Unaids: novas infecções por HIV caem 43% e mortes por aids despencam 57%, mas cortes globais ameaçam avanços históricos

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Relatório do Unaids mostra que o mundo reduziu as novas infecções de HIV de 2,1 milhões para 1,2 milhão por ano desde 2010 e diminuiu as mortes relacionadas à aids de 1,3 milhão para 570 mil. Mas cortes de financiamento em 2025 já comprometem programas de prevenção, testagem e apoio comunitário, ameaçando a meta de acabar com a epidemia até 2030.

O mundo nunca esteve tão próximo de controlar a epidemia de HIV. Desde 2010, as novas infecções caíram 43%, passando de 2,1 milhões para 1,2 milhão em 2025, enquanto as mortes relacionadas à aids recuaram 57%, de 1,3 milhão para 570 mil no mesmo período. Hoje, estima-se que 40,9 milhões de pessoas vivam com HIV no mundo, das quais 32,1 milhões recebem tratamento antirretroviral. Mas o novo relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), divulgado às vésperas da Reunião de Alto Nível da ONU sobre HIV/Aids, alerta que os cortes globais de financiamento ocorridos em 2025 já começam a comprometer parte dessas conquistas históricas, atingindo programas de prevenção, testagem e serviços comunitários essenciais para o controle da epidemia.

Os dados revelam um dos maiores sucessos da saúde pública contemporânea. Em pouco mais de uma década, a expansão do tratamento antirretroviral, o fortalecimento das estratégias de prevenção e a mobilização de governos, organismos internacionais e movimentos comunitários evitaram milhões de infecções e mortes. No entanto, o relatório United to End Aids mostra que a resposta global entrou em uma nova fase de incerteza. A redução abrupta da assistência internacional em 2025 expôs a fragilidade financeira de muitos programas e levantou dúvidas sobre a capacidade do mundo de alcançar a meta de acabar com a aids como ameaça à saúde pública até 2030.

O alerta surge após 2025 registrar uma das maiores crises de financiamento da resposta global ao HIV desde a criação dos grandes programas internacionais de combate à epidemia.

Os números globais

Os avanços no tratamento também aproximaram o mundo das metas conhecidas como “95-95-95”:

* 88% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico;
* 89% das pessoas diagnosticadas estão em tratamento;
* 95% das pessoas em tratamento apresentam supressão viral.

Na prática, isso significa que aproximadamente três em cada quatro pessoas vivendo com HIV no planeta estão com carga viral controlada, protegendo sua própria saúde e impedindo a transmissão sexual do vírus.

Apesar dos resultados positivos, o Unaids ressalta que o mundo falhou em alcançar as metas previstas para 2025 e continua fora da trajetória necessária para eliminar a aids como problema de saúde pública até 2030.

O tratamento resistiu. A prevenção não.

Se existe uma palavra que resume o relatório é “fragilidade”. A resposta internacional conseguiu preservar, ao menos temporariamente, o acesso ao tratamento. Mas a prevenção sofreu um duro golpe.

Dados de 62 países revelam que o número de pessoas que tiveram acesso à PrEP — a profilaxia pré-exposição, considerada uma das ferramentas mais eficazes para evitar novas infecções — caiu 38% entre 2024 e 2025.

Em alguns programas internacionais de grande porte, a situação foi ainda mais dramática:

* redução de 22% nos testes de HIV;
* queda de 93% nos investimentos em programas de distribuição de preservativos;
* corte de 80% nos recursos destinados a iniciativas que removem barreiras legais e sociais de acesso aos serviços.

O relatório alerta que os impactos reais dessas interrupções ainda não aparecem completamente nas estatísticas epidemiológicas. As novas infecções levam meses ou anos para serem captadas pelos sistemas de vigilância. Em outras palavras: os piores efeitos dos cortes podem ainda estar por vir.

A dependência de recursos externos ajuda a explicar a dimensão da crise. Segundo o Unaids, 42% de toda a resposta ao HIV nos países de baixa e média renda ainda era financiada internacionalmente em 2024. Nos programas de prevenção, essa dependência chegava a cerca de 66%, tornando o setor especialmente vulnerável às interrupções observadas em 2025.

América Latina: uma das poucas regiões onde a epidemia continua crescendo

Enquanto o mundo registra queda consistente nas novas infecções por HIV, a América Latina segue na direção oposta. Segundo o Unaids, a região acumulou aumento de 13% nas novas infecções desde 2010, tornando-se uma das poucas partes do mundo onde a epidemia permanece em expansão.

O dado coloca a região ao lado do Leste Europeu, Ásia Central e Oriente Médio/Norte da África como áreas onde a trajetória da epidemia permanece ascendente.

Há uma combinação de fatores para explicar esse cenário: expansão insuficiente da PrEP; persistência do estigma; desigualdades no acesso aos serviços; criminalização e discriminação de populações-chave; financiamento instável para programas de prevenção.

Fora da África Subsaariana, cerca de dois terços das novas infecções concentram-se entre populações-chave e seus parceiros sexuais. Homens gays e outros homens que fazem sexo com homens respondem por aproximadamente um terço das novas infecções nessas regiões.

Isso torna particularmente preocupante o enfraquecimento das organizações comunitárias que historicamente lideram a prevenção junto a esses grupos.

