Um ano após o início do novo governo de Donald Trump, especialistas em saúde pública, organismos internacionais e organizações humanitárias alertam para um cenário que parecia superado: o risco de retrocesso no combate global ao HIV/aids. Decisões políticas tomadas ao longo dos últimos doze meses pelos Estados Unidos — historicamente o principal financiador da saúde global — estão afetando diretamente programas de prevenção, tratamento e pesquisa, com impactos que já começam a ser sentidos em países de baixa e média renda.
O que antes era considerado um consenso internacional — o de que epidemias não reconhecem fronteiras e exigem cooperação global — passou a ser questionado por uma política externa marcada pelo isolamento, cortes de financiamento e desconfiança em relação a organismos multilaterais.
O desmonte da arquitetura global da saúde

Logo nos primeiros meses de mandato, o governo Trump formalizou a retirada dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde (OMS), encerrando uma parceria de quase oito décadas. A decisão retirou da entidade um de seus principais financiadores e enfraqueceu sua capacidade de coordenação em áreas estratégicas como vigilância epidemiológica, resposta a emergências sanitárias e programas de combate a doenças infecciosas.
Segundo o governo norte-americano, a decisão veio como represália pela atuação da OMS durante a pandemia de covid-19. A gestão de Donald Trump acusa o órgão internacional de fracassar no manejo da crise sanitária, recusar-se a implementar “reformas necessárias” e de não atuar com independência ou transparência.
A decisão foi interpretada por analistas como um gesto simbólico e prático de abandono da liderança global em saúde. Na prática, significou menos recursos, menos troca de dados e menor capacidade de resposta coletiva — um cenário particularmente grave para doenças crônicas e epidêmicas, como o HIV.
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que os motivos apresentados pelos Estados Unidos para anunciar sua retirada da agência são “falsos”.
Em publicação na rede social X, declarou: “Infelizmente, os motivos citados para a decisão dos Estados Unidos de se retirar da OMS são falsos”.
PEPFAR sob ameaça: o maior programa de combate à aids do mundo

Nenhuma política simboliza tanto o impacto das decisões do governo Trump quanto as mudanças no PEPFAR (Plano de Emergência do Presidente dos EUA para o Alívio da Aids). Criado em 2003, o programa é amplamente reconhecido como a iniciativa de saúde global mais bem-sucedida da história, responsável por salvar mais de 25 milhões de vidas e garantir tratamento antirretroviral contínuo a milhões de pessoas.
No entanto, no início de 2025, o governo anunciou uma suspensão temporária da ajuda externa, como parte de uma revisão geral dos gastos internacionais. Embora descrita como provisória, a medida teve efeitos imediatos: clínicas ficaram sem recursos, contratos com organizações locais foram interrompidos e cadeias de distribuição de medicamentos foram desorganizadas.
Em países da África Subsaariana — região que concentra a maior parte das pessoas vivendo com HIV no mundo — organizações relataram atrasos na entrega de antirretrovirais, suspensão de campanhas de testagem e redução de programas de prevenção voltados a jovens, mulheres e populações marginalizadas.
O impacto humano dos cortes
Para pessoas que vivem com HIV, a interrupção do tratamento não é apenas um contratempo administrativo — é uma ameaça direta à vida. A suspensão ou irregularidade no uso de antirretrovirais pode levar ao aumento da carga viral, à resistência aos medicamentos e à maior transmissibilidade do vírus.
Organizações humanitárias relatam que, em algumas regiões, pacientes foram orientados a reduzir doses ou aguardar reposição de medicamentos sem previsão clara. Serviços comunitários, fundamentais para alcançar populações vulneráveis, foram forçados a fechar ou operar de forma limitada.
O Programa Conjunto das Nações Unidas para o HIV/Aids (Unaids) alertou diversas vezes que essas interrupções, mesmo quando temporárias, podem anular anos de progresso e provocar um aumento sustentado de novas infecções e mortes relacionadas à aids nos próximos anos.
Pesquisa científica em risco

Além da assistência direta, a política do novo governo também afetou a pesquisa científica. Programas federais voltados ao desenvolvimento de vacinas contra o HIV e novas tecnologias de prevenção tiveram financiamento reduzido ou encerrado.
O impacto vai além da perda de recursos: há um atraso estrutural no desenvolvimento de soluções de longo prazo para uma epidemia que, apesar dos avanços, ainda não tem cura nem vacina eficaz amplamente disponível.
Ideologia, direitos e saúde
Outro eixo de preocupação é a ampliação de políticas que condicionam o financiamento internacional a critérios ideológicos, afetando organizações que trabalham com direitos reprodutivos, diversidade sexual e redução de danos. Essas entidades são, muitas vezes, as mesmas que atuam na linha de frente da prevenção do HIV entre populações mais expostas ao vírus.
Especialistas em saúde global destacam que excluir essas organizações da cooperação internacional não apenas enfraquece a resposta ao HIV, mas amplia desigualdades e dificulta o acesso de grupos historicamente marginalizados aos serviços de saúde.
“É difícil colocar em palavras a extensão do dano que está sendo causado ao empreendimento de pesquisa dos Estados Unidos, que é de valor quase incalculável tanto para a nação em si quanto para o mundo em geral”, diz um editorial da revista Nature, publicado em 25 de fevereiro de 2025. O texto faz duras críticas ao governo Trump e cobra apoio da comunidade internacional. “Um ataque à ciência e aos cientistas em qualquer lugar é um ataque à ciência e aos cientistas em todo lugar”, diz a publicação britânica.
O risco de um retrocesso histórico
Nas últimas duas décadas, o mundo assistiu a uma queda significativa nas mortes por aids e a uma ampliação do acesso ao tratamento. Esse avanço foi resultado direto de financiamento estável, cooperação internacional e políticas baseadas em evidências científicas.
Agora, organismos internacionais, como o Unaids, alertam que a combinação de cortes, isolamento diplomático e instabilidade nos programas pode levar a um cenário semelhante ao dos anos 1990, quando o HIV se espalhava sem controle em diversas regiões do planeta.
Um problema global, uma responsabilidade coletiva
A crise exposta no primeiro ano do novo governo Trump evidencia uma realidade incômoda: a saúde global depende, em grande medida, de decisões políticas tomadas longe das populações mais afetadas. Quando grandes financiadores recuam, os efeitos não são abstratos — eles se traduzem em tratamentos interrompidos, pesquisas paralisadas e vidas colocadas em risco.
Especialistas reforçam que epidemias não respeitam fronteiras nacionais e que o enfraquecimento da cooperação internacional torna o mundo menos preparado para enfrentar não apenas o HIV, mas futuras crises sanitárias.
Um ano após o início do novo governo Trump, o balanço na área da saúde global é marcado por incerteza e alerta. O desmonte de compromissos históricos, especialmente no combate ao HIV/aids, ameaça reverter décadas de progresso e expõe a fragilidade de uma arquitetura internacional dependente de vontade política.
Para milhões de pessoas vivendo com HIV, o impacto dessas decisões já não é uma projeção — é uma realidade em construção.
Redação da Agência de Notícias da Aids
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