Relatório da ONU mostra avanços históricos no tratamento, mas aponta queda de financiamento, aumento das desigualdades e metas distantes como ameaças ao fim da epidemia até 2030
Às vésperas da Reunião de Alto Nível da Assembleia Geral das Nações Unidas sobre HIV/Aids, marcada para os dias 22 e 23 de junho, em Nova York, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) lançou um alerta contundente à comunidade internacional: a aids ainda não acabou e décadas de avanços na resposta global ao HIV podem estar em risco.
A advertência está no mais recente relatório do secretário-geral da ONU, António Guterres, divulgado na última semana. O documento reconhece conquistas históricas no enfrentamento da epidemia, mas aponta que a combinação entre redução do financiamento internacional, crises humanitárias, endividamento dos países e retrocessos nos direitos humanos ameaça comprometer os resultados alcançados.
“A resposta global ao HIV está em um momento crítico. Os progressos são reais e mensuráveis, mas estão cada vez mais vulneráveis à convergência de crises”, afirma Guterres no relatório.
Segundo o documento, 31,6 milhões das 40,8 milhões de pessoas vivendo com HIV no mundo estavam em tratamento antirretroviral em 2024 — o maior número já registrado. No mesmo período, as mortes relacionadas à aids caíram 54% em comparação com 2010, atingindo o nível mais baixo desde o início da década de 1990.
Para o secretário-geral da ONU, os resultados demonstram que o fim da aids como ameaça à saúde pública é possível, desde que haja compromisso político e investimentos sustentados.
África lidera avanços globais
O relatório destaca especialmente os avanços obtidos na África Oriental e Austral, região que concentra a maior parte das pessoas vivendo com HIV no planeta. Sete países já alcançaram as metas globais de diagnóstico e tratamento conhecidas como 95-95-95, estabelecidas pelo Unaids.
As metas preveem que 95% das pessoas vivendo com HIV conheçam seu diagnóstico, que 95% das diagnosticadas estejam em tratamento e que 95% das pessoas em tratamento tenham carga viral suprimida.
Para a diretora-executiva do Unaids, Winnie Byanyima, os resultados comprovam a eficácia das estratégias baseadas em liderança política, participação comunitária e financiamento adequado.
“Essas conquistas são um testemunho brilhante do progresso rumo ao fim da aids quando liderança política, ação comunitária e investimento contínuo se unem”, afirmou.
Metas de 2025 estão longe de serem alcançadas
Apesar dos avanços, o relatório mostra que o mundo permanece distante dos compromissos assumidos na Declaração Política sobre HIV/aids de 2021.
Atualmente, cerca de 9,2 milhões de pessoas ainda não têm acesso ao tratamento. Em 2024, aproximadamente 630 mil pessoas morreram de doenças relacionadas à aids — mais que o dobro da meta global de 250 mil mortes estabelecida para 2025.
As novas infecções também permanecem em níveis preocupantes. No ano passado, 1,3 milhão de pessoas adquiriram HIV, número 3,5 vezes superior à meta de 370 mil novas infecções prevista para este ano.
O documento revela ainda profundas desigualdades regionais. Enquanto algumas regiões avançam rapidamente, outras registram crescimento da epidemia.
O Oriente Médio e o Norte da África apresentaram aumento de 94% nas novas infecções desde 2010. Tendência semelhante é observada na América Latina, bem como no Leste Europeu e na Ásia Central.
Desigualdades continuam alimentando a epidemia
O relatório enfatiza que as desigualdades sociais e de gênero seguem sendo fatores centrais na manutenção da transmissão do HIV.
Na África Subsaariana, adolescentes e jovens mulheres continuam adquirindo HIV em taxas três a quatro vezes superiores às observadas entre homens da mesma faixa etária.
Fora da África Subsaariana, populações-chave — como homens gays e outros homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, profissionais do sexo, pessoas que usam drogas e pessoas privadas de liberdade — juntamente com seus parceiros, respondem por 74% das novas infecções registradas.
Para o Unaids, enfrentar o estigma, a discriminação e as barreiras legais continua sendo uma condição indispensável para acelerar os resultados.
Financiamento em queda ameaça milhões de vidas
Um dos principais alertas do relatório refere-se à redução dos recursos internacionais destinados à saúde e à resposta ao HIV.
Segundo as projeções apresentadas, o financiamento externo para programas de saúde poderá cair até 40% nos próximos anos. Os serviços mais vulneráveis são justamente aqueles voltados à prevenção do HIV e às iniciativas lideradas por organizações comunitárias.
Em algumas regiões, a dependência de recursos internacionais continua extremamente elevada. Na África Ocidental e Central, por exemplo, 90% do financiamento para tratamento do HIV provém de doadores externos. Já os programas de prevenção na África Subsaariana dependem de aproximadamente 80% de financiamento internacional.
“Sem medidas urgentes para colmatar o défice de financiamento, milhões de vidas estão em risco”, alertou Winnie Byanyima.
“Não podemos permitir que choques financeiros, represálias contra os direitos humanos ou retrocessos políticos revertam décadas de progresso.”
Novas tecnologias ampliam possibilidades de prevenção
Apesar dos desafios, o relatório identifica oportunidades importantes para acelerar a resposta global.
Entre elas estão as novas tecnologias de prevenção de longa duração, incluindo medicamentos injetáveis que podem ampliar significativamente a proteção contra o HIV. Segundo o documento, versões genéricas desses produtos já estão em desenvolvimento e poderão custar cerca de US$ 40 por pessoa ao ano.
No entanto, o Unaids ressalta que a implementação dessas ferramentas ainda ocorre de forma lenta e desigual.
O relatório também reforça a importância das organizações comunitárias, consideradas fundamentais para ampliar o acesso ao diagnóstico, fortalecer a adesão ao tratamento e alcançar a supressão viral.
Mais de 30 países já estão desenvolvendo, em parceria com o Unaids, planos nacionais de sustentabilidade para fortalecer o financiamento doméstico e reduzir a dependência de recursos externos.
“Acabar com a aids é uma escolha política”
Diante desse cenário, António Guterres conclama os Estados-membros da ONU a aprovarem uma nova e ambiciosa Declaração Política sobre HIV/Aids durante a Reunião de Alto Nível deste mês.
As novas metas deverão orientar a resposta global até 2030, prazo estabelecido pelas Nações Unidas para eliminar a aids como ameaça à saúde pública.
“O caminho para acabar com a aids até 2030 existe e permanece aberto”, afirma Guterres. “Mas só se agirmos em conjunto.”
O Unaids pede que os governos reforcem os investimentos em prevenção, tratamento e serviços comunitários, ampliem os recursos nacionais destinados ao HIV, eliminem leis e políticas punitivas que dificultam o acesso aos serviços de saúde e garantam acesso equitativo às inovações científicas.
Para Winnie Byanyima, o sucesso da resposta global dependerá, sobretudo, de decisões políticas tomadas agora.
“Acabar com a aids é uma escolha política. Com coragem, solidariedade e investimento, podemos concluir essa tarefa.”
Redação da Agência de Notícias da Aids




