
As infecções sexualmente transmissíveis, ou IST, continuam sendo uma enorme preocupação no mundo todo, já que os números não param de subir tanto em países considerados “desenvolvidos” (como EUA e Inglaterra) como os em desenvolvimento.
Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) dão a dimensão do problema: são mais de 1 milhão de novas IST adquiridas todos os dias, um enorme desafio para a saúde global.
Nos últimos anos, uma forma de prevenção tem se tornado cada vez mais falada: é a chamada DoxiPEP, ou seja, uma dose do antibiótico doxiciclina —um fármaco já velho conhecido da ciência— usada após a prática de sexo inseguro para prevenir a contaminação por IST causadas por bactérias.
A solução não surgiu sem razão: entre as infecções bacterianas transmitidas por sexo estão algumas das que mais crescem em números no mundo todo, como a gonorreia, a clamídia e a sífilis —daí a necessidade de criar meios para conter esse avanço.
Três estudos científicos diferentes mostraram que, quando tomada em dose única depois das exposições sexuais, a doxiciclina reduziu em torno de 80% as infecções por sífilis e clamídia.
Rico Vasconcelos, médico infectologista, pesquisador do hospital das clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e colunista de VivaBem
“Para a gonorreia, a proteção foi menor, um pouco acima dos 50%”, complementa Vasconcelos.
Por que a doxiciclina?
Descoberta no final da década de 1940, a doxiciclina é um antibiótico da classe das tetraciclinas com cobertura ampla e considerado bastante seguro —por isso mesmo foi o “escolhido” para realizar esses testes contra IST.
“Além de eficaz contra diversas infecções causadas por bactérias, também é bem tolerado pela maioria das pessoas”, afirma Sumire Sakabe, infectologista do Hospital Nove de Julho, em São Paulo.
“Além disso, é um medicamento com posologia cômoda, com duas doses ao dia, o que também é importante para o sucesso no tratamento de IST”, acredita Carolina Lázari, infectologista do laboratório a+ Medicina Diagnóstica, do Grupo Fleury, de Pernambuco.
O uso com essa finalidade não é novo, mas voltou a ser debatido recentemente após o CDC (Centro de Controle de Doenças) dos EUA reconhecer que a DoxiPEP já é usada informalmente por muitos médicos e, por isso mesmo, colocou diretrizes oficiais para esta prática.
Na nota, divulgada em 2 de outubro de 2023, o órgão orienta que o tratamento deve ser feito apenas com homens gays e bissexuais e mulheres transgênero, já que os estudos com mulheres cisgênero não demonstraram a mesma eficácia do tratamento.
O CDC reforçou ainda que outros antibióticos não devem ser utilizados com essa finalidade.
DoxiPEP ainda é polêmicaMesmo considerado seguro, o uso da doxiciclina nesse contexto ainda levanta algumas questões e, por isso mesmo, a medida profilática ainda não é (oficialmente) amplamente utilizada pelos serviços de saúde brasileiros.
O principal receio é de que a recomendação formal para o uso da doxiciclina aumente o consumo desse medicamento mesmo sem orientação e acompanhamento especializados, já que é um antibiótico facilmente encontrado nas farmácias e com baixo custo.
Com isso, haveria o enorme risco de aumentar a resistência bacteriana a um antibiótico seguro e que é utilizado para tratar outras doenças, como a febre maculosa. Na prática, significaria “perder” esse medicamento e deixar de utilizá-lo —o que seria um prejuízo enorme para a comunidade.
Outro receio seria o de estimular o comportamento conhecido como “compensação de risco”, no qual segue-se uma lógica de que, se existe remédio para o tratamento de infecções sexualmente transmissíveis, não há necessidade de usar preservativos nas relações sexuais.
“Como tudo que envolve a sexualidade humana, o que é novidade causa estranhamento. Existe sempre o ‘e se’. E se der efeito colateral? E se incentivar o não uso de preservativos? E se aumentar a resistência bacteriana?”
Rico Vasconcelos, médico infectologista
Vale ressaltar, no entanto, que nenhum estudo comprovou que esses riscos acontecem na vida real. “Mas sabemos que ainda são necessárias mais pesquisas para que possamos entender o impacto da DoxiPEP na resistência bacteriana, por exemplo” afirma Sakabe.
Lazári lembra ainda que os estudos conhecidos com a doxiciclina para prevenção de IST foram feitos com populações específicas, com alta vulnerabilidade à aquisição dessas infecções, e não com a população em geral.
Isso não impediria o uso desse medicamento, mas seria interessante que a aplicação da DoxiPEP fosse feita de forma controlada, ou seja, com acompanhamento médico e orientação para observar se existe, de fato, algum problema ocorrendo quando o tratamento é aplicado na vida real.
“Esse monitoramento serve para avaliar continuamente o risco-benefício da utilização do medicamento, assim como direcionar o uso para as populações em que o benefício é maior”, avalia Lazári.
“O próprio CDC orienta que, mesmo com a DoxiPEP, o paciente seja acompanhado e testado o tempo todo”, reforça Vasconcelos. Na opinião dele, essa é uma forma segura de implementar algo que pode conter o avanço de IST no mundo todo. “A estratégia atual não está funcionando, basta ver os números. Isso poderia nos ajudar a reduzir as infecções”, acredita.


