Quando a camisinha estourou no meio do sexo, Ana Paula Bernardo, de 57 anos, só conseguia pensar nos riscos que corria. O parceiro, um homem da sua idade, deu de ombros quando ela sugeriu um teste de HIV. “Não precisa disso”, respondeu, como se a proteção fosse, além de uma ofensa, responsabilidade reservada às mulheres.
Ana se preocupava porque conhecia o HIV de perto. O filho dela, Alexandre Putti, convive com o vírus há anos e, inclusive, produz conteúdo sobre o assunto nas redes sociais. Foi a ele que Ana recorreu pedindo dicas de prevenção após o rompimento da camisinha.
Alexandre a orientou a procurar o Centro de Testagem e Acolhimento (CTA) da cidade – as unidades estão listadas no site do Ministério da Saúde -, no interior de São Paulo. Lá, ela começou a PEP (profilaxia pós-exposição), com medicamentos que são utilizados depois de uma situação sexual de risco para evitar infecções por vírus como o HIV. Na unidade, foi acolhida pela equipe do Sistema Único de Saúde.
Pouco tempo depois, em outra relação sexual, exagerou no gel lubrificante, e o preservativo escorregou. O parceiro, um homem mais jovem, também se recusou a fazer o teste de HIV. Novamente, Ana se sentiu insegura e buscou o CTA. Como já era a sua segunda PEP em um curto espaço de tempo, a infectologista apresentou à Ana uma solução preventiva: a PrEP, que usa remédios antirretrovirais para reduzir o risco de infecções antes da exposição ao vírus, ou seja, antes de uma relação sexual insegura. Ela aceitou na hora!
Embora a medicação não substitua o uso de preservativo, “com a adesão correta, a efetividade (das terapias PrEP e PEP) chegou a 76% em estudos com mulheres”, aponta Sumire Sakabe, infectologista do Hospital Nove de Julho.
A barreira do estigma social
Ana é exceção, já que a disseminação das terapias de profilaxia esbarra em um estigma social difícil de romper. Fala-se pouco sobre prevenção de forma geral. “E a PrEP é quase desconhecida, talvez por responsabilidade nossa, provedores de saúde, que não damos a visibilidade necessária”, considera Sumire.
Marta McBritton, presidente do Instituto Cultural BarOng, que há mais de 30 anos discute sexo e sexualidade de maneira descomplicada, afirma que “existe uma ideia muito enraizada de que quem usa PrEP está transando mais, se expondo mais, sendo irresponsável.

Na prática, é justamente o contrário: para conseguir a PrEP, você tem que ir ao serviço de saúde, fazer testagem de HIV e de outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) regularmente. “Essas pessoas acabam tendo muito mais cuidado com o corpo do que aquelas que sequer sabem o que é uma IST”, destaca Marta. Para Ana, a PrEP representou uma virada de chave na retomada do controle sobre sua vida sexual. O medicamento não apenas ofereceu proteção física, mas devolveu a ela a confiança para negociar os termos de suas relações íntimas.Hoje, ela não depende mais exclusivamente da boa vontade deparceiros para se proteger – e a autonomia, segundo especialistas, pode ser o caminho para que mais mulheres brasileiras rompam as barreiras que ainda limitam o acesso a essa ferramenta de prevenção.
Acompanhe a reportagem completa em:
https://www.uol.com.br/universa/noticias/azmina/2025/09/14/mulheres-no-controle-a-prep-como-ferramenta-de-poder-no-sexo.htm?cmpid=copiaecola
Portal UOL, texto de Mariana Rosetti e Paola ChurchillDe arte feita por AzMina



