“Minha preocupação é com a exclusão”: uma das últimas entrevistas de Paulo Roberto Teixeira

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O jornalista Paulo Lyra trabalhou em diferentes órgãos de imprensa brasileiros e organizações internacionais como a OPAS e o WWF. Paulo, conversou com o Dr. Paulo Roberto Teixeira  no início de agosto deste ano.  “Dr. Paulo nunca perdeu o espírito de equidade, foi o que mais me marcou no diálogo com ele”. Acompanhe o diálogo do jornalista com o médico Paulo Roberto Teixeira.

No dia 5 de agosto, entrevistei por quase cinquenta minutos o médico sanitarista Paulo Roberto Teixeira para uma reportagem mais ampla sobre a epidemia de aids no Brasil e no mundo, ainda inédita. Paulo morreu no último sábado, 19 de setembro, aos 77 anos. Foi provavelmente uma de suas últimas entrevistas longas.

Quando fiz o primeiro contato, Paulo disse que tinha interesse em dar a entrevista, mas que precisava esperar até estar melhor de saúde. Vários amigos e antigos colegas me incentivaram a insistir. Quando se sentiu melhor, ele próprio propôs uma data para conversarmos, por coincidência exatamente um mês depois do meu primeiro contato. Conversamos apenas por áudio. Falava com clareza e conservava a mesma determinação com que eu o havia conhecido anos antes.

Paulo Teixeira foi um dos personagens centrais da resposta brasileira à aids. Participou, em São Paulo, da criação da primeira resposta governamental à epidemia, em 1983, dirigiu os programas estadual e nacional de aids e, mais tarde, o Departamento de HIV/Aids da Organização Mundial da Saúde. Foi também uma das vozes brasileiras na defesa internacional do acesso universal aos medicamentos contra o HIV.

Na conversa de agosto, porém, ele estava menos interessado em falar do passado do que ainda faltava fazer.

“Minha preocupação é com a exclusão”, disse.

Falávamos das novas formas de prevenção do HIV, entre elas os medicamentos injetáveis de longa duração. Paulo não via problema na crescente medicalização da prevenção. O problema, para ele, era outro: uma tecnologia pode existir e ainda assim não chegar às pessoas que mais precisam dela.

Deu como exemplo as quase 1 milhão de pessoas que vivem em favelas na cidade de São Paulo. Defendeu unidades móveis, testes rápidos e a presença dos serviços de saúde dentro das comunidades.

“É necessário sair dos serviços e ir à cidade. É preciso dar acesso”, disse. Para isso, acrescentou, era necessário “um pouco de coragem, um pouco de ousadia”.

Essa preocupação atravessava também a maneira como Paulo recordava sua passagem pela Organização Mundial da Saúde. Quando lhe perguntei se havia sido chamado para recuperar a importância e a liderança do programa de aids da OMS, ele me corrigiu: “A palavra é credibilidade.”

Para ele, recuperar essa credibilidade significava aproximar a organização dos países atingidos pela epidemia. Contou que havia viajado a 88 países e resumiu sua visão com uma pergunta: “O que essa pessoa está fazendo aqui, se a epidemia está lá?” Disse que esperava um dia chegar à sede da OMS e encontrar as salas vazias.

Paulo também falou com satisfação da projeção internacional alcançada pelo Brasil. Lembrou o impacto de “Look at Brazil”, a reportagem de Tina Rosenberg publicada em 2001 pela revista do New York Times, e recordou a pressão exercida sobre a indústria farmacêutica para reduzir o preço dos antirretrovirais. Para ele, aquela experiência continuava válida: “E essa regra vale para o futuro.”

Perto do fim da conversa, fiz uma pergunta que agora ganhou outro significado. Se pudesse voltar atrás, depois de todos os cargos que exercera no Brasil e no exterior, faria alguma coisa de maneira diferente?

“Não. Eu sou muito satisfeito com o caminho que percorri, com a contribuição que dei.”

Quando nos despedimos, Paulo ainda se colocou à disposição. Se durante a redação surgisse alguma questão que não tivéssemos tratado, pediu que eu ligasse: “Talvez possamos contribuir.”

Paulo Lyra, especial para a Agência de Notícias da Aids

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