Brasil: liderança regional em meio à turbulência

Embora o relatório não apresente indicadores epidemiológicos detalhados por país nesta edição preliminar, o Brasil aparece como uma das nações latino-americanas que informaram aumento do financiamento público doméstico destinado à resposta ao HIV após a crise financeira internacional de 2025.

A inclusão brasileira na lista de países que ampliaram recursos nacionais sinaliza uma tentativa de compensar parcialmente a retração da cooperação internacional.

O papel brasileiro é especialmente relevante porque o país concentra a maior resposta pública ao HIV da América Latina e historicamente exerce influência regional na formulação de políticas de prevenção e tratamento.

O Brasil possui uma das maiores redes públicas de tratamento antirretroviral do mundo e foi pioneiro na garantia universal do acesso aos medicamentos. Além disso, lidera iniciativas regionais de incorporação da PrEP e de monitoramento epidemiológico.

Entretanto, os desafios permanecem significativos. A América Latina apresenta algumas das maiores desigualdades de acesso entre populações-chave. Mulheres trans, homens gays, profissionais do sexo e pessoas privadas de liberdade continuam registrando riscos muito superiores aos da população geral.

O próprio relatório aponta que, globalmente, pessoas trans têm risco 17 vezes maior de adquirir HIV. Entre homens gays e outros homens que fazem sexo com homens, esse risco é 18 vezes maior.

Por isso, a preservação das políticas públicas voltadas a essas populações será decisiva para evitar que a região continue acumulando novos casos.

O colapso silencioso das organizações comunitárias

Talvez nenhum capítulo do relatório seja tão preocupante quanto aquele dedicado às organizações lideradas pela comunidade. Historicamente, essas organizações foram responsáveis por alcançar pessoas frequentemente excluídas dos serviços formais de saúde.

São elas que distribuem preservativos, promovem testagem, fazem busca ativa de pessoas fora do tratamento, oferecem apoio psicossocial e enfrentam o estigma. Mas justamente essas estruturas estão entre as mais atingidas pelos cortes.

Uma pesquisa realizada em 47 países mostrou:

* redução de 50% na oferta comunitária de PrEP;
* queda de 50% nos serviços de apoio a pessoas vivendo com HIV;
* redução de 85% nas ações voltadas a homens gays e outros HSH;
* redução de 82% nos serviços destinados a profissionais do sexo.

O alerta do Unaids é direto: sem financiamento sustentável, muitas dessas organizações podem desaparecer. E quando desaparecem, desaparece junto a principal ponte entre os sistemas de saúde e as populações mais vulneráveis.

Direitos humanos sob ataque

O relatório também chama atenção para um fenômeno que vai além do financiamento. Em várias partes do mundo, leis discriminatórias e políticas conservadoras vêm restringindo direitos de pessoas LGBTQIA+, profissionais do sexo, usuários de drogas e pessoas vivendo com HIV.

Atualmente:

* 168 países criminalizam aspectos do trabalho sexual;
* 152 criminalizam a posse de pequenas quantidades de drogas;
* 66 criminalizam relações entre pessoas do mesmo sexo;
* 156 mantêm legislações ou processos judiciais relacionados à exposição ou transmissão do HIV.

Segundo o Unaids, o recrudescimento dessas legislações compromete décadas de avanços na resposta à epidemia. Quando as pessoas têm medo de serem presas, discriminadas ou violentadas, tendem a evitar serviços de prevenção, testagem e tratamento.

A revolução que pode mudar o rumo da epidemia

Nem tudo são más notícias. O relatório destaca o potencial transformador das novas tecnologias de prevenção. O principal destaque é o lenacapavir, medicamento injetável de longa duração que pode revolucionar a prevenção do HIV.

Até março de 2026, mais de seis mil pessoas já utilizavam o medicamento em países africanos. Recentemente, negociações internacionais reduziram o preço previsto para países de baixa renda para cerca de US$ 40 por pessoa ao ano a partir de 2027.

Segundo o Unaids, a expansão global dessas tecnologias pode representar para a prevenção o mesmo salto que os antirretrovirais representaram para o tratamento no início dos anos 2000. Mas isso dependerá de acesso equitativo, financiamento adequado e vontade política.

O que está em jogo até 2030

O novo plano estratégico global do Unaids para 2026-2031 estabelece metas ambiciosas. A organização projeta que, caso os países cumpram os compromissos propostos, será possível evitar:

* 3,3 milhões de novas infecções por HIV;
* 1,4 milhão de mortes relacionadas à aids até 2030.

A estratégia prevê:

* 40 milhões de pessoas em tratamento com supressão viral;
* 20 milhões de pessoas utilizando métodos de prevenção baseados em antirretrovirais;
* redução de 90% das novas infecções em comparação com 2010;
* redução de 90% das mortes relacionadas à aids.

Mas os autores do relatório deixam claro que os próximos cinco anos serão decisivos.

O mundo já demonstrou que sabe controlar a epidemia. Pela primeira vez em muitos anos, o desafio global deixou de ser a falta de ferramentas para enfrentar o HIV. Tratamentos eficazes existem. Novas formas de prevenção estão disponíveis. O conhecimento científico está consolidado.

O que está em disputa agora é a capacidade política e financeira de levar essas respostas a quem mais precisa.

Os cortes de financiamento observados em 2025 mostram que nenhuma das conquistas obtidas nas últimas quatro décadas está garantida. Entre a possibilidade histórica de acabar com a aids e o risco de uma nova escalada da epidemia, os próximos cinco anos poderão definir o rumo da resposta global por uma geração.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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