Unaids abre reunião decisiva sobre HIV/aids sob alerta de retrocessos globais e pressiona países a renovarem compromissos para acabar com a epidemia até 2030

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Cortes históricos no financiamento internacional, ameaças aos direitos humanos e enfraquecimento de programas de prevenção colocam em risco décadas de avanços na resposta global ao HIV, adverte o Unaids

A Reunião de Alto Nível das Nações Unidas sobre HIV/aids começou nesta segunda-feira (22) em meio a um dos momentos mais delicados da resposta global à epidemia nas últimas décadas. Enquanto chefes de Estado, representantes diplomáticos, organizações da sociedade civil e lideranças comunitárias se reúnem em Nova York para negociar uma nova Declaração Política da ONU sobre HIV/Aids, o Unaids faz um apelo contundente para que os países renovem seus compromissos políticos e financeiros em direção à meta de acabar com a aids como ameaça à saúde pública até 2030.

O encontro ocorre em um cenário marcado por contrastes. De um lado, a comunidade internacional acumula conquistas históricas que, há poucos anos, pareciam inalcançáveis: milhões de vidas salvas, forte expansão do acesso ao tratamento antirretroviral e redução significativa das novas infecções e das mortes relacionadas à aids. De outro, os avanços enfrentam crescente risco de reversão diante da redução sem precedentes dos recursos internacionais destinados à saúde global e do aumento das violações de direitos humanos que afetam populações vulnerabilizadas.

A reunião de 2026 é considerada estratégica por ser a última grande negociação política global antes do prazo estabelecido pela comunidade internacional para eliminar a aids como ameaça à saúde pública.

Décadas de progresso sob ameaça

Dados divulgados pelo Unaids às vésperas do encontro mostram que os investimentos realizados ao longo dos últimos anos produziram resultados expressivos. Desde 2010, as mortes relacionadas à AIDS caíram 56% em todo o mundo, enquanto as novas infecções por HIV diminuíram 43%.

O acesso ao tratamento também avançou significativamente. Atualmente, 32,1 milhões de pessoas — o equivalente a 78% dos 40,9 milhões de pessoas que vivem com HIV no planeta — estão em tratamento.

Para a Diretora Executiva do Unaids, Winnie Byanyima, os resultados demonstram que o fim da aids é uma meta alcançável, desde que os compromissos assumidos sejam mantidos e fortalecidos. “Esta Declaração Política é a nossa oportunidade de consolidar 25 anos de compromisso e apontar o caminho para 2030, demonstrando que o multilateralismo pode alcançar resultados”, afirmou.

Segundo Byanyima, a resposta global depende de uma combinação de fatores já conhecidos pela comunidade internacional.

“Não podemos falhar, porque sabemos o que devemos fazer: comprometer-nos com o multilateralismo; manter o financiamento internacional enquanto os países mobilizam os seus próprios recursos; proteger os direitos das pessoas que vivem com HIV; permitir que as comunidades liderem em prol do seu povo; e impulsionar a ciência, para que as inovações cheguem a todos os que precisam o mais rapidamente possível. Se fizermos tudo isso, podemos acabar com a aids.”

Queda recorde da ajuda internacional acende sinal de alerta

Apesar dos avanços acumulados, o Unaids alerta que a resposta global permanece extremamente vulnerável. Quase 9 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda não têm acesso ao tratamento. Ao mesmo tempo, o financiamento internacional atravessa uma crise sem precedentes.

Em 2025, a ajuda global ao desenvolvimento registrou uma queda de 23%, a maior já documentada. Segundo a agência da ONU, a redução dos recursos já começa a produzir efeitos concretos sobre programas essenciais de prevenção, diagnóstico e cuidado.

Entre 2024 e 2025, os programas de testagem para HIV sofreram redução de 22% em regiões de alta prevalência da infecção. Em alguns países, o financiamento destinado à distribuição de preservativos foi reduzido em mais de 90%.

O Unaids adverte que, sem a manutenção dos investimentos, o mundo poderá enfrentar interrupções nos tratamentos, aumento de novas infecções e crescimento das mortes relacionadas à aids.

ONU destaca resposta ao HIV como exemplo de cooperação internacional

Durante a abertura do encontro, lideranças das Nações Unidas destacaram que a trajetória da resposta ao HIV representa uma das maiores demonstrações de cooperação internacional da história recente.

A Presidente da Assembleia Geral da ONU, Annalena Baerbock, ressaltou que os resultados alcançados transcendem o campo específico da aids. “A resposta multilateral global ao HIV tornou-se não apenas uma das maiores histórias de sucesso das Nações Unidas, mas também uma das conquistas mais notáveis da história da saúde pública global.”

Segundo ela, as lições aprendidas no enfrentamento da epidemia servem de referência para outras emergências sanitárias. “Ela fornece um modelo para enfrentar outras emergências globais de saúde, do Ebola à Covid-19.”

Na mesma linha, a Secretária-Geral Adjunta das Nações Unidas, Amina Mohammed, que discursou em nome do Secretário-Geral da ONU, enfatizou a necessidade de preservar a cooperação internacional diante do cenário de incertezas.

