UOL: ‘Não suportava ver tanta dor’: pioneira contra Aids deu aula até em boates

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É impossível narrar a história da epidemia de aids no Brasil nos anos 1980 sem mencionar Márcia Rachid. A médica infectologista é uma pioneira no tratamento da doença, e no combate a desinformação e a sorofobia.

Formada em 1982, ela atendeu os primeiros casos de aids no Rio de Janeiro, pouco depois da descoberta da doença, em 1981, quando foi notificado o primeiro caso nos Estados Unidos. Em 1983, quando atendia no ambulatório do Hospital Gaffrée e Guinle (RJ), atendeu uma pessoa com quadro clínico que parecia ser relacionado à infecção pelo HIV, mas não havia teste no Brasil para confirmar a suspeita.

O primeiro teste laboratorial para detecção foi desenvolvido em 1985, apesar do primeiro caso de aids clinicamente identificado no país ter sido três anos antes em São Paulo.

A infectologista lidou com os impactos da epidemia no início dos anos 1980, quando a doença “misteriosa” afetava a população, e informações equivocadas propagavam-se, aumentando o estigma, principalmente, em relação a homossexuais e transexuais/travestis.

Meu envolvimento pessoal foi acontecendo progressivamente a partir de 1984, pois me incomodava muito com o que ouvia; o preconceito era assustador; foi assim que fui me tornando muito próxima das pessoas que atendia. Não suportava ver tanta dor e lágrimas e não fazer nada, conta.

Márcia Rachid

Rachid nunca teve receio da doença, muito menos de estar com as pessoas, ela sempre abraçou seus pacientes no sentido amplo da palavra, oferecendo escuta e apoio, muitas vezes em seus momentos finais. O abandono de familiares e amigos não era incomum no ápice da epidemia.

“Acolhia e tentava amenizar o sofrimento. Sabíamos, desde 1983, que não havia nenhum risco de infecção no convívio social nem compartilhando talheres, copos, ou toalhas, nem sentando nas cadeiras, etc”.

A própria médica sofreu preconceito. Em 1986, ela foi despedida de um consultório porque seus pacientes compartilhavam a mesma sala que os pacientes do dono do repartimento.

Prevenção na noite

Há décadas, Rachid tem transmitido informação para seus pacientes e para a população de modo geral. Ela levou o conhecimento para além do ambulatório, e ao lado da veterana drag queen Lorna Washington (1962-2023) ia a boates gays para falar sobre prevenção e formas de transmissão.

Márcia Rachid com a drag queen Lorna Washington, nos anos 80

“Subia aos palcos com Lorna para falar de cuidados e distribuir preservativos”, relembrou.

Certa vez, em uma dessas casas noturnas, ela foi cercada por jovens que trocaram a pista de dança pela roda de conversa, bombardeando a médica com perguntas sobre o assunto. Em 1986, ela já participava de grupos de assistência como o GAPA – Grupo de Apoio a Prevenção a Aids.

Alguns anos depois, a convite do sociólogo, escritor e ativista político, Herbert Daniel (1946-1992), Rachid foi uma das cofundadoras do Grupo Pela Vidda-RJ em 1989.

Ele dizia que viver era um ato político; foi um revolucionário; foi com ele que aprendi que temos que valorizar o poder da vida, independentemente de quando a morte virá, conta Rachid.

Márcia Rachid e Betinho

O primeiro projeto, ainda nos primórdios daquele ano, foi o Disque Aids, que fornecia orientações. A médica infectologista também conviveu com o ativista de direitos humanos Herbert de Sousa, o Betinho (1935-1997).

Hoje e amanhã

Atualmente a informação está disponível, mas falta compreensão do verdadeiro significado da vida. As drogas sintéticas estão destruindo vidas numa velocidade impressionante. O autocuidado está ficando para trás.

A infectologista faz o alerta que fazer sexo sob efeito de drogas (sexo químico/chemsex) aumenta risco de infecções sexualmente transmissíveis. “A camisinha não tem sido mais usada, e muitos jovens não conhecem as profilaxias pré e pós-exposição (PrEP e PEP)”, afirma.

Márcia Rachid

Anualmente, cerca de 10 mil pessoas morrem de aids no Brasil, em função de um diagnóstico tardio, segundo Rachid. Isso ocorre muitas vezes por ausência de informação sobre a importância de se fazer a testagem. Algumas comunidades mais vulnerabilizadas (população de rua, por exemplo) não tem acesso e conhecimento a respeito.

É essencial destacar a diferença entre HIV e aids, enquanto um é o vírus, o outro é a doença que pode se desenvolver se o HIV não for tratado. A infectologista ressalta a importância da testagem e do tratamento precoce (caso reagente).

Márcia Rachid explica que uma vez com a carga viral indetectável, não se transmite o vírus para parceiros(a), podendo ter relação sexual sem preservativo, ter filhos biológicos e engravidar.

“Hoje a pessoa pode viver para sempre sem ter mais o vírus detectado na corrente sanguínea, e não ter agressão ao sistema imunológico; então mudou totalmente o risco de adoecimento; por outro lado, é importante tomar o medicamento corretamente, fazendo uso contínuo”.

Indagada se estamos perto da cura, Rachid esclarece:

Tem vários estudos e pesquisas em andamento, que a gente diz serem ‘estratégias de cura’, então nada é impossível que nos próximos anos seja mais fácil chegar a cura.

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