Unaids: Lenacapavir alcança 6 mil usuários em cinco países africanos enquanto financiamento global para HIV diminui

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Novo relatório do Unaids mostra que medicamento considerado uma das maiores promessas da prevenção ao HIV avança lentamente em meio à redução histórica de recursos internacionais

O lenacapavir, apontado por especialistas como uma das tecnologias mais promissoras para a prevenção do HIV nas últimas décadas, ainda está longe de alcançar escala global. Apesar da expectativa gerada pelos resultados dos estudos clínicos e do potencial de revolucionar a profilaxia pré-exposição (PrEP), apenas cerca de 6 mil pessoas tinham acesso ao medicamento até março de 2026 em cinco países da África Subsaariana: Eswatini, Quênia, Nigéria, Zâmbia e Zimbábue.

O dado consta no relatório United to End Aids, divulgado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), e evidencia o contraste entre o avanço da ciência e as dificuldades para transformar inovação em acesso real.

O documento mostra que a maioria das pessoas que receberam o medicamento são mulheres com mais de 25 anos atendidas em clínicas e hospitais públicos. Embora o número represente um marco inicial para a implementação da nova estratégia preventiva, ele também revela o enorme desafio de levar a tecnologia a milhões de pessoas que poderiam se beneficiar dela.

O lenacapavir é um antirretroviral de ação prolongada administrado por injeção semestral. Diferentemente da PrEP oral diária, o medicamento exige apenas duas aplicações por ano, característica que pode reduzir barreiras relacionadas à adesão e ampliar a proteção entre populações mais vulneráveis à infecção pelo HIV.

Para o Unaids, a chegada de novas opções biomédicas de prevenção representa uma oportunidade decisiva para acelerar a redução das infecções. No entanto, a agência alerta que o potencial dessas tecnologias depende diretamente da capacidade dos países de garantir acesso amplo e sustentável.

Ciência avança, financiamento recua

O lançamento do relatório ocorre em um momento de forte preocupação internacional com a sustentabilidade da resposta ao HIV.

Segundo o Unaids, o financiamento externo destinado a ações de desenvolvimento caiu 23% em 2025. O impacto já pode ser observado em programas de prevenção, testagem, direitos humanos e serviços comunitários voltados às populações mais afetadas pela epidemia.

Os números revelam um cenário alarmante:

  • O mundo dispõe atualmente de US$ 18,7 bilhões para a resposta ao HIV, valor 14,6% inferior aos US$ 21,9 bilhões considerados necessários para alcançar as metas globais de 2030.
  • O financiamento destinado a programas de distribuição de preservativos despencou 93%.
  • Os recursos para iniciativas de proteção de direitos, combate ao estigma e remoção de barreiras sociais foram reduzidos em 80%.
  • A oferta de PrEP sofreu retração de 50%.
  • Serviços direcionados a gays e outros homens que fazem sexo com homens registraram redução de 85%.

O relatório alerta que a prevenção tem sido uma das áreas mais afetadas pelos cortes. Dados de 62 países indicam que o número de pessoas que receberam PrEP ao menos uma vez durante o ano caiu 38% entre 2024 e 2025.

Nesse contexto, especialistas avaliam que o lenacapavir surge justamente quando os programas de prevenção enfrentam sua maior crise financeira em décadas.

O desafio do acesso

Embora parcerias internacionais tenham conseguido reduzir significativamente o preço do medicamento para países de baixa renda a partir de 2027 — chegando a US$ 40 por pessoa ao ano — persistem incertezas importantes sobre os valores que serão praticados para países de renda média, categoria na qual o Brasil está incluído.

O próprio Unaids destaca que a falta de clareza sobre preços e modelos de acesso pode se tornar um obstáculo para a expansão global da tecnologia.

A preocupação é especialmente relevante para países que enfrentam a transição de modelos historicamente dependentes de financiamento internacional para sistemas sustentados por recursos domésticos.

“O tratamento sozinho não será suficiente para acabar com a aids”, destaca o relatório. Segundo a agência, a ampliação do tratamento precisa ser acompanhada por um compromisso igualmente robusto com a prevenção, incorporando novas ferramentas biomédicas capazes de alcançar pessoas em maior risco de exposição ao HIV.

Janela de oportunidade

Os dados mais recentes mostram que o mundo registrou 1,2 milhão de novas infecções por HIV em 2025 e 570 mil mortes relacionadas à aids. Embora esses números representem avanços expressivos em comparação com a década passada, a meta de acabar com a aids como ameaça à saúde pública até 2030 continua fora de alcance no ritmo atual.

Nesse cenário, o lenacapavir é visto como uma oportunidade histórica.

A grande questão colocada pelo relatório é se a comunidade internacional conseguirá transformar uma inovação científica considerada revolucionária em uma ferramenta efetivamente disponível para quem mais precisa.

Por enquanto, a resposta ainda parece distante: enquanto milhões de pessoas seguem expostas ao risco de infecção pelo HIV, 6 mil tiveram acesso à prevenção semestral que pode ajudar a mudar o rumo da epidemia.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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