Unaids: Entre danças, acolhimentos e conversas, a prevenção ao HIV ganhou as ruas de Salvador

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No início do século XVII, foi construída a Ladeira da Preguiça, em Salvador. Este local, atualmente um importante ponto da capital baiana, ligava o porto da cidade à Cidade Alta. Foi neste cenário, que a dança da comunidade encontrou o cuidado e acolhimento por meio das ações de prevenção ao HIV na segunda edição do Rolê da Prevenção.

Neste ano, o projeto ganhou o nome de “Rosárias” em homenagem a ativista de direitos humanos Rosaria Piriz Rodriguez. Nascida no Uruguai, Rosaria é uma ativista social que adotou o Brasil como lar e tem forte atuação no Movimento de Mulheres, com foco específico nos direitos, acolhimento e saúde de mulheres negras e de mulheres que vivem com HIV e aids.

O ambiente, muitas vezes preenchido com músicas dançantes, foi o modelo escolhido para que assuntos como prevenção ao HIV e cuidado com a saúde sexual fossem ofertados e percebidos como humanizados, afastando a percepção de um atendimento frio e distante. E há um motivo para a escolha dessa abordagem: o acesso.

Essa edição do projeto, focado em mulheres negras — além de jovens e população LGBTQIA+ — buscou aproximar os territórios das ações de prevenção, pois são essas populações, fortemente marcadas por estigma, discriminação e racismo, que têm maiores dificuldades em acessar serviços de saúde.

“O Rolê da Prevenção é muito mais que a distribuição de insumos. Por meio da educação de pares, a gente faz o movimento de aproximar pessoas da sociedade civil que foram qualificadas para atuar no território a estimular e instigar quem está nesses locais a vir aos serviços de saúde para serem atendidas do jeito que elas precisam”, diz Jéssica França, técnica do Campo de Saúde da População Negra na Secretaria Municipal da Saúde de Salvador.

Da comunidade para a comunidade: descentralizando as ações

A edição Rosárias criou espaços para aprendizagem coletiva para descentralizar. Por isso, a instrução de pares, que utiliza a aprendizagem colaborativa como método, foi escolhida como a forma de levar aos 12 Distritos Sanitários (DS) de Salvador meios de alcançar populações específicas.

O método é importante porque a comunidade se vê refletida nas pessoas que realizam os atendimentos, diminuindo o estranhamento, a resistência ou abandono do tratamento ou da busca por meios de prevenção. Por isso a importância da capacitação de lideranças negras, feministas e LGBTQIA+.

“Poder participar dessa formação que trouxe aspectos sobre prevenção combinada e sobre racismo. É muito importante para que tenha mais profissionais antirracistas na nossa rede, uma vez que o racismo estrutural é uma barreira de acesso à saúde”, ressalta Mayara de Queiroz, farmacêutica de referência do DS de Itapagipe. “Os métodos e as tecnologias estão disponíveis, mas ainda não são ofertados de forma correta por falta de capacitação ou porque [os métodos] estão em locais de difícil acesso para as populações periféricas. Então, é preciso pensar em tudo isso para que se possa realmente ampliar o cuidado”, acrescenta.

Ao todo, 250 profissionais atuantes nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e 70 pessoas receberam capacitação e treinamento para garantir um acolhimento humanizado que se estenda da recepção das unidades até o consultório. O trabalho busca fortalecer a rede de prevenção e garantir que o acolhimento presenciado nas ações territoriais seja uma realidade no cotidiano dos serviços de saúde.

Serviço como um espelho da comunidade

Para que haja a permanência das ações de cuidado e acolhimento é necessário que a comunidade se reconheça.

“Acredito que o alcance das ações do ‘Rosárias’ se dá, para além do atendimento humanizado e do ambiente de escuta qualificada, pela identificação. É muito importante que as mulheres negras se sintam acolhidas e que o sistema de saúde seja capaz de compreender os recortes e nuances necessárias para haja equidade no acesso à saúde”, destacou Gabriel Borba, coordenador de Legislativo e Populações do UNAIDS Brasil. “É quase como um espelho reverso, onde a pessoa da comunidade se vê refletida em quem faz a política pública e vice e versa”, finaliza.

Ações presentes na Parada do Orgulho LGBTQIA+ de Salvador
O Rolê da Prevenção levou a prevenção para a avenida e ocupou as ruas da capital baiana. Com o tema “Vergonha adoece, orgulho cura”, as pessoas educadoras de pares atuaram para compartilhar informações, incentivar a testagem e ampliar os métodos de prevenção. A ação mobilizou direta e indiretamente cerca de 23 mil pessoas.

A presença dos serviços de saúde reafirmou que a celebração do orgulho também é uma forma de cuidar de si, conhecer seus direitos e encontrar acolhimento sem qualquer brecha para julgamentos. Afinal, a força da prevenção é potencializada quando ela está perto das pessoas, quando respeita suas vivências e individualidades e reconhece que saúde, dignidade e orgulho andam juntas.

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