Uma única infusão de células imunes pode suprimir o HIV por quase 2 anos, sugere estudo preliminar – The New York Times

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Uma pesquisa com um pequeno número de pacientes, que será apresentado nesta semana nos EUA, mostrou resultados promissores para um tipo de terapia que já curou alguns cânceres do sangue

Há cerca de uma década, cientistas têm obtido resultados notáveis na cura de alguns tipos de câncer no sangue ao modificar as próprias células imunes dos pacientes para que elas reconheçam e matem as células malignas.

Essa mesma abordagem pode ajudar a controlar o HIV, um dos vírus mais ardilosos que existem, segundo dados que cientistas apresentarão na terça-feira, 12, nos Estados Unidos. Após uma única infusão de células imunes modificadas para reconhecer o vírus, duas pessoas em um novo estudo conseguiram suprimir o HIV a níveis indetectáveis, uma delas por quase dois anos.

Os dados estão programados para serem apresentados em uma conferência de terapia gênica em Boston, mas os pesquisadores compartilharam uma cópia antecipada com o jornal The New York Times.

O tratamento ainda está a anos, talvez décadas, de se tornar amplamente disponível, mas o estudo oferece o que cientistas chamam de “prova de conceito” e a esperança promissora de que uma única aplicação possa, um dia, oferecer alívio vitalício contra o HIV.

“É uma inspiração e um possível mapa do caminho para chegarmos aonde precisamos”, disse Steve Deeks, especialista em HIV da Universidade da Califórnia em San Francisco, que liderou o ensaio clínico.

Outros cientistas se mostraram entusiasmados com o marco.

“É realmente impressionante que eles tenham conseguido fazer isso”, disse Hans-Peter Kiem, oncologista e especialista em terapia gênica do Fred Hutchinson Cancer Center, em Seattle, que não participou do estudo.

O HIV exige controle ao longo de toda a vida porque o vírus se esconde em regiões profundas do corpo e volta com força quando encontra uma oportunidade. Ele também sofre mutações com facilidade para escapar de quem que o ataca.

Mais de 40 milhões de pessoas vivem com HIV no mundo. Cerca de três quartos delas tomam comprimidos orais diariamente para manter o vírus sob controle, e uma proporção muito menor recebe hoje injeções a cada um ou dois meses. Várias empresas estão desenvolvendo opções de ação mais prolongada, incluindo comprimidos semanais e mensais, além de injeções que poderiam ser aplicadas apenas uma vez por ano.

Mas os cientistas ainda buscam desenvolver “curas funcionais” que controlem efetivamente o HIV ao longo da vida, mesmo que não eliminem o vírus.

“As pessoas estão realmente trabalhando duro para tentar curá-lo, e estamos avançando”, disse James Riley, imunologista da Universidade da Pensilvânia que também está modificando células imunes para controlar o HIV.

Desde os anos 1990, muitos cientistas tentaram modificar células imunes chamadas células T para atacar o HIV, mas esses esforços foram, em sua maioria, mal-sucedidos. Algumas equipes de pesquisa perderam o interesse depois da chegada, pouco tempo depois, de medicamentos antirretrovirais potentes.

Pesquisadores do câncer seguiram em frente e tiveram sucesso ao usar a abordagem contra cânceres do sangue, como a leucemia.

“O câncer provavelmente sempre será o pioneiro nesse tipo de coisa, por causa da enorme necessidade médica não atendida”, disse Riley.

No novo estudo, cientistas da Caring Cross, uma organização sem fins lucrativos voltada ao desenvolvimento de imunoterapias acessíveis, modificaram células imunes de cada participante para que elas carregassem duas moléculas na superfície celular. Ambas se ligam ao HIV e matam células infectadas, mas uma delas também impede que as células imunes sejam infectadas.

“É essa natureza dupla do alvo, matar e proteger, que acreditamos ser a peça que faltava para explicar como essa terapia funciona”, disse Boro Dropulić, diretor executivo da Caring Cross, que desenvolveu o método.

Os pesquisadores extraíram células imunes de cada participante, modificaram essas células e depois as injetaram de volta. Os participantes pararam de tomar os antirretrovirais no dia da infusão.

Quando uma pessoa não toma antirretrovirais, seus níveis de HIV geralmente disparam em até duas semanas. Mas uma pessoa no ensaio suprimiu parcialmente o vírus por 12 semanas antes de a carga viral voltar a subir. Outras duas ainda estavam em remissão 92 e 48 semanas após a infusão.

Todas as três haviam começado a receber terapia antirretroviral poucos meses depois de terem sido infectadas. Outras três pessoas, que viveram por mais tempo com HIV antes de receber tratamento, não responderam e precisaram retomar a terapia antirretroviral. Um sétimo participante mostrou sinais de controle sete semanas após a infusão.

Esses detalhes podem ser importantes. Pessoas tratadas precocemente na infecção podem ter menos HIV escondido no corpo. Seu sistema imune também pode ter sido menos devastado pelo vírus e, portanto, ser mais capaz de reagir quando recebe a infusão das células modificadas.

“Três de três pessoas com doença inicial apresentando algum grau de controle é, para mim, o achado mais provocativo aqui”, disse Deeks.

As duas pessoas com resposta de longo prazo tiveram alguns pequenos episódios de replicação viral, que rapidamente diminuíram. Isso é esperado quando o HIV emerge de seus reservatórios e é combatido pelas células imunes.

Ainda assim, os resultados foram empolgantes, disseram vários especialistas.

Os números do estudo são muito pequenos, mas “esses casos de n igual a 1 são tão poderosos porque incentivam mais pesquisas”, disse Mike McCune, chefe de uma divisão da Fundação Gates que apoia inovação em HIV.

“Para nós, o importante é garantir que possamos sair de um n igual a 1 para um n de 1 milhão ou mais”, disse ele. “E a única forma de fazer isso é envolver empresas que saibam como fabricar produtos.”

A fundação não investiu em trabalhos que envolvem retirar células imunes e reinfundi-las no mesmo indivíduo. Essa abordagem é invasiva e cara demais para alcançar os milhões que precisarão dela, disse McCune. Mas a fundação está buscando ativamente opções escaláveis.

Pesquisadores do câncer já estão demonstrando sucesso ao alterar células imunes enquanto elas ainda estão dentro do corpo, o que deve, no futuro, baratear o processo em ordens de magnitude.

As injeções diretas poderiam ser produzidas “por menos de US$ 10 mil e, depois, ficar prontas para uso, ou seja, disponíveis quando um paciente ou pessoa vivendo com HIV chega”, disse Kiem.

Outros grupos estão trabalhando em anticorpos amplamente neutralizantes, moléculas raras capazes de desativar uma ampla variedade de versões do HIV ao mirar partes do vírus que não sofrem mutações.

“Se conseguirmos combinar essas duas abordagens, isso pode realmente ser sinérgico e oferecer um caminho para entregar algo próximo de uma cura funcional de longo prazo”, disse Riley.

Antecipando as necessidades de longo prazo, a Caring Cross está trabalhando com organizações no Brasil, na Índia e em outros países para fabricar produtos contra o câncer a custos muito mais baixos. A equipe também está refinando as ferramentas e a abordagem para o HIV e planeja iniciar um estudo maior ainda este ano.

“Esta é uma abordagem feita pela primeira vez em humanos”, disse Deeks. “Muitas vezes criamos novas teorias à medida que avançamos, e é isso que está acontecendo neste momento.”

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