“Esta reunião é uma oportunidade para demonstrar que, mesmo em tempos difíceis, a comunidade internacional pode se unir, mais uma vez, em torno da ciência, da dignidade humana, da solidariedade e da responsabilidade compartilhada.”

Ela reforçou que o compromisso com a meta de 2030 exige ação imediata. “A responsabilidade de acabar com a aids como uma ameaça à saúde pública até 2030 pertence a cada um de nós. Vamos avançar juntos — com senso de urgência, com solidariedade e com ambição.”

Populações-chave enfrentam aumento das barreiras de acesso

Outro ponto de preocupação destacado pelo Unaids é o impacto dos cortes financeiros sobre programas comunitários e iniciativas de prevenção direcionadas às populações mais vulneráveis à infecção pelo HIV.

Segundo a agência, os recentes cortes promovidos por diversos doadores internacionais afetaram severamente serviços comunitários e ações de prevenção. Paralelamente, cresce a criminalização de populações-chave, tendência observada pela primeira vez desde que o Unaids passou a monitorar esse indicador.

O resultado é o agravamento das dificuldades de acesso a serviços essenciais para grupos historicamente mais expostos ao HIV, incluindo mulheres e meninas jovens, homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e pessoas que usam drogas injetáveis.

Para Keren Dunaway, representante da Comunidade Internacional de Mulheres Vivendo com HIV, o momento exige uma resposta política firme para evitar retrocessos. “O progresso é real, mas frágil. Sem compromissos e ações renovadas, corremos o risco de um ressurgimento da epidemia.”

Ela alertou para o enfraquecimento de políticas fundamentais para a resposta global. “Os serviços liderados pela comunidade estão desaparecendo e os programas de prevenção estão sendo reduzidos. Em muitas partes do mundo, os compromissos com a igualdade de gênero, a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos e a inclusão de populações-chave estão sendo enfraquecidos.”

Dunaway destacou ainda que as conquistas obtidas nas últimas décadas foram resultado de intensa mobilização social. “Essas conquistas não nos foram dadas de bandeja. Foram obtidas por meio de décadas de luta. O futuro da resposta dependerá das escolhas que fizermos nesta sala.”

Financiamento doméstico cresce, mas não substitui solidariedade global

Apesar das dificuldades, o Unaids identifica oportunidades para manter a trajetória de progresso. O financiamento doméstico destinado ao HIV aumentou significativamente nos últimos anos, passando de 28% do total dos recursos em 2010 para 52% em 2024. Ainda assim, a agência ressalta que os investimentos nacionais não conseguem substituir integralmente os recursos provenientes da cooperação internacional.

A organização também destaca iniciativas regionais que buscam fortalecer a sustentabilidade das respostas nacionais, como o Accra Reset e o Roteiro da União Africana para 2030, apontados como exemplos de uma nova abordagem para o desenvolvimento e a cooperação internacional.

Outro fator considerado decisivo é o avanço científico. Novas tecnologias de prevenção, especialmente os medicamentos de longa duração para prevenção do HIV, surgem como ferramentas com potencial para acelerar significativamente a redução das infecções. No entanto, especialistas alertam que os benefícios só serão plenamente alcançados se houver implementação em larga escala, ampliação do acesso e fortalecimento da produção regional.

“Não é hora de desistir”

A ativista histórica Sandra Thurman encerrou sua mensagem com um apelo para que governos e organismos internacionais mantenham a mobilização diante do que considera um momento decisivo para a história da epidemia. “Assim como uma geração anterior transformou a crise em ação, devemos transformar a incerteza de hoje no progresso de amanhã.”

Segundo ela, a proximidade da meta de 2030 exige coragem política para preservar os avanços conquistados. “As gerações futuras nos julgarão pela nossa capacidade de, quando a linha de chegada finalmente estivesse à vista, termos nos esforçado ao máximo e encontrado a coragem para cruzá-la.”

E concluiu: “O mundo já percorreu um longo caminho. Os riscos são muito altos. E a oportunidade é imensa. Agora não é hora de desistir. É hora de terminar o trabalho.”

Declaração definirá rumos da resposta global até 2030

A Reunião de Alto Nível sobre HIV/Aids acontece entre os dias 22 e 23 de junho na sede das Nações Unidas, em Nova York. Ao final do encontro, os Estados-membros deverão analisar e adotar uma nova Declaração Política sobre HIV e Aids, documento que orientará a resposta global pelos próximos cinco anos.

A expectativa é que o texto incorpore novas metas globais para 2030, alinhadas à Estratégia Global de Aids 2026-2031, reafirmando o compromisso internacional de eliminar a aids como ameaça à saúde pública até o fim da década.

Para o Unaids, o encontro representa mais do que uma negociação diplomática. Trata-se de uma decisão sobre o futuro de uma das maiores mobilizações de saúde pública da história e sobre a capacidade do mundo de preservar conquistas que levaram décadas para serem construídas.

Redação da Agência Aids com informações do Unaids

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