UFMG oferece curso de teatro destinado a pessoas trans; inscrições estão abertas

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Pessoas cisgênero também são convidadas a participarem, mas metade das vagas é voltada para trans

Inscrições para oficina vão até o dia 12 de agosto - Foto: Arquivo pessoal/Dolly Piercing

Quando há convivência entre pessoas trans e cis, há crescimento. Essa é uma constatação feita pela atriz, drag e cantora, Dolly Trindade de Araújo, 46, após quatro edições de uma oficina de teatro da UFMG destinada a pessoas trans. Ela é criadora do Teatre: Processos Criativos em Artes Cênicas, que está com a inscrições abertas até sábado (12), e que destina 50% das vagas para pessoas trans. As inscrições podem ser feitas neste link.

“Acreditamos que essa interação, numa abordagem que tem como protagonista pessoas trans, pode haver valorização de nossos pares e conscientização da diversidade sem tabus e, na prática dos encontros da turma”, analisa. Dolly enxerga no teatro um espaço fundamental para o acolhimento de pessoas trans, pois, “assim como em outras instâncias de nossa sociedade, pessoas trans/travestis são negadas do direito de ter acesso a muitas ofertas de bem-estar social em nosso país”.

A atriz pondera que a oficina funciona também como um espaço “de encontros e de valorização saberes, num ambiente que busca ser o mais seguro possível para esse diálogo entre os participantes”. Dolly idealizou o curso com a ex-colega de teatro Madu Machado, agora formada, sob a coordenação do professor Ricardo Figueiredo.

Ao todo, serão 60 vagas para o curso, que é gratuito. As aulas terão início no dia 19 e acontecerão aos sábados, das 9h às 12h,no Teatro na Escola de Belas Artes da UFMG, no campus Pampulha. “O projeto amadureceu muito. Os alunes das duas turmas presenciais conseguiram produzir, escrever e interpretar com maestria uma peça inteira”, diz a estudante de teatro Morena Maria Fonseca Martins, de 23 anos. Ela coordena a oficina junto de Dolly, após a saída de Madu.

Trabalho de habilidades individuais

Segundo Morena, durante a oficina, serão repassadas noções de interpretação, voz (com foco no cuidado para se fazer as pazes com essa voz que, muitas vezes, destoa do gênero), corpo (respeitando sempre os limites de cada um) e dramaturgia (apresentando algumas obras e fazendo aulas de escrita).

A estudante destaca a importância das especificidades voltadas para o público trans, lembrando de uma situação vivida por ela. “Eu sempre tive uma voz mais aguda, entendida como afeminada. E eu tive uma professora de teatro que sempre me chamava de bicha e me tratava no feminino com ironia. Ela dizia que eu forçava para a minha voz ser aguda, que eu devia falar em tons graves. E assim eu me acostumei a falar num tom grave até que, com o afastamento dessa professora e acolhida num ambiente mais seguro, eu retomei aos poucos o meu tom original. No teatro, há muitas poses, modos de falar, andar e sentar que são binários, jeito de homem e jeito de mulher. O teatro também tem ferramentas que podem ser usadas para oprimir, especialmente, pessoas trans”, relembra.

Ao final da oficina, são montadas cenas criadas de forma colaborativa.“Todos fazem o que querem. E ajudamos a encontrar a melhor forma de se expressar”, comenta Dolly. “Nessas etapas, aproveitamos toda a bagagem que o aluno. Há pessoas que têm mais aptidão para escrever, outras pessoas já tiveram contato mais fraquente com o teatro, outras têm vocação para cantar e com isso tiramos proveito de toda essa gama de matéria-prima”, observa.

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