterossexuais correspondem a aproximadamente 30% dos novos casos.
A população trans também está entre os grupos mais vulneráveis. Dados oficiais apontam prevalência de HIV próxima de 15% entre pessoas trans no país.
Diagnóstico tardio preocupa autoridades
Apesar dos avanços no acesso ao tratamento, o diagnóstico tardio continua sendo um dos principais desafios da resposta uruguaia ao HIV.
Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 35% das pessoas descobrem a infecção quando já apresentam comprometimento significativo do sistema imunológico.
As dificuldades são mais evidentes fora da capital Montevidéu. Regiões de fronteira com Brasil e Argentina, como Artigas, Rivera, Paysandú e Cerro Largo, enfrentam maiores obstáculos para garantir acesso contínuo à testagem e ao acompanhamento especializado.
Estigma ainda persiste
Mesmo com legislações consideradas avançadas na proteção de direitos LGBTQIA+, organizações da sociedade civil relatam episódios de discriminação contra pessoas vivendo com HIV em processos seletivos de emprego e até em serviços de saúde.
O país ganhou destaque internacional nos últimos anos por políticas progressistas, incluindo a aprovação da Lei Integral para Pessoas Trans e a regulamentação da cannabis. Ainda assim, o preconceito continua sendo uma barreira para parte da população buscar diagnóstico e tratamento.
Prevenção e acesso universal
O primeiro caso de HIV foi registrado oficialmente em 1983. Desde então, o Uruguai ampliou campanhas de prevenção, testagem e distribuição gratuita de preservativos.
O tratamento antirretroviral passou a ser oferecido gratuitamente pelo sistema público em 1997. Já a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) foi incorporada ao sistema de saúde em 2019 e atualmente está disponível para toda a população que atende aos critérios clínicos.
Arábia Saudita mantém baixa prevalência, mas enfrenta desafios ligados ao estigma

Na Arábia Saudita, estima-se que cerca de 13 mil pessoas vivam com HIV. A prevalência é de 0,1% entre adultos de 15 a 49 anos, uma das menores da região do Oriente Médio.
Segundo o Unaids, aproximadamente 94% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico. Destas, 98% estão em tratamento antirretroviral e 98% alcançaram supressão viral. Em 2024, foram registradas cerca de 1.400 novas infecções.
Os homens representam aproximadamente 90% dos novos diagnósticos. Embora o governo não divulgue estatísticas detalhadas sobre populações-chave, organizações internacionais apontam que homens que fazem sexo com homens, usuários de drogas injetáveis e trabalhadores migrantes estão entre os grupos mais vulneráveis.
Restrições para estrangeiros
Uma das questões mais controversas envolvendo a resposta saudita ao HIV está relacionada às regras migratórias.
A Arábia Saudita permanece entre os países que impõem restrições à permanência e residência de pessoas vivendo com HIV. Trabalhadores estrangeiros podem ser submetidos à realização de testes para obtenção de vistos de trabalho e autorização de residência.
Segundo organismos internacionais, o status sorológico ainda pode influenciar decisões relacionadas à permanência de estrangeiros no país.
Criminalização das relações homoafetivas
Outro aspecto frequentemente apontado por organizações de direitos humanos é a legislação saudita em relação às relações homoafetivas.
A legislação baseada na interpretação da Sharia proíbe relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Entidades internacionais afirmam que esse cenário contribui para ampliar o estigma, dificultar ações de prevenção e reduzir a procura por serviços de saúde relacionados ao HIV.
Especialistas alertam que ambientes de discriminação tendem a dificultar a obtenção de dados epidemiológicos mais precisos e podem afastar populações vulneráveis dos serviços de testagem.
Tratamento gratuito, mas acesso limitado à PrEP
O primeiro caso de aids foi registrado no país em 1984. Dez anos depois, o governo criou o Programa Nacional Saudita de Combate à Aids.
Atualmente, o tratamento antirretroviral é oferecido gratuitamente pelo sistema de saúde. Entretanto, a PrEP ainda possui acesso restrito e não integra uma política nacional ampla de prevenção.
Organizações internacionais também apontam limitações na divulgação de dados detalhados sobre a epidemia no país.
Duas realidades, um desafio global
Se dentro das quatro linhas Uruguai e Arábia Saudita iniciam a caminhada rumo ao sonho do título mundial, fora dos gramados os desafios são diferentes.
Enquanto os uruguaios buscam ampliar o diagnóstico precoce e reduzir desigualdades regionais no acesso à saúde, os sauditas enfrentam o desafio de combater o estigma, ampliar a transparência dos dados e facilitar o acesso às estratégias modernas de prevenção.
O duelo em Miami coloca frente a frente duas seleções com histórias distintas no futebol e também na resposta ao HIV, lembrando que a luta contra a epidemia continua sendo um desafio global que ultrapassa fronteiras, culturas e continentes.
Redação da Agência de Notícias da Aids



