Instituições não conseguiram que 60% de seus estudantes alcançassem nível mínimo de proficiência no Enamed; Entidades têm 30 dias para apresentar defesa; prova foi questionada na Justiça
Um total de 99 cursos de medicina pode ser punido por não alcançar a pontuação considerada satisfatória na primeira edição do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), divulgaram os ministérios da Educação (MEC) e da Saúde nesta segunda-feira (19).
Essas graduações são oferecidas por 93 instituições federais e privadas. No exame, elas não conseguiram que 60% dos seus estudantes concluintes no curso alcançassem a proficiência mínima na prova.
Esse montante representa um terço dos 304 cursos de medicina regulados pelo MEC que participaram do exame, criado pelo governo Lula em abril do ano passado.
No total, 351 cursos participaram do Enamed —o que inclui também instituições não sujeitas a sanção do ministério, como as estaduais e municipais. Desses, 107, ou 30%, ficaram com desempenho considerado insuficiente.
O ministério entende que, por essa ser a primeira vez que o exame é aplicado, as punições, que valem até a próxima edição, serão gradativas. Vão de suspensão de ingresso no curso, nos casos mais graves (um total de oito casos), até proibição no aumento de vagas ofertadas.
A sanção não é automática. Agora é aberto um processo administrativo no qual os cursos têm 30 dias para apresentar suas defesas e tentar justificar o desempenho, antes de sofrer a medida cautelar.
“Nós queremos que a instituição [com nota baixa] corrija o que precisa ser corrigido e melhore”, disse o ministro da Educação, Camilo Santana.
Os ministérios também pretendem apresentar um projeto de lei ao Congresso Nacional para que o resultado do Enamed conste nos diplomas dos estudantes.
O Enamed foi criado pelo MEC para avaliar a qualidade na formação de médicos do Brasil, é obrigatório para todos os estudantes do último ano e será anual. Ele é de responsabilidade do Inep, órgão ligado ao ministério e responsável por avaliações educacionais.
O resultado também serve para o Enare (Exame Nacional de Residência).
A escala do Enamed vai de 1 a 5 e reflete o grau de proficiência dos alunos concluintes dos cursos de medicina. Cada faixa é definida pelo percentual de estudantes que alcançaram nível de proficiência na prova considerado adequado —essa nota de corte é definida pelo Inep com base em cálculo estatístico a partir das respostas dos estudantes.
A prova é composta de 100 questões objetivas de múltipla escolha e busca abranger todas as áreas previstas nos currículos dos cursos de medicina, que são: clínica geral, cirurgia geral, ginecologia e obstetrícia, pediatria, medicina da família e comunidade, saúde mental, e saúde coletiva.
Pela regra do Enamed, cursos de medicina que tiverem conceito 1 ou 2 são considerados sem proficiência mínima e podem ser proibidos de abrir novas vagas, formalizar contratos de financiamento via Fies ou de bolsas do Prouni ou até serem desativados —apenas em casos mais extremos.
São classificados com nível 1 e 2 no Enamed cursos em que menos de 60% dos estudantes alcançaram proficiência mínima.
O exame também é uma resposta a um projeto de lei que tramita no Congresso Nacional e quer criar uma espécie de OAB da área, com avaliação própria não vinculada ao ministério, e sim ao CFM (Conselho Federal de Medicina).
Para o presidente da entidade, José Hiran Gallo, o resultado do Enamed “é assustador”. “São 13.871 graduados em medicina que receberão diploma e registro para atender a população sem terem competências mínimas para exercer a medicina. Isso é assustador e coloca em risco a saúde e a segurança de milhões de brasileiros”, afirma Gallo.
Para o CFM, os dados mostram que a expansão acelerada de cursos, especialmente no setor privado, não foi acompanhada de critérios mínimos de qualidade, infraestrutura e campo de prática adequados. Das 24 faculdades de medicina que tiraram nota 1, são 17 particulares. Já entre aquelas 83 que atingiram o conceito 2, são 72 privadas.
Faculdades criticam divulgação e contestam dados
A realização do Enamed causou polêmica no setor educacional e foi questionada na Justiça. A Anup (Associação Nacional das Universidades Particulares) tentou barrar a divulgação dos dados desta segunda, mas o Judiciário não aceitou o pedido.
Dentre outras coisas, a entidade questionou o tempo que as instituições de ensino tiveram para preparar os alunos para o teste. Também critica, por esse motivo, as possíveis punições que as universidades podem sofrer em razão de notas baixas, além de danos reputacionais.
