
Na Colômbia, mulheres afrodescendentes estão assumindo o protagonismo na resposta ao HIV, enfrentando de forma coletiva os impactos do racismo, da desigualdade e da violência — fatores que aumentam sua vulnerabilidade frente à epidemia. Em regiões costeiras do Caribe e do Pacífico, onde vivem muitas dessas mulheres, elas representam metade das pessoas diagnosticadas com HIV, proporção bem superior à média nacional, que gira em torno de 20%.
Esse cenário evidencia como as desigualdades de gênero e barreiras estruturais — como a violência, o acesso precário a serviços de saúde e o estigma agravado pelo racismo e sexismo — contribuem para a exclusão social e para os riscos maiores de infecção. A dificuldade de acesso à educação, ao mercado de trabalho e ao cuidado médico adequado deixa essas mulheres ainda mais expostas.
Além disso, o conflito armado e os deslocamentos forçados agravaram a pobreza e a violência, inclusive sexual, nas comunidades afrodescendentes e indígenas, dificultando a construção de respostas eficazes e seguras ao HIV.
Diante desses desafios, organizações lideradas por mulheres negras têm sido fundamentais na transformação dessa realidade. Com apoio do UNAIDS e de parceiros internacionais, iniciativas comunitárias estão fortalecendo o acesso à informação, aos serviços de prevenção e ao cuidado com dignidade.
Uma dessas iniciativas é a Fundación Afro Mata ‘e Pelo, que atua na região do Caribe colombiano, promovendo o acesso à saúde sexual e reprodutiva. A organização combate mitos e estigmas e busca reduzir a discriminação nos serviços de saúde, muitas vezes marcada por lacunas na formação de profissionais.
No departamento de Valle del Cauca, na costa pacífica, a Fundación RedLujo desenvolve ações voltadas a mulheres trans, trabalhadoras do sexo e pessoas não binárias. Com estratégias artísticas e pedagógicas, o grupo sensibiliza a população sobre o HIV e pressiona por políticas públicas inclusivas que garantam o acesso à prevenção e ao tratamento.
Essas organizações não apenas oferecem serviços, mas também constroem redes de apoio e influenciam políticas públicas. Elas trabalham em articulação com instituições governamentais para garantir que as políticas de HIV levem em conta as realidades locais e incluam as vozes e necessidades das comunidades historicamente marginalizadas.
Yaneth Valencia, ativista do HIV e fundadora da *lAsociación Lila Mujer, localizada no sudoeste colombiano, reforça a importância de dar visibilidade às mulheres negras e indígenas nos territórios onde vivem. A organização promove encontros nos quais as mulheres compartilham experiências, aprendem sobre prevenção e fortalecem sua autonomia.
“É um desafio tornar visíveis as mulheres, especialmente nos contextos e territórios onde vivem mulheres negras e indígenas”, diz Yaneth. “Esses espaços de irmandade — de comadreo, como chamamos nas comunidades — nos permitem falar com as nossas comadres. Podem ser grupos de autoajuda ou de orientação entre pares, nos quais podemos conversar e confiar. Trata-se também de recuperar toda essa ancestralidade que nos permite reconectar e resistir, porque nós não apenas existimos — nós resistimos em um contexto machista, racista, classista e muito branco.”
A atuação dessas mulheres afrodescendentes mostra que a resposta ao HIV deve ser construída a partir da base, com protagonismo comunitário e enfoque em direitos humanos. Suas ações garantem que as estratégias adotadas sejam realmente eficazes e respondam às necessidades das populações mais afetadas — com voz, dignidade e justiça.
Redação da Agência Aids com informações do Unaids



