Durante a 39ª Cúpula da União Africana, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) instou líderes africanos a permanecerem unidos na resposta ao HIV, manterem o tema como prioridade política e avançarem em direção a um financiamento sustentável para a saúde e o desenvolvimento. O apelo ocorre em um momento considerado decisivo para o futuro da resposta à epidemia no continente, que concentra a maior parte dos casos globais.
Segundo a diretora executiva da agência, Winnie Byanyima, a continuidade da liderança africana será determinante para consolidar os avanços já conquistados e acelerar o fim da aids como ameaça à saúde pública.
“A aids não acabou na África e a continuidade da liderança africana é essencial”, afirmou. “Agora é o momento de elevarmos nossas ambições, salvaguardarmos nossas conquistas e garantirmos que a África lidere a agenda global para um futuro de saúde sustentável e soberano.”
Avanços expressivos, mas desafios persistentes
Os dados mais recentes mostram avanços significativos na resposta ao HIV no continente. Em 2024, 82% das pessoas vivendo com HIV na África estavam em tratamento que salva vidas — um crescimento expressivo em relação aos 45% registrados dez anos antes. As novas infecções por HIV foram reduzidas em 71% desde o pico da epidemia em 1994, enquanto as mortes relacionadas à aids caíram 75% desde o auge registrado em 2004.
Apesar do progresso, a epidemia segue com forte impacto. Em 2024, cerca de 26,5 milhões de pessoas viviam com HIV na África, o equivalente a 65% do total global. Desse contingente, 4,8 milhões ainda não tinham acesso à terapia antirretroviral. No mesmo ano, o continente registrou 390 mil mortes relacionadas à aids, representando mais de 60% das mortes por aids em todo o mundo.
Os números evidenciam que, embora os avanços sejam relevantes, ainda há lacunas críticas no acesso ao tratamento, na prevenção e no fortalecimento dos sistemas de saúde.

Soberania em saúde e cooperação global
A cúpula ocorreu em um contexto de fortalecimento da agenda africana de soberania sanitária e busca por uma cooperação internacional mais equitativa. Entre as iniciativas destacadas estão o Accra Reset, a Agenda de Lusaka e o Roteiro da União Africana para 2030, estratégias voltadas ao fortalecimento da autonomia do continente na área da saúde.
O Unaids enfatizou que a sustentabilidade da resposta ao HIV deve estar integrada a essa agenda mais ampla, com foco na construção de sistemas de saúde resilientes, centrados na comunidade e capazes de responder de forma duradoura à epidemia.
Pressões financeiras e dependência externa
Um dos principais desafios apontados é o cenário econômico enfrentado pelos países africanos. Em muitos casos, os pagamentos da dívida pública superam os investimentos em saúde, enquanto a arrecadação de receitas permanece estagnada em menos de 16% do Produto Interno Bruto há mais de uma década.
Segundo o Unaids, alcançar a soberania em saúde exigirá medidas estruturais, como alívio da dívida, combate à sonegação fiscal, aumento da arrecadação doméstica e ampliação do acesso a financiamento com condições favoráveis.
A dependência de recursos externos continua elevada. Em 2024, cerca de 77% do financiamento da resposta ao HIV na África veio de fontes internacionais. Mudanças recentes no cenário global de financiamento provocaram lacunas importantes, especialmente em programas de prevenção e nos sistemas comunitários de saúde, que historicamente dependem mais de apoio externo.
Essa situação persiste mesmo com a retomada parcial do financiamento do maior doador da resposta ao HIV no continente, os Estados Unidos.

Estratégia de sustentabilidade e transição
A estratégia do Unaids para a sustentabilidade da resposta ao HIV inclui a transformação das políticas de combate à epidemia e o apoio aos países em seus processos de transição para modelos mais autossuficientes. Entre as prioridades estão a articulação entre parceiros, o fortalecimento da produção de dados e evidências, a integração da resposta ao HIV aos sistemas nacionais de saúde e a ampliação da participação comunitária.
Atualmente, 22 países africanos, com apoio do Unaids e de parceiros internacionais, desenvolvem planos de sustentabilidade e transição para garantir respostas ao HIV cada vez mais independentes após 2030. Esses planos incluem maior investimento interno e integração acelerada aos sistemas nacionais de saúde.
Sinais de compromisso político já começam a surgir. Onze países africanos relataram aumento em seus orçamentos nacionais destinados ao HIV em 2026, indicando um movimento em direção à sustentabilidade financeira de longo prazo.
Multilateralismo e agenda global
O Unaids destaca que o multilateralismo e a solidariedade internacional têm sido fundamentais para o progresso no combate ao HIV. Nesse contexto, a Reunião de Alto Nível da Assembleia Geral das Nações Unidas sobre HIV/Aids, prevista para 2026, é vista como uma oportunidade estratégica para estabelecer novos compromissos globais ambiciosos para os próximos cinco anos.
A agência avalia que uma posição africana comum forte será essencial para influenciar a agenda global e garantir que as prioridades do continente estejam refletidas na Declaração Política sobre Aids de 2026.
O documento deverá se basear na Estratégia Global de Aids 2026–2031, adotada pelo Conselho de Coordenação do Programa do Unaids em dezembro de 2025. A estratégia foi elaborada com contribuições de governos, comunidades, organismos regionais e representantes do setor privado, com foco na aceleração do fim da epidemia como ameaça à saúde pública.
Redação da Agência de Notícias da Aids