O Enamed foi lançado pelo MEC em abril de 2025 e aplicado em outubro do mesmo ano.
Outra entidade que representa a rede particular, a Abmes (Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior) pede a suspensão imediata das punições anunciadas. “A adoção de sanções com base em um exame ainda imaturo expõe instituições consolidadas, estudantes e o próprio sistema de formação médica a um cenário de instabilidade regulatória, insegurança jurídica e ampliação da judicialização, impactos que recaem diretamente sobre o setor e, em última instância, sobre a oferta de profissionais de saúde no país”, diz a nota.
Sobre o pedido da Anup, o juiz Rafael Leite Paulo, do Distrito Federal, entendeu que se trata de uma informação de interesse pública e divulgá-la, por si só, não traz prejuízos.
“É direito das instituições questionarem, apesar que, repito, nós cumprimos todos os ritos legais [na elaboração do exame]”, disse Camilo.
Sobre os resultados divulgados nesta segunda, a Anup afirma, em nota, que “análises preliminares realizadas por instituições de todo o país indicam divergências entre os dados reportados como insumos em dezembro passado e os resultados divulgados nesta data”.
A Afya (grupo que reúne faculdades de medicina no Brasil) afirmou que o Ministério da Educação havia enviado às instituições de ensino os resultados do Enamed em dezembro de 2025, por meio de um sistema chamado e-Mec (sistema eletrônico do ensino superior), e que esses dados divergem dos divulgados nesta segunda.
Em nota, a entidade diz que os dados de dezembro foram retirados do ar.
“Os dados voltaram a ficar públicos [horas depois], mas divergentes dos números conhecidos pelos grupos de educação desde dezembro”, completou a entidade.
Resultado é pior nas municipais e nas particulares
A principal preocupação da pasta são as instituições municipais, que tiveram o pior desempenho no exame: 37,5% ficaram com nota 1 e 50%, 2. Na sequência, vêm as privadas com fins lucrativos — respectivamente 11,5% e 46,9%.
“Nós queremos que os cursos que são ofertados e cobram mensalidades dos alunos sejam de boa qualidade”, afirmou Camilo.
Por questões legais, o MEC só pode regular (e, portanto, sancionar) o ensino federal e as instituições privadas, e não as estaduais ou municipais, por exemplo.
A pasta estuda elaborar um projeto de lei para ampliar suas possibilidades de regulação também a essas outras esferas.
As federais foram as que mais conseguiram alcançar as notas 4 (61,3%) e 5 (26,3%).
As estaduais tiveram o maior percentual dentro da melhor categoria, 46,2%, o melhor resultado geral (86,6% de satisfatório) e não registraram nenhuma instituição com nota 1.
Mais de 89 mil pessoas fizeram o exame, 39 mil deles concluintes do curso. No geral, 75% conseguiram pelo menos nota 3.
A sanção aplicada não levará em conta apenas a nota, mas terá uma gradação de acordo com o percentual de proficiência que o curso alcançou no Enamed.
Todos os 21 cursos que ficaram com nota 1 terão proibição de aumento de vagas e suspensão no Fies, mas os 8 que alcançaram apenas 30% ou menos de proficiência também terão o ingresso neles suspenso. Os outros 13 (que ficaram entre 30% e 40%) sofrerão uma redução de 50% nas vagas.
O Enamed registrou 78 cursos regulados com nota 2. Dentre estes, os 33 que ficaram entre 40% e 50% de proficiência também não poderão aumentar vagas ou participar do Fies, mas a redução de vagas será de 25%.
Os 45 restantes (entre 50% e 60%) apenas não poderão aumentar sua oferta.
Com relação a cursos regulados pelo MEC, a maior parte (67%) ficou com desempenho satisfatório na classificação do MEC —75 deles com nota 3, outros 99 cursos com 4 e o conceito 5, máximo, foi alcançado por 30 cursos. Uma graduação ficou sem classificação.
Em quantidades absolutas, a maior parte dos estudantes (quase 30 mil) é de instituições privadas. 6.502 são de federais, 2.402, de estaduais e 944, de municipais.
As entidades estaduais tiveram melhor resultado geral, com 86,6% dos estudantes atingindo o patamar satisfatório: acima de 60% de proficiência, ou a partir da nota 3.
As federais vêm na sequência, com 83,1%, seguido das privadas sem fins lucrativos (70,1%) e das lucrativas (57,2%).
O pior resultado foi das municipais, com apenas 49,7% de seus estudantes atingindo o mínimo de proficiência para os padrões do MEC.



